Acontece de tudo nos Jogos Olímpicos do Rio, que ainda nem começaram. Quando parecia superado o problema da falta de condições de habitabilidade nos alojamentos, justamente o prédio da delegação da Austrália teve que ser evacuado por causa de um princípio de incêndio. Mais de seiscentos encanadores, eletricistas e faxineiros estavam trabalhando na informalidade, em jornadas de até 23 horas, sem registro em carteira e sem condições de alimentação e higiene. Os auditores fiscais do Trabalho multaram a organização. Nem a alegada “urgência” pode se sobrepor à lei. Agora, os favelados cariocas querem a mesma presteza para o fornecimento de água e luz para os morros, sempre carentes. Esses e outros incidentes têm feito a delícia da imprensa estrangeira. Desde o caso da onça morta em Manaus (The jaguar shot dead), depois dela ter se irritado com tantas selfies durante a passagem da tocha olímpica. Os franceses se divertiram com as cenas curiosas das corridas com a tocha, pelo interior do Brasil. Os tombos, como a da dona Luiza, do magazine, fizeram graça. Houve tentativas de apagar o “fogo dos deuses” com extintores de incêndio e a tentativa de roubar a tocha, como aconteceu em Angra dos Reis. A polícia teve que usar bombas de gás e balas de borracha. Ninguém entendeu por qual razão medalhistas olímpicos foram preteridos na condução das tochas, entregues a artistas, empresários, músicos e apresentadores de tevê. Vaidade ou interesse dos patrocinadores? Aqui em Bauru, o técnico Barbosa, da seleção feminina de basquete, nascido na cidade, foi esquecido. A cidade de Americana o convidou.
Dois jatos da Marinha, que serviriam para patrulhar o espaço aéreo do Rio, colidiram durante manobras de instrução e um dos pilotos está desaparecido. O helicóptero da Polícia Rodoviária, escalado para resgastes médicos, também foi danificado num pouso desastrado. A população aproveitou para outra reclamação: têm mais ambulâncias para atender possíveis acidentes entre os visitantes olímpicos do que no Estado inteiro. O povo ainda não sabe que só o elevador para descer os cavalos que chegam em aviões fretados, custou R$ 1 milhão.
Apareceu uma ossada humana na praia de vôlei. No Rio, sequestraram a sogra do Bernie Ecclestone, dono da Fórmula 1. Equipe da televisão australiana (sempre eles) escapou de um assalto de travestis. O New York Times aconselha os “nadadores e velejadores a manter a boca fechada”. Segundo o jornal, “os atletas irão nadar literalmente em fezes humanas (na Baía da Guanabara) e correm o risco de adoecer”. Termina a reportagem: “É triste, mas também aterrador”. A remadora americana Megan Kalmoe resolveu reclamar, mas da imprensa do seu país: “Recado a todos que estão obcecados pela m... na água: parem com isso. Parem de tentar estragar a Olimpíada para nós”. E alfinetou: “Eu vou remar na m... por vocês”. Na China, era a poluição que envenenaria os atletas. Em Londres, faltou água e houve falha no esquema de segurança na entrada do público. Na Rússia, nos Jogos de Inverno, o encanamento entupia. Aqui, o britânico Daily Mail registrou até o desagrado das prostitutas da Vila Mimosa, desanimadas com a falta de movimento. Uma charge mostra a hipotética aula de inglês na favela para assaltantes: No quadro negro as frases: “Give me the money. You lost, pray boy”. A Anistia Internacional colocou 40 sacos pretos em frente a sede do Comitê Olímpico Brasileiro - representam cada pessoa morta por policiais na cidade, em maio.
Por causa do vírus zica, muitos famosos desistiram de vir para o Brasil. O príncipe William e Kate, são as baixas mais lamentadas. Campeão de salto em distância, Greg Rutherford congelou o esperma antes da viagem. Golfistas e tenistas profissionais estão mais preocupados com dinheiro do que com Olimpíadas. Exceção para Roger Federer que teve uma providencial lesão no joelho e está livre do zica. Atletas russos, manipulados por uma política oficial de doping, tiveram negadas suas inscrições.
Uma pesquisa revelou que 60% dos brasileiros acreditam que os Jogos trarão mais malefícios que benefícios. Já me daria por feliz se o brasileiro abdicasse dessa paixão pela lei do menor esforço. Quem sabe a gente aprende a lição e deixa de fazer as coisas de qualquer jeito, em cima da hora, confiante no mantra do “no fim tudo se resolve”. Sexta-feira, abrem-se os Jogos Olímpicos, no Maracanã. Vaia não vai faltar numa plateia que não perdoa nem minuto de silêncio.
O autor é jornalista e articulista do JC