Dizendo-se vítima de uma injustiça num julgamento político, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) fez um alerta aos deputados presentes à sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) ontem. “Hoje, sou eu. É o efeito Orloff: vocês, amanhã”, afirmou, fazendo referência a uma propaganda de vodka, para dizer que sua condenação política abrirá um precedente perigoso.
A CCJ reúne-se hoje para dar continuidade ao julgamento dos recursos apresentados por Cunha contra a decisão do Conselho de Ética da Câmara, que aprovou o pedido de cassação do mandato do peemedebista, sob justificativa de que ele mentiu à CPI da Petrobras.
O relator dos recursos da defesa, deputado Ronaldo Fonseca (Pros-DF), aliado de Eduardo Cunha, acolheu apenas um dos 16 questionamentos apresentados. Em seu parecer, porém, ele pede que o processo retorne ao Conselho de Ética, principal pleito do ex-presidente.
Os integrantes da CCJ votarão contra ou a favor do relatório de Fonseca. A maioria deles já declarou publicamente ser contrária à volta do processo para o Conselho de Ética.
Cunha voltou à Casa cinco dias após ter renunciado à presidência. Dessa vez, no plenário da CCJ, permaneceu em pé por aproximadamente cinco minutos. Poucos colegas se levantaram para cumprimentá-lo.
O isolamento expõe o esvaziamento do poder do parlamentar carioca, que até outro dia mantinha uma tropa de mais de 100 deputados atuando de acordo com suas orientações.
A sessão começou com integrantes da ala anti-Cunha questionando o presidente da CCJ, Osmar Serraglio (PMDB-PR), outro deputado afinado com o ex-presidente, que adiou de anteontem para ontem a sessão do colegiado.
Em termos práticos, a mudança da data praticamente enterrou a possibilidade de o pedido de
cassação do peemedebista ser votado no plenário antes do recesso parlamentar, que começa na sexta-feira.
Serraglio disse que, num primeiro momento, foi informado de que haveria um grande número de parlamentares na Câmara na segunda, mas depois teria sido comunicado que o quorum estaria baixo no primeiro dia da semana.
ATAQUES
Cunha e seu advogado, Eduardo Nobre, falaram por aproximadamente duas horas, mesmo tempo concedido ao relator. Na maior parte da sustentação, ativeram-se a argumentos técnicos e reiteraram a tese de que o acusado não mentiu quando disse à CPI que não mantinha contas na Suíça.
O deputado afastado, porém, não poupou acusações ao presidente do Conselho de Ética, José Carlos Araújo (PR-BA), e disse que 90% dos deputados não formarão opinião a partir dos fatos apurados, mas, sim, influenciados por motivação política. “Eu acredito até que o presidente do Conselho de Ética nem queira me cassar. Esse processo é a unica oportunidade de ele aparecer na mídia. É a típica personalidade que precisa abrir a geladeira para acender a luz”, afirmou Cunha.
Ele argumentou que o fato de ser réu e investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) - sob suspeita de recebimento de propina de diferentes origens do esquema de corrupção da Petrobras- não deve servir para que seus colegas votem pela perda de seu mandato.