08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Noite sem luar

Roque Roberto Pires de Carvalho
| Tempo de leitura: 3 min

8 de julho de 2016 – Véspera de um feriado cívico; por volta de 17 horas ele já se encontrava em casa após uma sexta-feira repleta de compromissos. Nas tardes de inverno as noites chegam mais cedo e ao acender as luzes da sala verificou a existência de um apagão... não era só a sala, a cidade estava apagada... Aparentemente a cidade estava deserta. Ligou para a concessionária dos serviços de eletricidade e ficou sabendo que iria faltar energia até por volta de 21 horas... Notícia estranha... não era problema dele e com  toda certeza a concessionária iria encontrar a solução. O problema dele agora era encontrar nas gavetas dos armários as antigas velas... aquelas antigas velas usadas quando morava em sítios com escuridão permanente.... exceto nas noites de lua cheia. Na cidade grande não se encontrava mais e com facilidades os lampiões Petromax e os de carbureto. Velas, ao contrário, eram  comuns nos mercados. Para ele, ler um livro não era tarefa muito fácil – enxergava pouco mesmo com lâmpadas led. O negócio era encontrar algo para fazer naquele breu noturno. Procurou saber com os vizinhos o que havia ocorrido. Boatos dos mais desencontrados foram colhidos. Diziam  de uma possível sabotagem nas  redes de transmissão; poderia também ter sido um acidente aéreo ou terrestre; diziam também os saudosistas que em 1964 grupos insatisfeitos provocavam a escuridão para melhor agirem, saqueando e destruindo patrimônios. Por ora, nada disso havia sido confirmado. Por falta de energia elétrica as notícias políticas foram momentaneamente esquecidas e o relógio independentemente continuava com seu tique-taque no silêncio, agora mais facilmente audível... Ele, por sua vez, gostava muito desses momentos de paz sem os barulhos das ruas...;  em sua cadeira de  espaldar alto olhava para as velas acesas, sim, estavam acesas, mas começava ali o seu crepúsculo. Olhava para a vela e sentia a proximidade do  grande final.  Uma brisa entrando pelas janelas fazia de suas chamas uma coreografia típica de um bailado sem ensaios... Ele observava que a luz da vela iluminava a sala e ao mesmo tempo lágrimas de cera eram derretidas sob o calor incandescente... Assim como a vida a chama da vela iria perdurar acesa até mostrar-se em pavio retorcido sobre um pires quase vazio no escurecer da noite. Nas noites frias e longas do inverno a lua minguante deixa a iluminação do céu por conta das estrelas. Elas cumprem com suas tarefas...

No amanhecer do dia 9 parecia ouvir  um clarim chamando os jovens para a luta. Contrariando a noite,  o dia era de muito sol, de muitas esperanças... Na capital havia começado uma revolução e havia a necessidade da adesão da sociedade paulista e, em especial, dos jovens. O toque de reunir do clarim não era para ele – sentia-se dispensado daquele chamado... Não por falta de patriotismo,  mas sim por admitir que seu tempo fugia para muito longe...

Ao receber o jornal deparou-se com a manchete: “A escuridão da noite de ontem foi provocada por impacto de um avião de pequeno porte na rede  distribuidora de energia”. Para o acidentado piloto,  a noite sem nenhum luar começou mais cedo... era o momento oportuno para fazer uma prece em forma de oração...