| Aceituno Jr. |
| Gentil Bragante ao lado de uma das muitas relíquias que acumulou nos seus anos de comércio |
Quando se fala em relógios, sejam de pulso ou de parede, ou então em joias, o joalheiro Gentil Aureliano Bragante é uma das referências em Bauru. Como comerciante, ele teve uma das lojas mais tradicionais do Centro da cidade, passou praticamente meio século atrás do balcão. E pensa que parou? Nada disso. Aos 87 anos, ainda faz o clássico trajeto de passar de “pai para filho” o que aprendeu no ramo e se tornou fundamental em um novo empreendimento da família, em zona nobre da cidade.
Esse corintiano fanático na juventude também foi jogador de futebol, do “Corintinha” da Bela Vista, amor que transmitiu ao filho e também aos netos. Gentil como o próprio nome, orgulha-se de nunca ter brigado com a torcida adversária e nem com a clientela. Outro orgulho é encontrar pelas ruas gente que lhe mostra a aliança e diz: “comprei na sua loja”.
Jornal da Cidade – Como esse amor por joias e relógios começou?
Gentil Aureliano Bragante – Apesar de já ter trabalhado desde jovem em outras áreas como a de tipografia, eu aprendi a profissão de relojoeiro com Carlos Creppi já perto dos 30 trinta anos. Comecei trabalhando na Ômega em sociedade com Jaime Kretter. Foi só em meados da década de 60, que consegui montar a minha própria, A Pontual . Fica na quadra 3 da Azarias Leite próxima da Batista de Carvalho. Digo fica porque ela existe até hoje, embora já não seja minha.
JC – Uma loja de mais de 40 anos de existência.
Gentil – Sim, é difícil nos dias de hoje a gente cultivar quase 50 anos na mesma profissão.
JC – O senhor chegou ao comércio de uma forma autodidata?
Gentil– É fato. Fiz apenas o primário. Era de uma família de oito filhos (quatro meninos e quatro meninas) e sou um dos do meio. Na minha época era mais difícil estudar, muito difícil. Mas, de certa forma, eu estudei sim, aprendi muito na prática. O comércio requer estudo, estar atualizado.
JC – É preciso ter o dom e muita psicologia para lidar com o público. O senhor se saiu bem nisso, não é?
Gentil - Sim, acho que sim, estamos aí passando a profissão, deixando um legado uma continuidade. Minha família, especialmente minha esposa, a Roseli, sempre diz que eu sou um diplomata nato, porque eu nunca me indispus com o freguês. Ao contrário, mesmo o freguês estando errado, eu lhe dava razão, ele saia sempre satisfeito. Aliás, não me lembro de ter brigado com ninguém, nunca.
JC – O senhor honra o seu nome. É bastante gentil como ele, não é?
Gentil – Não só isso, acho que é também uma questão de visão, eu sempre fiz questão de ver o cliente como um amigo. Na verdade, não eram meus clientes e sim meus amigos. Vejo que isso deu certo até hoje.
JC – A prova vem quando encontra clientes antigos...
Gentil – Isso é muito gratificante. Vou ao mercado e, de repente, encontro alguém que me mostra uma aliança e diz “está comigo há 20, 30, 40 anos” ou “este anel herdei da minha mãe e foi o senhor quem fez”. Isso é muito bom, muito gratificante mesmo. Prova que demos certo.
JC – E agora está dando continuidade. Sua família tem outro empreendimento.
Gentil – Sim, meu filho André herdou esse gosto, mais pelas joias do que relógios que sempre foram a minha paixão. E ele e a minha nora estão há 16 anos com outra empresa, a Valéria Bragante (leva o nome da nora), enveredando até por novidades como as semijoias, mas sempre artigos de qualidade, como eu sempre fiz questão de trabalhar, também. E eu estou lá com eles todos os dias, dando meus pitacos, orientando. Gosto disso. Ah! Além disso, cedi (diz aos risos) para eles o grande ourives que sempre tivemos. O relojoeiro Ailton Pedro Suniga trabalha há mais de 25 anos com a família.
JC – O senhor citou sua preferência por relógios...
Gentil – Na verdade, não havia o que eu não gostava. Tanto que tivemos até vendedores de joias por catálogo, vendidos pelos funcionários da Noroeste, que vendiam daqui até Corumbá, nos anos 70 e 80. Mas tive uma predileção pelos relógios de parede, foi neles que acabei me especializando e a gente também tinha oficina de consertos. Lembro de uma situação engraçada: um dia um dos vendedores chegou com uma encomenda...um cliente queria um relógio com pulseira “azul-bordô”, claro que não pude atender...essa cor não existia. Mas virou motivo de riso até hoje.
JC – Se fosse para dar um conselho a quem está começando, o que diria?
Gentil – Trabalhar muito, e acima de tudo, ser honesto, ter confiabilidade. Nisso está o segredo. Ao contrário do que se pode pensar que é a ganância que move o comerciante, que só visa o lucro, o dinheiro, não é nada disso. Os melhores comerciantes, os mais bem-sucedidos são os mais honestos, é a honestidade que define o sucesso do profissional.
JC – Além disso...
Gentil – Quem quer trabalhar no comércio precisa ter equilíbrio, observar bem o ramo, estudar bem a concorrência que, nos dias de hoje, em todas as áreas é muito grande. Há muitos brigando por pouco.
JC – Além das raízes profissionais, o senhor também criou raízes familiares por aqui.
Gentil – Conheci a minha esposa, a Roseli, no chamado “caminho da roça”. Ou seja, eu morava na Bela Vista e, para chegar ao trabalho, tinha que passar em frente à casa dela. Resultado: estamos juntos há 60 anos, são 57 anos de casados e três de namoro. Eu brinco que foram três anos de “mãos dadas” como era o costume à época.
JC - Como vê Bauru hoje em dia?
Gentil – Independente de ter sido a cidade onde me casei, constituí minha família, do amor que tenho por este local, vejo Bauru ainda com bons olhos. É uma grande cidade, com um comércio imenso. Temos que valorizar Bauru, mesmo com a política não sendo exatamente o que se esperava, acho que Bauru até que está crescendo muito bem.