10 de julho de 2026
Geral

Somente neste ano, 347 pessoas com deficiência foram alvo de violência

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 3 min

Segundo levantamento da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), somente de janeiro a maio deste ano, a pasta atendeu 347 casos de violência contra pessoas com deficiência em Bauru. No topo da estatística, aparece a violência psicológica, com 133 ocorrências. 

De acordo com a titular interina da Sebes, Rosa Okuta, os insultos mais usados são frases do tipo “você é um inválido, não é capaz de fazer mais nada” ou “você passou a ser um estorvo na minha vida”. 

“Essa agressão parte, na maioria das vezes, dos familiares ou do próprio cuidador. O deficiente, psicologicamente, se sente fragilizado”, detalha. “As causas envolvem uma série de fatores, como problemas na família, estresse da vida atual, desemprego. O familiar precisa estar disposto a  prestar cuidados especiais ao ente com deficiência, mas nem sempre tem preparo necessário  e acaba perdendo a paciência”, acrescenta Rosa. 

Logo atrás no ranking estão os casos de negligência, que somam 105. Geralmente, diz a titular da Sebes, cuidados básicos como não cumprir a rotina de alimentação e de higiene pessoal deixam de ser prestados à pessoa com deficiência. 

‘Lançados à sorte’

Nos cinco primeiros meses do ano, a pasta contabilizou 72 ocorrências de abandono, que também se caracteriza como uma violência. “Essas pessoas são literalmente abandonadas, lançadas à sorte”. Chegam a 32 os casos de violência patrimonial, quando familiares se “apossam de cartões de crédito ou conseguem acesso à conta bancária do deficiente”, exemplifica Rosa. 

A violência física tem número menor no levantamento: são cinco ocorrências de janeiro a maio. “Felizmente, nenhum desses casos é gravíssimo e a vítima já se encontra amparada em alguma das seis unidades mantidas pela Sebes na cidade”, finaliza Rosa Okuta. 

Encorajar 

Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Comude), Washington de Paula Rodrigues destaca que 72% das agressões contra pessoas com deficiência são praticadas por membros da própria família ou pelo cuidador da vítima. Por este motivo, a entidade está mobilizada junto a outros órgãos para buscar soluções.

Uma delas, frisa Rodrigues, é o desenvolvimento de campanhas publicitárias na mídia e ações de orientação, visando encorajar tanto os deficientes quanto pessoas próximas a denunciarem os crimes. “A maior dificuldade para combater esse mal é o fato de que eles (pessoas com deficiência), na maioria das vezes, não têm condições de reclamar”, exemplifica. 

“Por isso, muitos sofrem calados por anos. As descobertas, geralmente, ocorrem quando o deficiente passa por um médico ou recebe apoio de um psicólogo, cujos profissionais acabam identificando algum tipo de violência praticada contra essa pessoa”, acrescenta Rodrigues. 

Entre as ações de combate ao crime, ele citou o 1.º Fórum Regional sobre Violência contra Pessoas com Deficiência, ocorrido em Bauru, no dia 30 de junho. O evento, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência em parceria com a Prefeitura de Bauru, teve o objetivo de estimular o desenvolvimento local e regional de uma rede de gestores públicos e de planos de ação que possam inibir crimes contra esse público. 

Abandono

“Me sinto abandonado”. O desabafo é de um cadeirante de 62 anos (a identidade dele foi preservada pela reportagem), que, em 2012, foi diagnosticado com atrofia das pernas. “Fiquei dependente da minha família. Foi quando a minha esposa, após 28 anos de casamento, pediu o divórcio e me abandonou”, lamenta. 

Ele conta que, depois do problema físico, a mulher, 17 anos mais nova, o internou em uma casa de idosos mantida pela Ação Comunitária São Francisco de Assis (Acop). Há 21 dias, o aposentado foi transferido outro abrigo em Bauru. “Minhas duas filhas ficaram contra [a internação], mas não teve jeito. Elas (filhas) me visitam sempre”, contou.