08 de julho de 2026
Geral

A simbologia da paz olímpica

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

 
 

Uma competição que, desde sua origem, ainda na Grécia antiga, guarda sua relação umbilical com a simbologia da paz. A edição dos Jogos Olímpicos sediados no Brasil, em agosto, alimentam curiosidades em torno de seus elementos mitológicos, mas, na essência, ainda representam a renovação da chama que dá vida a tudo através do ritual em torno da

Tocha, como no princípio.
Outra característica marcante das Olimpíadas, mantida até hoje, é o caráter democrático. Atletas do mundo inteiro podem, em condições de igualdade, mostrar quem realiza com maior excelência determinada modalidade. A origem na história remonta a 776 a.C. (leia mais abaixo). Mas a concepção dos Jogos no tempo deve levar em conta outros elementos.  

Para Cristina Rodrigues Franciscato, mestre e doutora em literatura grega antiga, é preciso, antes, compreender que existem várias origens mitológicas para os Jogos. “A ideia de promoção da paz já estava presente na criação dos Jogos. Mas existem diferentes versões mitológicas para sua origem. Uma delas é a de que jovens guerreiros (os chamados Curetes), que participaram no episódio do nascimento de Zeus, teriam vindo para Olímpia e instituído os Jogos. Isto está em Pausânias”, inicia.

Mas a pesquisadora elenca outras vertentes. “Uma seria o próprio Zeus que teria vencido o pai Crono em Olímpia e instituído os Jogos ao subir ao poder. Outra variável é que o primeiro rei da Élide, uma cidade do Peloponeso, perto de Olímpia, filho de Zeus, teria celebrado pela primeira vez uma competição entre seus filhos para ver quem ficaria com o trono”, acrescenta.

Uma quarta opção está associada aos Doze Trabalhos de Héracles. “Um deles foi limpar, num único dia, os estábulos de Augias, rei da Élide, que nunca haviam sido limpos. Augias não paga o combinado e Héracles então luta contra ele e o vence, realizando competições atléticas em homenagem a Zeus e em agradecimento por sua vitória”, complementa Cristina.

Já a hipótese histórica da origem dos Jogos a partir de práticas fúnebres é fortalecida por Homero, a fonte literária mais antiga para os mitos gregos, recorta Cristina. “No canto XXIII da ‘Ilíada’, Aquiles organiza jogos suntuosos em honra de seu amigo Pátroclo, morto na Guerra de Tróia. Na ‘Ilíada’, todos os chefes gregos competem, inclusive Agamêmnon, “rei dos reis””.

Vale pontuar que o espírito competitivo e a busca de feitos incomuns são recorrentes nos mitos e na prática do homem grego antigo. “No mundo homérico, os heróis, além de cultivarem a excelência guerreira, são também atletas que almejam superar seus pares e tornarem-se os melhores, conquistando glória imortal”, posiciona a pesquisadora.

De outra sorte, o costume de honrar os mortos com jogos fúnebres sai do mito para a história durante toda antiguidade. “Aqueles que morreram nas batalhas de Maratona e Platéias, contra os persas, foram assim homenageados. Conta-se que também Alexandre organizou competições atléticas após suas vitórias para demonstrar gratidão aos deuses e honrar seus mortos”, enfatiza Cristina Franciscato.

A relação dos Jogos Olímpicos com o tempo

Historicamente, os Jogos Olímpicos acontecem pela primeira vez em 776 a.C.. Mas as origens estão presentes no mito e na pré-história grega, explica a doutora em literatura grega antiga, Cristina Rodrigues Franciscato.

“Há evidências arqueológicas de que competições atléticas já ocorriam em terras helênicas, desde a Idade do Bronze, entre 2.300 e 1.100 a.C, nos chamados Período Minóico (civilização desenvolvida na Ilha de Creta) e Micênico (Grécia continental). Em Creta, já existiam competições de salto acrobático, salto sobre o touro, pugilismo e luta. Já na Grécia micênica, surgem a corrida de pedestre e a que usava o carro conduzido por cavalos”, conta.

A realização dos Jogos uniu os gregos até 394 d.C., quando o imperador Teodósio II, convertido ao cristianismo, proibiu todas as festas pagãs, inclusive as provas olímpicas.

Segundo Pausânias, os Jogos haviam caído no esquecimento até o século 8 a.C., época em que a Grécia encontrava-se mergulhada em guerras intermináveis, “Ífito, um rei da região de Olímpia, perguntou ao oráculo de Delfos o que deveria ser feito para reverter a situação. Apolo respondeu ser necessário retomar os Jogos Atléticos em Olímpia, em homenagem a Zeus”, conta a pesquisadora.

Realizados pela primeira vez na época moderna em 1896, em Atenas, os Jogos aconteceram ininterruptamente do século 18 a.C. até o século 4 d.C.. Mais tarde, o Barão Pierre de Coubertin, no século 19, é quem idealizou a recuperação dos Jogos.

“Após ter idealizado uma competição internacional para promover o atletismo e tirando partido de um crescente interesse internacional nos Jogos Olímpicos da antiguidade, alimentado por descobertas arqueológicas nas ruínas de Olímpia, Barão de Coubertin concebeu um plano para fazer reviver os Jogos Olímpicos”, conta Cristina Franciscato.

Em 23 de junho de 1894, Coubertin então organiza um congresso internacional na Sorbonne (Paris), onde propôs que fosse reinstituída a tradição de realizar um evento desportivo internacional periódico, inspirado no que se fazia na Grécia antiga. Este congresso gerou a formação do Comitê Olímpico Internacional (COI). A partir de então, Atenas inaugura essa nova fase histórica dos Jogos, em 1896, os primeiros da chamada “Era Moderna”, com a repetição do formato de quatro em quatro anos, como se mantém até hoje.

Também é relevante citar que os Jogos Olímpicos não eram as únicas competições atléticas de natureza pan-helênica que aconteciam na Grécia, embora fossem as principais. Cristina esclarece que “existiam também os Jogos Ístmicos, realizados no Istmo, próximo a Corinto, e dedicados a Posídon; os Jogos Píticos em Delfos, em honra a Apolo e os Jogos Nemeus, que aconteciam no vale de Nemeia, em homenagem a Zeus”.

No início, os Jogos Olímpicos eram realizados num único dia e só existia a prova de correr o estádio, o equivalente aos 200 metros rasos do atletismo de hoje. 

Direto do ‘templo do esporte’

A psicóloga Renata Borja esteve em Atenas, Grécia, há poucas semanas. E de lá, pelo Facebook, enviou imagens do “templo sagrado do esporte”.

“O local é belíssimo. É todo em mármore. É o mesmo local das Olimpíadas da antiguidade. Ele foi reconstruído em 1896, quando Atenas ‘inaugura’ a nova fase dos Jogos e foi palco das primeiras Olimpíadas da Era Moderna. No monumento, li que os atletas jogavam nus. Ficamos impressionados com o calor do local e imaginando como os atletas conseguiam ter bom desempenho nessas condições”, conta.

Ela conta que, no estádio, tem uma gruta que, na antiguidade, era um tipo de local sagrado em que as moças solteiras iam fazer uma espécie de ritual religioso. “Neste local, elas dançavam e cantavam em volta de uma fogueira num corredor que se chamava caverna dos destinos. Elas acreditavam que fazendo isso arranjariam o melhor marido. Essa gruta serviu de passagem do estádio para um complexo onde ficavam os vestiários dos atletas nas primeiras Olimpíadas modernas”, completa.

Ideia de congregação

Sob um olhar ou outro, o formato moderno dos Jogos mantém a ideia de confraternização de todos os países, culturas e atletas, ainda hoje. “Essa ideia de congregação, confraternização e disputa atlética, mas ancorada num movimento de paz entre as nações, é o que prevaleceu até hoje”, sustenta a pesquisadora Cristina Franciscato.

Porém, para a compreensão histórica dos fatos, é importante lembrar que a Grécia, como País, nunca existiu na antiguidade. Existiam as chamadas cidades-estados que rivalizavam muito entre si. “Tanto que no século 5 a.C. houve a Guerra do Peloponeso entre Atenas e seus aliados e Esparta e os seus. O que dava identidade ao povo grego, seja do continente ou das ilhas, das cidades da Magna Grécia (sul da Itália e Sicília) ou da Costa da Ásia Menor (hoje Turquia), era a língua e os deuses”, descreve.

Um meio de união entre os gregos era também a realização desses jogos chamados pan-helênicos (de hellas: nome verdadeiro da Grécia, e pan: todos), que começam a se desenvolver na Grécia no século 8 a.C., em grandes centros religiosos pan-helênicos. E Olímpia era o principal deles.

“Os Jogos Olímpicos não eram os únicos. Tinham os Píticos, os Ístmicos e os Nemeus. Mas todos tinham como foco a unidade entre os povos, ancorados na paz. Eram sempre realizados em homenagem a uma divindade. Em Olímpia, o maior dos Jogos, eles eram realizados em homenagem a Zeus”, menciona Cristina Franciscato.

Uma curiosidade de forte conteúdo simbólico é que a cerimônia de acender a Tocha Olímpica é, atualmente, feita nas ruínas no templo de Olímpia. “Mas a grande divindade cultuada em Olímpia era Zeus, o senhor do Olimpo”, enfatiza Franciscato.

Portanto, a ideia da Tocha é o fogo sagrado que dá vida a tudo. “Outro costume muito antigo e muito grego é que, no centro de cada edifício público, lar ou templo, há uma lareira. Quando ele ia fundar uma colônia na Sicília ou no Mar Negro ou na costa da Ásia Menor, o ritual de continuidade era dado pelo fogo sagrado. O fogo era levado com todo cuidado da cidade mãe para a colônia fundada. A ideia é que o fogo preserva esse laço com o sagrado”, reforça a pesquisadora.

Como elemento igualmente essencial de seu conteúdo, a vitória nos Jogos representava o coroamento de uma vida dedicada à superação de limites na busca de excelência física e moral.