Na tradição mística judaica, Shehkina significa Presença de Deus no mundo e identifica a apóstola amada de Jesus Cristo, Maria Madalena. Neste 22 de julho comemorou-se mais uma vez seu dia de honra em todo o mundo cristão. Uma antiga tradição diz que Santa Maria Madalena teria vivido na França, após a perseguição dos judeus aos cristãos e a expulsão dos judeus de Roma pelo Imperador Claudio, ao mesmo tempo em que convulsões assolaram Israel e culminaram com a destruição de Jerusalém pelos romanos, por volta do ano 70 da nossa era.
Uma caverna na região da Provença francesa, nas proximidades de Marselha, mais precisamente em Veselay, é apontada como o lugar onde ela viveu em seus últimos 30 anos. No ano de 1279, o conde Charles II promoveu escavações na região e encontrou um belo sarcófago de mármore, com uma tábua recoberta com cera, na qual estava escrito: “Aqui descansa o corpo da Beata Maria Madalena”, e um papiro explicando a razão pela qual o sarcófago havia sido colocado ali.
Os cientistas das religiões tem pesquisado e descoberto o cotidiano da vida intensa e digna de Maria Madalena. Ela foi uma empresária do ramo de peixes no Lago de Genezaré (Galileia), em Migdal, hoje El Medjdel, povoação onde nasceu, acondicionando-os inclusive para o comércio de longa distancia. Ali já havia indústrias de barcos e de peixes em conserva, inclusive um excelente tipo de lã era vendida em mais de oitenta lojas.
Madalena era descendente de uma das 12 tribos de Israel. Era uma mulher nobre, sensitiva, arrojada e portadora de dons sobrenaturais. Jesus reconheceu nela as melhores qualidades de um ser humano e aceitou que ela e Joana, a mulher de Cusa, um administrador de Herodes, Susana e outras mulheres sustentassem financeiramente seu ministério. Jesus, enquanto ser humano tinha necessidades naturais de provimento de sua existência física, tanto Dele, como de seus acompanhantes. E para saciar tais necessidades, o subsídio econômico-financeiro das mulheres piedosas e ricas, conforme destacado em Lc 8.3, foi substancialmente necessário.
Resgatar da servidão em que a sociedade antiga subjugou as mulheres foi uma das faces fundamentais da missão de Cristo na terra. Entretanto, este trabalho divino foi negligenciado ao se configurar a primeira igreja cristã e continua sendo negado até os dias de hoje. O responsável pela configuração profana da identidade de Madalena foi o papa Gregório I, em 591, quando fez a junção de Madalena, Maria de Betânia e uma mulher anônima conhecida como a “pecadora de cidade”, descritas por ele, num mesmo texto, como se fossem uma só pessoa: Maria Madalena. Essa interpretação perversa durou até 1969, isto é, por 1.378 anos, por que interessou politicamente a uma Igreja que se consolidava, a uma sociedade que se industrializava e a um mandonismo masculino que se cristalizava como dominante. O alcance temporal destas atitudes foi cruel. Mudou o vértice da crença, subverteu as práticas cristãs em relação a Maria Madalena e a todas as mulheres de modo geral, como também alimentou preconceitos de sexualidade pelos tempos futuros.
A força do resgate que Jesus fez em benefício das mulheres, está simbolizada no fato Dele incumbir Maria Madalena de difundir sua ressurreição. Jesus não apareceu primeiro para os seus homens cheios de medo, mas para a mulher que foi procura-lo no túmulo! Ele deu a ela o poder de anunciar sua ressurreição!
O Evangelho de Maria escrito na comunidade que a reconhecia como autoridade, “perdeu-se” na antiguidade, mas em 1896, uma cópia incompleta de um documento do séc. II bem conservado, feita no séc. V, foi encontrada num mercado do Cairo. Em 1945, por uma destas intervenções que Deus faz porque ama a humanidade, Nag Hammadi, uma aldeia egípcia, foi palco da descoberta de uma arca com inúmeros documentos escritos no Séc.I. Entre eles o “ Evangelho de Maria”, “Diálogos do Salvador” e outros, cujos registros resgatam o papel de Madalena junto a Jesus!
Elaine Pagels, formada pela Universidade de Stangford e professora de religião em Princepton, depois de estudar aqueles documentos escreveu a biografia de Maria Madalena, no exemplar “Os Evangelhos Gnósticos”, Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1979, considerado melhor livro do Séc. XX. A autora caracteriza Maria Madalena como a apóstola amada de Cristo. Enfim, em lentas passadas, as religiões constituídas vão se curvando às descobertas científicas e colocando as mulheres em seus lugares de direito. Amém!
A autora é doutora em História Social: o gênero feminino na Igreja Católica.