09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A ficção do tempo

José Carlos Brandão
| Tempo de leitura: 2 min

A náusea é um requisito para o conhecimento, que, com suas próprias forças, é uma bolha no vácuo. Quero furar os meus olhos para só olhar para dentro de mim e me afogar completamente no turbilhão de nojo que trago nas vísceras. O tempo é uma ficção que criamos para não sentir a monotonia do real, que nos asfixiaria. Contemplo o esqueleto que sorri no espelho com pena da minha aparência triste, do meu ser excessivo. Mas não há pior prognóstico do que o pressentimento de que, quando o homem destruir o mundo, suspirará: missão cumprida. Por isso vale concluir que toda obra deveria ser destinada ao fracasso, porque tem por sujeito e objeto o homem, que é a encarnação do fracasso.

Propaga-se que o homem é um animal adúltero para se obnubilar que é um filho do incesto. Estou me lembrando da frase: o otimista é um burro. Não sei quando ou onde Machado de Assis disse isso. Quase exato; falta apenas completar: o pessimista também. Para se valorizar a palavra escrita, erroneamente diz-se que Verba volant, isto é, as palavras voam, somem. Se não voassem, quão fétido seria o chão. Não é à toa que tenho remorso de não ter remorso. A verdade é que todas as teses são indefensáveis. Como sou um homem, admito que eu amo a violência, o sangue derramado, quente, borbulhante. Uma vez eu vi um homem na calçada com os miolos de fora. Inacreditável que possa ser inteligente um ser com uma bola de pus nojenta como essa na cabeça.

Com toda sua parcimônia sabia que entre a estupidez e a sabedoria não passa o fio de uma navalha. Por baixo da injúria, do desprezo, do mais vil degrau a que rebaixem a minha condição humana ou a que eu a rebaixe, está um homem, esse ser com uma ignomínia à prova de quaisquer recompensas como essas. Credo quia absurdum (creio porque é absurdo), disse Tertuliano ou, talvez, Santo Agostinho para provar que a fé vale por si mesma, não precisa de comprovação. Eu, Gregório Vaz, o poeta das incongruências, penso que a existência é tão absurda que só nos resta crer, ao menos crer na mitologia do absurdo.

O autor faz parte dos “Aforismos de Gregório Vaz”.