| Fotos: Douglas Reis |
| Rua Cuba é das mais antigas; o asfalto remendado é reclamação constante de quem ali trafega |
| Homenagens ao Rio de Janeiro no Jardim Terra Branca |
Na última quarta-feira, Japão e Coreia do Sul garantiram suas vagas no futebol masculino, para as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Hoje, faltam dez dias para o início das competições. Oficialmente, a abertura é no dia 5, mas no dia 3 haverá jogo de futebol feminino.
Coincidência ou não, as Olimpíadas serão em agosto, justamente o mês de aniversário de fundação de Bauru, cidade que tem várias ruas com nomes que homenageiam os países que estarão na disputa, a maioria delas localizadas no Jardim Terra Branca.
O Japão, por exemplo, é um dos mais homenageados. São cerca de 80 pontos em vários bairros com nomes de imigrantes e seus filhos e até uma Vila Nipônica, isso sem falar num núcleo inteiro homenageando um descendente, o Nobuji Nagasawa. Agora, nome de rua mesmo só a Alameda Japão, localizada no condomínio Vale do Igapó, ainda um pouco distante da zona urbana.
Na outra ponta histórica, os coreanos estão entre os mais recentes imigrantes da cidade. Há pouco mais de uma década se estabeleceram no Centro e estão presentes do comércio popular, nas ruas Batista de Carvalho, Primeiro de Agosto e adjacências.
Potências olímpicas
Mas tanto japoneses quanto coreanos são potências na arte de colecionar medalhas olímpicas. Os japoneses já conquistaram mais de 300, 35 delas de ouro, num esporte que os brasileiros apreciam: o judô. Coréia do Sul e do Norte juntas também se aproximam de 300. Nada que se compare, claro, às cerca de 2.300 medalhas dos Estados Unidos, conquistadas desde as primeiras Olimpíadas, em 1896, em Atenas, na Grécia, das quais mais de 300 só no atletismo
Rua Estados Unidos
Em Bauru, os Estados Unidos têm a “sua rua” no Jardim Terra Branca, com 18 quarteirões, que terminam no Recinto Mello de Moraes. Andar por suas quadras, pelas transversais e paralelas, é conhecer um emaranhado de nomes de países, em especial da América Latina, como Uruguai, Paraguai, Peru, Venezuela, entre outros. São ruas compridas e tranquilas e bastante elogiadas por seus moradores que se apaixonaram pela região. Caso de Tony Wesley, que era morador da Vila Santista e agora adora o Terra Branca. Servente de pedreiro, cinco filhos, o mais velho tem 12 anos, ele confia que as crianças podem brincar à vontade na região. “Aqui é muito quieto, sossegado, dá para deixar todos brincando na rua”, contou levando pela mão os dois menores para empinar pipas. “A rua é larga, há o campinho, não tem perigo de fio não”.
Uma coleção de histórias dos nossos principais rivais em muitas modalidades
Conversar com moradores da rua Cuba é entrar na história da cidade. É bem uma via à moda antiga. Têm casas de dezenas de anos, algumas de madeira ainda, construídas nas décadas de 60 e 70, e é um pouco mais estreita que as demais. Em todas as terças-feiras pela manhã, a feira-livre se torna o ponto de encontro dos moradores da região.
Um deles é Laércio Toledo, que elogia o país que dá nome à rua. “Embora seja comunista é o país das vacinas. A pesquisa deles nessa área não se pode desprezar. Em termos de remédios eles são bons”, diz. Há 64 anos ele vive no mesmo local onde nasceu. “Olha, isto aqui na minha infância era um areião”, recorda-se. Metalúrgico, hoje trabalha como autônomo e embora a rua seja toda asfaltada ele reclama da manutenção e dos buracos na via.
“Às vezes, eu brinco com o pessoal da prefeitura que passa aqui todos os dias que o estado da rua até depõe contra eles mesmo e qualquer dia um caminhão vai acabar ficando nesses buracos”, diz bem-humorado. É que a rua é chão de passagem para os veículos da regional da Secretaria de Obras que fica próxima.
Como esportista que foi, Laércio também teve carreira de técnico do time amador de futebol da região, o Independência. Ele fala com propriedade sobre esportes e espera que desta vez o Brasil ganhe o título no futebol: “Sempre bateu na trave”.
Torcedoras especiais
E os cubanos são bons de vôlei. Para atestar estão na feira duas vendedoras de queijo e ex-atletas da modalidade. “Vixe! Jogo contra Cuba é pegado, sempre foi briga na certa”, lembra Aline Antunes Souza Silva. Aline é ela própria uma ex-jogadora de vôlei de Bauru (vinda de Ibaté) e que ao lado de outra ex-jogadora, a Roberta Zucato Magalhães (de Mineiros do Tietê), escolheu Bauru para morar depois que deixou as quadras.
Há um ano, elas se transformaram em feirantes. E estão bem felizes. “A gente está aprendendo a profissão, fazendo a clientela, mas é muito legal, acho que estamos indo bem”, diz Aline. E ainda sobre as Olimpíadas Roberta, que vai assistir ao máximo de jogos que puder, considera que o Brasil já está em um patamar acima. “Apesar da troca de jogadoras, evoluímos bastante. Vamos tanto no masculino quanto no feminino para as cabeças. Acho que Cuba não é mais páreo não. Assim espero”.
Pessimismo
Ainda bem que elas (as novas feirantes Aline e Roberta - leia acima) não se deixaram contaminar pela feirante experiente Neide Camargo, de 53 anos, que trabalha com frutas e verduras há pelo menos 40. Vizinha de banca, Neide reclama que as feiras livres estão acabando.
“Antigamente tudo era divertido, tudo era bom. Hoje, não. Ninguém mais quer saber de vir à feira. Para quê pagar à vista se no mercado podem financiar com cartões para 40 dias?”, diz reclamando da crise e engrossando o coro dos que acham que o Brasil não deveria ter Olimpíadas.
Rio de Janeiro também é homenageado
A rua Rio de Janeiro fica na Vila Cardia e foi batizada com esse nome por volta dos anos 60 quando praticamente todas as vias desse setor da cidade tiveram nomes de Estados brasileiros. Mas é justamente onde estão as ruas com nomes de nações, no Jardim Terra Branca, que está a maior homenagem à cidade-sede das Olimpíadas.
Entre as ruas México, Argentina e Estados Unidos se encontram quatro condomínios verticais. São os conjuntos de prédios Copacabana, Corcovado, Guanabara e Cristo Redentor.
Condomínios dotados de toda infraestrutura e bem valorizados, numa região que, percebe-se, tem boas casas e é bem urbanizada. Todas as ruas são bem arborizadas. Local onde os moradores podem passear à vontade com seus cães no final da tarde. Caso de Giselly Adaz com a shit-zu Naila e de Cristiane Lacerda com a fêmea da raça labrador retriever Bela. Tranquilas, as “cachorrinhas” se encontraram no passeio e quase ficaram amigas.
As suas donas não estão muito preocupadas com as Olimpíadas não. Mas concordam que morar na Patagônia e Canadá é muito bom. Curiosa, Cristiane se pergunta: “Será que a Patagônia participa dos jogos?”
Patagônia
Sim, a Patagônia participa, mas não exatamente como Patagônia, já que seus atletas são da Argentina e do Chile. É que a Patagônia é um território gelado com área dividida entre os dois países. Até por isso mesmo, como o Rio de Janeiro vai sediar os primeiros Jogos de Verão na história da América do Sul (e por isso é pouco provável que a Argentina obtivesse o direito de organizar a competição a curto prazo), é que o tradicional rival brasileiro no futebol masculino, a Argentina, quer ser sede dos Jogos de Inverno. A Argentina está pleiteando realizar na Patagônia as primeiras Olimpíadas de Inverno que nunca foram realizadas no hemisfério sul.
Como se nomeia uma rua
É atribuição de um vereador apresentar projeto de decreto legislativo que denomina o logradouro, no caso rua, praça, avenida ou parque público. Porém, o encaminhamento é da prefeitura. Os locais que precisam de denominação são definidos pela Divisão de Cadastro da Secretaria de Planejamento (Seplan). Só se pode dar nome de rua a pessoas que já tenham falecido e, quando propõe o projeto, o vereador precisa apresentar o atestado de óbito do homenageado.
Otimismo
Na rua Argentina, paralela à Cuba e à rua Estados Unidos, Flávio Rodrigues, operador de máquinas, 29 anos, dá um show de otimismo, mesmo desempregado. Ele diz que está esperando a crise passar para procurar emprego, dando um tempo e que vai arrumar logo. Das quatro pessoas da família, só ele está desempregado. Adora morar na rua Argentina, que tem 27 quadras, no final da rua, mas em região com asfalto recente e calçadas bem cuidadas. Próximo de sua casa há “dois bons empreendimentos. Uma lavanderia que atende até hospitais e um dos melhores locais de festas da cidade”, comemora ele, por ver o crescimento onde mora há dez anos. “Por aqui tem de tudo e com sossego. Não tem briga com esta Argentina”.
Praça de todos os bauruenses
Os entrevistados apontaram outra razão para gostar da região: a Praça da Hípica. Uma área de lazer que oferece variedade gastronômica através de trailers, parquinho infantil para os filhos dos moradores e até possibilidades de novos empreendimentos de lazer para as crianças. Atrai gente de toda a Bauru.