08 de julho de 2026
Articulistas

Distância

Arnaldo Pinzan
| Tempo de leitura: 3 min

Qual é a distância entre os dois momentos desta célebre frase: “Faça o que eu mando e não faça o que eu faço. Pois é justamente isso que os poderes impõem sobre os nossos cidadãos comuns. Numa bonita entrevista à Rádio Unesp, um engenheiro da Secretaria do Meio Ambiente incentivava o plantio de árvores pela cidade e cuidados durante a plantação e manutenção, sempre lembrando que é um vegetal e precisa de cuidados da nossa parte para que se desenvolva e nos dê a contrapartida desejada.

Questionado pelo repórter, informou que o uso de tubulações ao redor para conter o crescimento das raízes e a construção de calçadas que colocam cimento até o tronco das árvores são procedimentos incorretos e que fragilizam o seu desenvolvimento, pois a raiz é que dá manutenção, sustentação e oferece a segurança necessária para aguentar ventos e situações que podem resultar em quedas e suas consequências. A importância da água para sua sobrevivência também foi abordada. Quando isso não ocorre, temos levantamentos dos pisos pelas raízes, que buscam suas necessidades. Hoje, para se obter o habite-se, é necessário, corretamente, a implantação de árvores, pensando na qualidade de vida da geração futura.

Até aí tudo muito bonito e teórico, além de esclarecedor. Agora vem a contraparte. No sábado pela manhã, andando pela avenida Getúlio Vargas, uns dois minutos antes, eu (idoso = 67 anos) e minha filha vimos um rapaz que corria sem muita velocidade nos ultrapassar e depois cair. Depois foi a minha vez de tropeçar num desses desníveis e ser levado ao chão, com traumas na mão esquerda e no joelho direito. Senti solidariedade de pessoas que também passavam naquele instante, o que agradeço muito pelas formas de tratamento que me dispensaram. Pelo telefone celular, pedi que viessem me buscar, pois não reunia condições de chegar andando em casa. Sou profissional da saúde e dependo principalmente das mãos para exercer a minha especialidade. Por pura sorte, encontro-me em licença-prêmio, tendo mais 6 delas  a vencerem, o que permite um repouso maior recomendado. Mas se tivesse na ativa? Parece que foi uma ralada provocada por queda de moto o estado em que se encontra o joelho. Hoje, ao passar pelo local, prestei a atenção no modo que as árvores foram plantadas naquela avenida. Calçadas levantadas pelas raízes, encontrei várias. Troncos cimentados, pareceu-me, todos.  Será que o plantio dessas árvores foi feito de acordo com aquelas exigências da Semma? Há alguma pesquisa sobre a quantidade de acidentes que lá ocorrem, principalmente agora que as árvores já estão maiores? E a baixa altura das copas não colocam em perigo a cabeça e principalmente os olhos pelos galhos que ali avançam? Ainda temos o fato de circularem bicicletas pelas calçadas durante a semana, desviando dos pedestres e esses daquelas.

Num condomínio, seus moradores estão sendo notificados a fazerem calçadas com passagens especiais para cadeirantes, o que “até certo ponto” está certo. Mas a dúvida: todo o calçamento das ruas é com paralelepípedos e não imagino como um cadeirante poderá se locomover nesse tipo de pavimentação, que aliás é ideal para a absorção e diminuição da velocidade da água e evita que numa chuva mais forte a enxurrada desça para as casas localizadas mais abaixo, fazendo realmente estragos, como já ocorreu. A intenção do legislador, na maioria das vezes, é ótima, mas muitas vezes está distanciada da realidade, da necessidade ou da aplicabilidade. Aquele velho ditado - “na prática, a teoria é outra” ou “a vida ensina”. Para pensar: o idoso já é predisposto mais facilmente para quedas e quanto sua recuperação representa para o já combalido INSS? E para as famílias que ainda deles dependem? Sempre alguém tem um exemplo para citar sobre o calçamento irregular de ruas de Bauru.


O autor é professor da FOB-USP e membro do Lions Clube de Bauru, 60 anos e do centenário do Lions Clube Internacional