10 de julho de 2026
Geral

Bauruense realiza sonho de cursar medicina aos 54 anos

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Aceituno Jr.
Bauruense Eduardo Pinto Conceição, 54, foi aprovado em medicina pela Universidade Federal do Piauí (UFPI)

Eduardo Pinto Conceição comemora. Aprovado em medicina pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) há cerca de duas semanas, ele se prepara para começar uma nova vida aos 54 anos em Parnaíba, onde pretende se formar e seguir carreira como médico envolvido em causas solidárias.
O sonho da medicina começou cedo, ainda quando criança, mas acabou apagado durante décadas e a necessidade de trabalhar para sustentar os três filhos. Dois deles, hoje também envolvidos com a área. Lucas Tavares Conceição, 27 anos, está no penúltimo ano do curso de medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Renato Tavares Conceição, 26 anos, faz residência médica na Unesp de Botucatu.

Paixão pelos estudos

Eduardo conta que chegou a prestar vestibular para medicina na década de 80. “Eu estudei sempre em escola pública e era muito difícil passar. Acabei desistindo e partindo para outros cursos, mas fiquei com aquilo na cabeça”, lembra.

Ele acabou se formando em Engenharia Elétrica na antiga Fundação Educacional de Bauru (atual Unesp) e, depois, em Administração em uma faculdade particular de Botucatu.
Ainda em Botucatu, onde morava com a família, chegou a trabalhar como técnico em laboratório de hospital, como engenheiro elétrico, professor universitário e, hoje, tem sua própria empresa de prestação de serviços.

Apaixonado declarado pelos estudos, ainda mais na área da saúde, no meio do caminho, ele iniciou até um curso técnico de sistemas biomédicos, mas acabou desistindo. Foi em 2006 e 2007, com a notícia da aprovação dos filhos em medicina, que a vontade em se tornar médico cresceu ainda mais.

“Mas como sempre ensinei a eles que deveriam estudar para conseguir uma universidade pública, não seria justo eu pagar uma para mim”, cita.

Com a aposentadoria próxima, no final de 2016, ele resolveu prestar o Enem e iniciar os estudos em um cursinho de Bauru no segundo semestre do ano passado. 

“Prefiro ser um estudante feliz do que um aposentado infeliz. Me considero um cara novo e quero expandir meus horizontes”, fecha questão.

Dedicação e aprovação

A partir daí, a rotina de Eduardo começava cedo, com o despertar às 6h30. Das 7h às 17h30, ele trabalhava, das 19h às 23h45 estudava no cursinho e, da meia-noite até 2h, em casa, “passando a matéria aprendida no dia de um rascunho para um caderno e resolvendo exercícios”, método que considera extremante eficaz. 

Aos sábados, os estudos tomavam ao menos 6h do dia. O descanso ocorria apenas aos domingos, tempo que dedicava à família e a ele mesmo. 

A rotina junto aos livros rendeu cerca de quatro quilos a menos. Peso que ele diz ter compensado com a aprovação na Universidade Federal do Piauí. “Meu nome estava na segunda chamada, eu não contava com isso, foi uma surpresa muito boa”, comenta Eduardo Conceição. Nos próximos meses, em Parnaíba, município litorâneo do Piauí, ele diz que começará a nova fase de sua vida.

“Estou pronto para recomeçar aos 60 anos. Até os 75 ainda dá para fazer muita coisa”, comenta. 
Indagado sobre possível parceria com os filhos, ele diz que ainda não sabe ao certo o que será do futuro, após sua formação e residência, mas que não pretende entrar “de cabeça” no mercado. 

“Não fiquei rico até os 54 e não pretendo ficar rico usando a medicina. Quero mesmo é me envolver em projetos sociais em Parnaíba. Aquelas pessoas pagarão minha faculdade e eu quero retribuir de alguma forma. Isso, aliás, deveria ser obrigatório para qualquer curso de universidade pública”, finaliza.