09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A civilização das hienas

José Carlos Brandão (dos ?Aforismos de Gregório Vaz?)
| Tempo de leitura: 2 min

Os filósofos vêm se deblaterando há séculos em torno de um osso e não descobriram ao menos a arte de rir. A civilização é uma piada de que ninguém, se julgando civilizado, se ri. O mundo é um bordel levantando-se às duas da tarde, estremunhado de sono.     

O pessimista, porque espera sempre o pior, pode ser facilmente satisfeito. O homem é um ser contraditório por excelência. Mede a sua evolução pela excelência com que passa de uma contradição a outra. A maior realização do homem é o fracasso, no qual mais persistiu, com toda a frivolidade humana. O otimista, como um cão, lambe os pés do acaso e, quando consegue uns míseros ossos, late de felicidade.

“Hoc volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas” (Juvenal). Não mudo nada, é assim que age qualquer homem. Desejo-o, ordeno-o, a vontade é mais do que a razão. “Impavidum ferient ruinae” (Horacio). As ruínas do mundo desabam sobre o homem e não o amedrontam. A honra foi própria do homem até que foi vencida pela estupidez e o melhor passou a ser considerado o mais vil.

“Ira furor brevis est” (Horácio). O homem renega a ira porque é um furor breve e nós queremos toda a loucura. O mal-estar moral que acomete o homem já deveria tê-lo feito vomitar até as tripas. O pânico é uma virtude que atinge o sublime quando levado às últimas consequências.

A nossa civilização é uma velha esclerosada que, com a inocência de    uma criança, balança os pés à beira do abismo. A história é escrita pelos fanáticos. O futuro é um reflexo das ruínas, cada vez mais escabrosas, do presente. A grandeza e decadência de uma civilização pode ser lida no lixo de uma cidade. Entre na fila, saia da fila para entrar no fim da fila, procure estar sempre no fim da fila, nunca dê por saciada a sua sede de ansiedade.

O Brasil não tem decadência a lamentar, não tem heróis em seu passado, não tem gênios. Já nasceu no fundo do abismo, burocraticamente, num arquivo embolorado.