No pasto, o boi está completo. Rumina sem pressa a liberdade de ser e de mais nada querer. Um pássaro risca qualquer destino azul sem direção certa ou tempo de chegada. Cães dormem o sossego do focinho entre as patas longe de qualquer metafísica. Assim são os animais, simplesmente vivem e da morte nada sabem. Da vida, nada têm a indagar. Sem códigos, nenhum risco de cair em pecado ou de elevar-se em virtude. Nada lhes pode ser cobrado, senão que se cumpram. A eles não se coloca nenhum dever de escolha. Nenhum erro, nenhuma possibilidade de serem infelizes. Sem relógio, ignoram o tempo e a sua função deletéria, o dia se lhes repete como mancha branca. Acordam, depois comem, depois dormem... E dormem um tempo tão cumprido e inconsciente, que cabe, inteirinho, na paz de um dia só. Assim, a história dos bichos.
Outra bem diferente, a história dos homens. Mordido o pecado, a roda começou a girar. Desde então, impossível contê-la. Se premiados foram os animais com a paz da irracionalidade, castigados fomos nós com a peso da cabeça pensante: as coisas só doem porque pensadas e por serem, de algum modo, entendidas. É por isso, que feridas se abrem a cada desejo interditado. Desejos de pecados, sempre os tivemos, muitos, mas para contê-los, fixamos, em excesso, placas proibitivas. Que o digam as esquinas. Negar-nos que mordêssemos com fome a vida, essa sempre foi a nossa maior contradição. Difícil dormir.
Insones, continuamos revirando o lençol noturno das nossas culpas diurnas. Na gaveta ao lado, prozac, nossa canção de ninar. Continuamos nos matando em nome de Deus, ou por qualquer motivo e mesmo na ausência dele. Os dias passam indiferentes, enrugando-nos caras e sonhos, o tempo é uma vela derretendo o que debom restava no espelho. À morte, nossa indesejável companheira,pouco importa se estamos ou não com as malas prontas. A pergunta essencial sem resposta, condenados continuamos, crianças sem mãe, perdidos na escuridão. Não há retorno, a história tem pressa, não negocia projeto de volta. Estultice do fruto querer retornar ao útero como semente.
E o pior: não basta que estejamos assim tão sós, é preciso que tenhamos a solar consciência de tudo, sobretudo da nossa impotência. A porta fechada, José sem a chave, disse Drummond. Apenas o repito. Impossível desmorder a maçã.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. curso_romag@uol.com.br