Neste verbo, o mal do mundo. Apegamo-nos tanto às coisas, às pessoas, ao dinheiro, ao trabalho, aos projetos, aos compromissos, que esquecemos de nos apegar a nós mesmos. Presos ficamos a tudo e, por isso, perdemos a liberdade. Depois, o medo, até o pavor, de tudo perder. Fiéis ao espírito de época, viver passou a significar possuir. Fomos nos apegando e acumulando tanto, que a ameaça da perda aumentou em igual proporção. Então, rosnando, ficamos, caninamente, protegendo o osso das nossas posses.
Em resumo, a ganância nos levou a um grande equívoco, não percebemos que o bem viver exige exatamente o contrário: desapegar-se. Desapegar-se para livre ser. Quanto mais desapegados, menos sofreremos a intensidade da perda. Seria isso mesmo? Ou este raciocínio estaria merecendo melhor reflexão?
O médico e psicanalista Francisco Daudt da Veiga conta-nos que uma jovem paciente confidenciou-lhe ter aprendido muito bem essa lição. Disse-lhe que, “desapegada”, sentia-se mais segura pelo pouco a perder. O psicanalista não se segurou: “Ai, meu Deus, onde foi que você aprendeu isso? Então você vai passar pela vida desapegada das coisas e das pessoas que lhe importam? Só por medo de perdê-las? Perder dói, sim, mas só quando a perda chegar”.
Felizmente, a luz do bom senso. Burrice sofrer por antecipação. Então, nada de se desapegar. Ao contrário, o melhor é que nos apeguemos - e muito - a pessoas, a coisas, a projetos... Sem vínculos, não há afetividade, não há amor, não há família, não há alegria, vida não há. Sem vínculos, o que nos resta é a solidão. E para bem traduzi-la, o poeta inglês E.E. Cummings, disse, numa metáfora altamente criativa, que a solidão é uma folha que cai (“Loneliness: a leaf falls”). Imaginemos, por força da sugestão poética, a queda livre dessa folha. Desapega-se da árvore que a nutria, desapega-se dos galhos que lhe garantiam fixação e segurança... Desapega-se do todo... Então, num balé suicida, vai lentamente caindo para, no chão, rolar, secar e morrer.
Como poesia chama poesia, lembremo-nos do Vinícius para quem o amor deve ser infinito enquanto durar. Mais não se lhe pode pedir, pois o amor, como tudo na vida, é chama. Tudo queima, tudo acaba, nada será imortal. O verso, na sua sabedoria, sugere que nos apeguemos infinitamente ao amor no inteiro tempo do seu durar.
Guimarães Rosa também nos avisou de que “viver é perigoso”. E o é porque da vida nada sabemos. Sem aviso prévio, apagam-se as luzes, cerram-se as cortinas, saímos de cena, o enredo acabou. Nova urgência de viver intensamente nossos apegos.
A vida não cansa de nos ensinar que nada tem um lado só. Se o apego é preciso, o desapego também o é. Desapegar-se de coisas e de gente. Não se vive bem sem uma boa faxina, varrer tudo e todos que no seu tempo duraram. Algumas páginas precisam ser definitivamente viradas. Agora, o mais difícil desapego é o do nosso umbigo vaidoso,essa burra mania de vivermos emparedados.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br