08 de julho de 2026
Articulistas

Amanhã tem ontem

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Isto geralmente acontece. Se o antônimo de amor é o ódio, o da atenção, o descaso. O da união, separação, o do singular, o plural, qual seria o contrário à vida? A rotina? Se o é, necessário se redescobrir nas virtudes, até então ocultadas nos dons, por hora adormecidos, na proatividade, circunstancialmente, rouca. Afinal, toda essa reforma íntima  sentido faz se eu reconhecer, dentro das minhas vulnerabilidades, oportunidades para melhoramento e evolução pessoal. 

Assim como o sujeito está para a rotina, o hábito está para o predicado. Costumeira, a rotina trai nossa retina. Por isso, a vista cansada, fronteiriça, o metro, ainda, quadrado. Incomodado, um ponto de interrogação, nada rotineiro, visita-me. A rotina seria causa ou consequência do que - não - somos?

Minha obstinação pela resposta é rapidamente varrida, quando reconheço a existência de um duelo surdo dentro de nós. Uma parte quer voar, viajar, pisar em areias inexploradas. Ir além. A outra, singela e aquém, limita-me à alegria de quermesse. Afivela-me à convocatória do comportamento obedientemente  paroquial. Dessa forma, como almejar a altura livre de um voo, se minha fidelidade canina fareja as convenções sociais do chão? Nesse desconfortável descompasso, ainda assim, evito que ardilosa rotina visite minhas intimidades. Precavido, dou colorida cor ao meu relacionamento amoroso, até porque - convenhamos - dar tons de cinza, já deu, né!

Dessa forma, tento me afastar da rotina. Difícil desafio para quem, reconhecidamente, viveu desenhando a vida com borracha. Pra quem, com cinco ou seis retas, construiu castelos geometricamente iguais. Para quem viveu retrospectivamente, na tentativa de compreender a vida progressivamente. Pra quem desinteressante por desconhecer quem é, desinteressado permanece por ignorar quem poderia ser. E nesse museu de grandes novidades, até  a escola, em escala, nada faz, quando rotiniza alunos a copistas e professores a dadores de aula, num processo didaticamente conteudista, desinformador de opinião e desprovido de senso crítico. Compreensível, portanto, a rotina da pergunta ser a resposta, ainda que mal dada. A rotina do estudo ser a decoreba e da decoreba, a prova. A da prova ser a nota, a da nota, o boletim. A do boletim, os pais. A dos pais, a cobrança.

A rotina da cobrança, portanto, seria a responsabilidade. Da responsabilidade, o aviso. Do aviso, a lembrança. Da lembrança, o choro. Do choro, a lágrima. Da lágrima, a saudade. Da saudade, o amor. Do amor, a loucura. Da loucura, a prática da mais incompreensível rotina humana.Enxergar diferente, vendo igual. Procurar pontos de vista diferentes, porém estacionar em pontos, cujas vistas são iguais, vivendo, ou melhor, sobrevivendo assim, impediria que a metamorfose buscasse rotina no ambulante.

E entre o movimentar e o agir, a rotina do gosto seria gostosamente a escolha. Da escolha, o desejo. Do desejo, a pessoa. Da pessoa, a boca. Da boca, o beijo. Do beijo, a língua. Da língua, a voz. Da voz, a garganta. Da garganta, o grito. Do grito, a música. Da música, o movimento. Do movimento, a dança. Da dança, o corpo. Do corpo, o toque. Do toque, a pele. Da pele, o arrepio. Do arrepio, a vontade. Da vontade, o tesão. Do tesão, o sexo. Do sexo, a penetração. Da penetração, o prazer. Do prazer,...  o go-zo.

Do gozo,... o relaxamento. Do relaxamento, a observação. Da observação, o pensamento. Do pensamento, a ideia. Da ideia, a teoria. Da teoria, a prática. Da prática, o texto. Do texto, o parágrafo. Do parágrafo, a técnica. Da técnica, a redação. Da redação, a notícia. Da notícia, o jornal. Do jornal, a pauta. Da pauta, a manchete. Da manchete, a página. Da página, a crônica. Da crônica, o assunto. Do assunto, opinião. Da opinião, o argumento. Do argumento, o convencimento. Do convencimento, o você. Do você, a vida. Da vida, a circunstância. Da circunstância, o horizonte. Do horizonte, a amplitude. Da amplitude, o tudo. Do tudo, o sempre. Do sempre, o acontecimento. Isso sempre acontece.


O autor é professor de Redação em colégios e universidades e colaborador cultural do JC; alexandrebenegas@gmail.com