10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana com bauruense campeão mundial escolar de atletismo

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 7 min

Fotos Samantha Ciuffa e Aceituno Jr.
Cléverson foi campeão mundial na Turquia
Cleverson(branco) com o pai Cleverson pereira, a mãe Deise Sabino Pereira e os irmãos Giovanni e Diogo da Silva Pereira(vermelho)

Quando começou a praticar esportes, aos 8 anos de idade, no projeto social da Associação Comunidade em Ação-Êxodo (Acaê), Cleverson da Silva Pereira Júnior nem imaginava que se tornaria campeão mundial escolar nove anos depois, sendo o atleta entre 13 e 17 anos mais veloz do mundo nos 400 metros rasos no Gymnasíade. Ao contrário, o atletismo nem era o esporte predileto do garotinho que ocupava suas manhãs em segurança, praticando várias modalidades, enquanto os pais trabalhavam. Ele gostava mesmo era de jogar futebol. Mas a medida em que as passadas foram se ampliando nas pistas e os resultados aparecendo, Cleverson Júnior iniciou uma jornada no atletismo que culminou com a conquista do ouro no Mundial Escolar na semana passada, e com a certeza de que a promessa de um grande atleta pode se tornar realidade. “Com muito trabalho”, faz questão de ressaltar Cleverson Júnior, atleta da Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA). Do garotinho que gostava de futebol ao adolescente campeão mundial, muitos fatores contribuíram para a evolução de Cleverson. Entre eles, a parceria com o técnico Neto Gonçalves, o respaldo do projeto da ABDA e o apoio da família foram fundamentais. 


Jornal da Cidade – Como surgiu o esporte em sua vida?
Cleverson Jr. – Foi na Acaê (Associação Comunidade em Ação-Êxodo), um projeto social. Minha mãe me colocou lá com 8 anos de idade, porque ela tinha que trabalhar e não tinha tempo de cuidar de mim de manhã. Eu ficava no projeto social de manhã, almoçava lá e ia para a escola à tarde. O projeto tinha não só atletismo, mas também futebol, vôlei, natação... E eu gostava de fazer todos os esportes, não gostava de ficar parado. Com o tempo, começaram as competições e fui me destacando. Só que eu não gostava tanto do atletismo, gostava mesmo era de jogar bola. Fui treinando atletismo, mas sem a meta de ficar. Cheguei a querer desistir. Minha mãe me pediu para continuar e resolvi não parar com nada, continuar fazendo todas as modalidades. E foi quando o professor Neto (Gonçalves) surgiu e comecei a me desenvolver mais, ter oportunidades.

JC – Foi o momento em que veio a decisão de se dedicar exclusivamente ao atletismo?
Cleverson Jr. – Sim, resolvi largar todos os outros, futebol, natação... Quando veio 2013, fui federado, a ABDA começou a surgir e foi o momento de focar no atletismo. Eu vi que tinha futuro. E coloquei o atletismo de vez na minha cabeça quando consegui pódio no Campeonato Brasileiro mirim, em 2014. Este campeonato demonstrou que era hora de focar de vez. Eu sabia que tinha potencial, ergui a cabeça e no ano seguinte subi ao pódio de novo, fui vice-campeão brasileiro interseleções, campeão brasileiro no revezamento. E as coisas foram acontecendo. É um esporte que faço por amor, dá gosto treinar. Pode estar chovendo ou fazendo sol, eu treino mesmo. É um esporte que eu amo e, graças a ele, conheci muito lugares novos e agradeço muito.

JC – E como foi a transição para uma estrutura maior, como a da ABDA?
Cleverson Jr. – Antes, o campo onde a gente treinava, no Jardim Petrópolis, era terrão. Muitas crianças iam lá descalças, era um projeto social mesmo. Começou a surgir a ABDA, eles fizeram uma reforma no campo, surgiram oportunidades de viajar para disputar duas, três competições por mês e tínhamos uma boa preparação. A ABDA chegou em um momento ótimo. Se não tivesse chegado, não sei o que poderia ter acontecido e nem o que estaria fazendo hoje. Tenho que agradecer muito. 

JC – Como é a rotina para conciliar treinos, competições, lazer e estudos?
Cleverson Jr. – O meu dia a dia é acordar cedo, por volta das 5h50, para me arrumar, porque sou lento para me trocar. Estudo na parte da manhã, levo minha comida de casa e já almoço na escola. Depois faço academia ou fisioterapia. Os treinos de atletismo são por volta das 15h30. O meu momento de lazer, geralmente, é depois das 20h30. E, às vezes, eu chego do treino e tenho que revisar algumas coisas da escola ou fazer trabalhos. No momento livre fico na internet, tento jogar um videogame para distrair a cabeça. Nos finais de semana, eu saio com a família e os amigos. Mas é complicado, porque tem sempre competições e não fico muito em casa. Tenho que abrir mão de algumas coisas pelo trabalho, porque isso, para mim, é um trabalho. Já tive que faltar a eventos de família porque estava competindo. A família fica triste, mas entende. Porque é graças ao esporte que estou conseguindo muitas coisas boas. 

JC –  A ABDA tem atletas de várias idades no projeto. Mesmo jovem, com seus resultados expressivos, você já se sente um exemplo, um incentivo, para os mais novos? Procura passar algo de sua experiência para eles?
Cleverson Jr. – Sim. Quando eu comecei, não tinha nada em mente. Pensei em treinar e ver o que iria acontecer. Nunca botei na minha cabeça que iria treinar e seria campeão mundial. Fui treinando, as coisas foram acontecendo e, aos poucos, fui crescendo e conquistando meu espaço. Como eu falo para eles (colegas de equipe), o título não é só meu, é de todos que estão ali do meu lado. Já passei por este momento de ver um atleta que admiro. Tento ajudar e mostrar que todos têm chance, basta acreditar no potencial e treinar bem. Tento motivar todos, porque eles são minha família. 

JC – E quanto a você, qual é o atleta no qual você se espelha, um ídolo?
Cleverson – O Usain Bolt é uma inspiração para todos os tipos de atletas, não só para aqueles que fazem a prova dele. É uma referência para mim. Sempre, quando estou em um momento triste por ter feito algum tipo de treinamento e não ter gostado tanto, vejo vídeos dele, o que ele já passou e sofreu, e chegou ao topo, conseguindo seis medalhas olímpicas e sendo considerado o melhor atleta do mundo. É uma coisa que eu tento sempre ver como motivação. E também atletas brasileiros. Mas a gente não pode ter apenas um tipo de motivação. Meu pai também é minha motivação. Ele está me ajudando em tudo que preciso. Em todas as competições ele fala: “você está treinando para isso e vai dar seu melhor”. É um exemplo. E também meu professor (Neto Gonçalves), que me dá apoio e me incentiva. No momento que eu mais precisei, quando não consegui um pódio no Brasileiro, ele falou para eu erguer a cabeça, que o sonho não tinha acabado e que não é toda hora que a gente consegue realizar nossos sonhos. E coloquei isso em mente.

JC – Você citou o Usain Bolt como inspiração. Ele tem como característica marcante, uma chegada muito forte. Mas ele corre os 100m e os 200m, provas mais curtas do que a sua especialidade, os 400m rasos, uma volta inteira na pista. Qual é a boa estratégia para correr os 400m?
Cleverson – É tentar dosar. Fazer uma curva boa e uma reta econômica para aguentar os últimos 100m, porque é ali que todo atleta sente o peso nas costas e nas pernas. E é aí que é o momento da raça, que você tem que ouvir não só o que seu corpo está sentindo, mas a mente falando que dá e batalhar com seu corpo. Foi uma coisa que aconteceu no Mundial. Eu virei os últimos 100m, o atleta da Turquia estava na minha frente e botei na cabeça que daria para ser campeão. E foi até os últimos 20, dez metros, onde decidimos quem seria o campeão (Cleverson venceu a prova por 11 décimos).

JC – Qual seu sonho no atletismo e até onde pensa que pode chegar?
Cleverson – Como todo atleta, é buscar uma Olimpíada, um Mundial adulto, um Pan-Americano. Pretendo ser considerado o melhor atleta brasileiro em minhas provas e brigar por uma vaga no revezamento brasileiro adulto. São sonhos. Só que é uma coisa que não gosto de ficar falando, não sabemos o que vai acontecer daqui para frente. Eu tenho estes sonhos, mas tenho o sonho deste ano, os objetivos deste ano (o próximo objetivo é o Sul-Americano). E tenho que trabalhar bastante.

JC – Você segue estudando. Pretende seguir qual carreira profissional?
Cleverson – O atletismo é um esporte que traz muita coisa boa e amo. Mas quero estudar bastante e minha meta é fazer educação física para ser treinador e passar um pouco da minha experiência para meus alunos. Espero ter um bom desempenho também nos estudos.