09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

"E de amor, ninguém fala?"

Professor Sinuhe Daniel Preto, em dúvida se ainda é amado...
| Tempo de leitura: 2 min

O professor abre a aula de período composto  com a frase: “Eu te amo porque não bastante ou demais a mim”, atribui a Drummond, o poeta de Itabira, a autoria da obra-prima. No entanto, culmina com a classificação: trata-se de uma oração subordinada adverbial causal, diante de pasmados, atônitos e perplexos discípulos, tenta explicar o difícil: oração porque tem verbo, subordinada porque depende da outra oração, adverbial porque indica uma circunstância adverbial e causal porque a circunstância é de causa, entenderam?

Porém, o que é difícil, entender a Gramática ou entender a vida? O que quis dizer Carlos Drummond de Andrade com a análise em seu “As sem-razões do amor”?  Amar a outrem antes de amar a si mesmo? Quem é capaz? Por onde anda o amor? Onde se vende isso? Quem é o próximo? Aquele que vem antes do anterior, sendo, portanto, posterior? E isso é ser ser superior ou inferior? Amar a alguém é dar moral demais a outrem?

Quando o fast-food diz “Amo muito tudo isso”, de que amor fala, quem é amado, o redondo e sedutor hambúrguer? As pessoas que postam a todo o momento “Amo”, amam a quem ou a quê?

Roberto Freire escreveu: “Ame e dê vexame”. Você já fez isso? Pode-se pichar, se for por amor? Há poesias ainda? alguém ainda brinca de “pera, uva, maçã ou salada mista”?

Creio que a sentença a que estejamos condenados é a de aprender a amar, quando Drummond diz que não se ama demais, não é que se esqueceu de si mesmo, mas sim que reservou a outra pessoa o que poderia sentir por si mesmo, mas como conseguir tal façanha? Qual é o segredo?

Os cônjuges ainda se amam? Casa-se por amor? Há medo porque o bônus da liberdade cobra o ônus da solidão?

A quem se diz “Eu te amo”? O que é necessário para que se fale ou se ouça tal declaração? O correio elegante virou Whats?

As flores ainda são roubadas dos jardins? Lulu Santos ainda é “o último romântico dos litorais deste Oceano Atlântico”?

E acabando a aula de Gramática, o professor escreveu no quadro negro da educação: “Amo-te” com ênclise porque amo para o depois, para o verbo e para o pronome!

“Te amo” com próclise porque amo antes de ser um sujeito ou algo abstrato ou concreto.

“Amar-te-ei” com mesóclise porque amo no meio que justifica qualquer fim!

A verdade é “E de amor,  ninguém fala?”