09 de julho de 2026
Geral

Feira a domicílio se populariza em Bauru

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Samantha Ciuffa
Rose faz feirinhas em residenciais com o marido Hiroki, filhos Lara e Nícolas e a cunhada Débora

A figura de um consumidor cada vez mais exigente e atento a alguns tipos de alimentos tem impulsionado uma espécie de comércio alternativo em Bauru. Presentes na história do desenvolvimento da cidade por décadas, as feirinhas de pequenos produtores rurais parecem estar voltando com força. Em um ano, elas “pipocaram” no interior de ao menos oito condomínios da cidade, conforme o JC apurou.

O fato é visto com bons olhos pela Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra) por auxiliar na escoação da produção oriunda principalmente da agricultura familiar (lei mais abaixo).

Agenda lotada

A demanda pela feirinha de vegetais, frutas e legumes é tanta que as duas feirantes entrevistadas pelo JC estão com a agenda lotada durante toda a semana.

“Faço no Bogotá, no Residencial Sabiás 1 e 3, no Bauru Ville e no Bromélias, de segunda a sexta. No sábado, participo da feirinha da Vila Falcão e, no domingo, na feirinha da rua Gustavo Maciel. Nas horas vagas, vendo verduras para uma escolinha e para clientes de rua que tenho em alguns bairros”, contabiliza Rose Pereira, 33 anos, mais conhecida como Rose Verdureira. 

Grande parte dos produtos vendidos por ela vem da propriedade da família, localizada em Piratininga. O restante eles adquirem no Ceagesp de Bauru.

Os filhos Nicolas e Lara, assim como o marido dela, Inácio Hiroki, 40 anos, e a cunhada, Débora Mendes, participam tanto a produção quanto a venda.

“Eles até choram quando não trago. A feira virou a nossa casa itinerante”, brinca Rose. Já a feirante Maria Sharys Carolina da Silva, 36 anos, vende legumes, verduras, frutas hortaliças, entre outros, há aproximadamente um ano em uma bancada montada no interior do Jardins do Sul, próximo à portaria, às quartas-feiras. 

Ela diz que a maioria dos produtos são produzidos pela sua família e por propriedades vizinhas de sua chácara, também em Piratininga.

“Vendo aqui de quarta-feira, de sábado vou ao Shangrilá e de terça-feira no Lago Sul”, cita Maria, que também participa de uma feira em Piratininga, em frente à igreja Matriz.

Por votação

Aliás, para Maria, foi em Piratininga que tudo começou. “Um cliente, que era condômino em Bauru, me convidou. Depois que comecei a feirinha aqui, outras pessoas foram me conhecendo e a ideia foi se espalhando”, conta.

Rosângela Bittecourt, síndica do Jardins do Sul, explica que a aprovação dependeu de votação dos condôminos e que a venda ocorre durante um período estabelecido e contemplam apenas os moradores.

“A convenção do condomínio não permitia comércio, mas houve aceitação da feirinha por 225 dos 226 moradores, pelo fato de o condomínio ser longe de mercados”, pontua.
A iniciativa no Sabiás 3, que funciona às quintas-feiras, também partiu de uma mobilização dos próprios condôminos. Após votação, Rose, que comercializava suas verduras na rua em frente ao prédio, passou para o salão de festas do local.

Aceitação

Facilidade que a aposentada Mirian Madrigal, moradora do Jardins do Sul, não abre mão. “É como antigamente. A qualidade das verduras é outra e dá para saber a procedência do alimento”, afirma Mirian.

E, de quebra, a feirante Maria Sharys concede aos clientes a possibilidade de marcar a venda na famosa “caderneta”, caso não tenha dinheiro ou cartão em mãos. 

No Sabiás 3, a iniciativa também parece ter ampla aceitação.   “Temos muito moradores idosos e famílias. A feira facilita porque é mais próxima, tem preço bom e as verduras parecem ser mais saudáveis do que as compradas no mercado comum”, avalia Giovana Araújo, 28 anos, cliente assídua da feira.

Escoamento e agrotóxico

Chico Maia, titular da Sagra, diz que vê com ótimos olhos o crescimento de um mercado que possibilita o escoamento da produção da agricultura familiar. “São pessoas que estão buscando meios de sobrevivência. Em Bauru, quase seis mil pessoas perderam o emprego”, comenta Chico.

“Esse escoamento é bom para o produtor e para o consumidor, que não tem que pagar a mais pelo serviço de atravessadores”, acrescenta.

Rose é cadastrada na prefeitura por participar de algumas feiras livres, durante a semana e paga uma taxa por isso. O mesmo ocorre com Maria Sharys, que também tem uma taxa recolhida por participar de feiras livres em Piratininga. Nas vendas realizadas nos condomínios, entretanto, não há incidência de taxas municipais.

O secretário ressalta ainda a necessidade de capacitação de pequenos produtores, para o uso de outras formas de cultivo, sem uso direto de agrotóxico, como uma preocupação da Sagra. “Nosso papel tem sido incentivar os métodos agroecológicos e a formalização dessas pessoas”, frisa.
Nenhuma das produtoras e feirantes citadas possui selo de produto orgânico. Ambas garantem, no entanto, que buscam métodos naturais de plantio.