| Douglas Reis |
| Alunos não tiravam os olhos dos celulares em pátio de escola, nessa quinta-feira (4) |
Bauru foi invadida por Pokémons. Febre mundial, o joguinho que une série nostálgica e nova tecnologia para smartphones mal chegou no Brasil e já ganhou milhares de adeptos na cidade. Na onda do Pokémon Go - aplicativo que permite capturar personagens no mundo real através da câmera do celular -, os jogadores não medem esforços para garantir a caçada.
Para ter ideia do nível de interação com o jogo, teve gente que percorreu mais de 11 quilômetros, a pé, e quem passou quase a noite toda perambulando pela casa à procura dos “monstrinhos”. Nessa quinta-feira (4), menos de 24 horas após a liberação do aplicativo no País, o pátio e a quadra esportiva de um colégio da cidade estavam tomados por Pokémons e caçadores.
A estudante Eduarda Canelada, 13 anos, não sabia se conversava com a reportagem ou caçava os bichinhos. “Tem um aqui!”, gritou, apontando para a entrada da biblioteca. Sem desgrudar os olhos do celular, ela contou que baixou o aplicativo anteontem e fez seu pai levá-la até os lugares em que o GPS do aparelho indicava a presença de Pokémons.
“Fui ao mercado para caçar e na avenida Getúlio Vargas”, detalhou Eduarda, que, até o final da manhã dessa quinta (4), havia capturado 28 Pokémons. Um dos motivos do sucesso do jogo é a realidade aumentada, tecnologia que em casos avançados permite exibir hologramas e imagens 3D no campo de visão do usuário, misturando o real e o virtual. No caso de Pokémon Go, a aplicação é mais simples: ver o mundo por meio da tela e sair em busca de criaturas como Pikachu para treiná-las.
O afinco para atingir o ideal é tanto que Luísa Guerra, 13 anos, fez jus ao sobrenome e entrou de cabeça na batalha virtual. “Vim para escola jogando no carro. Foi muito rápido e precisei me esforçar para conseguir caçá-los”, contou, ressaltando que seus pais pediram prudência durante a brincadeira, para evitar acidentes.
‘Quase caí’
Aliás, foi por pouco que o estudante Tomás Ferreira Conti, 12 anos, não se machucou. Ele, que mal dormiu após baixar o jogo, tropeçou na escada de sua casa quando tentava caçar um Pokémon. “Quase caí. Minha mãe ficou brava que fiquei andando pela casa a noite toda”, disse, aos risos.
Vale lembrar que, desde que o jogo foi lançado em outros países, há pouco mais de um mês, vários incidentes foram registrados. Entre eles, dois gamers invadiram propriedade particular atrás de Pokémons e foram recebidos a tiros, além de acidentes de trânsitos provocados por jogadores ao volante e roubos de celulares.
Sem idade para jogar
Quem pensa que o Pokémon Go atrai só crianças e adolescentes está enganado. A jornalista Júlia Freitas do Prado, 30 anos, também entrou na onda dos “monstrinhos”. “Meus pais acharam estranho quando eu falei que tinha Pokémon em casa”, brincou.
Ela disse que se surpreendeu com a complexidade do jogo. “Eu imaginava que fosse mais bobinho, mas ele (jogo) se assemelha com o desenho. Tem ginásio, escola de treinadores e mais coisas para fazer além de caçar Pokémons”.
11 quilômetros
| Douglas Reis |
| Em poucas horas, Gabriel percorreu 11 quilômetros |
Nessa quinta-feira (4) pela manhã, Gabriel Maranhão, 16 anos, e um grupo de amigos estavam à caça na avenida Getúlio Vargas. Ele contou que, assim que baixou o aplicativo, na última quarta-feira (3) à noite, percorreu 11 quilômetros, a pé, em busca dos bichinhos. O adolescente saiu de sua casa, perto do Recinto Mello Moraes, e andou pela avenida Comendador José da Silva Martha até a linha do trem. “Fiz o percurso duas vezes e só parei porque acabou a bateria do celular. Hoje (quinta-4), pretendo caçar mais”, projetou. E a andança deu resultado: até a hora do almoço, ele havia capturado 51 Pokémons.
Diretor ‘ilhado’ e universidade visitada
As poucas horas do jogo em Bauru já renderam histórias pra lá de curiosas. O diretor de um colégio de Bauru ficou “ilhado” em sua sala porque as crianças cercaram o local. O motivo: lá, havia duas espécies de Pokémons. Uma universidade também estranhou a movimentação atípica nessa quinta-feira (4). Quando os funcionários questionaram os pedestres que entravam e saiam, descobriram que havia uma Academia Pokémon dentro do câmpus. Não tem como. O jeito é viver lado a lado dos “monstrinhos” e seus “caçadores”.
Detran.SP pede cuidados a motoristas e pedestres
Até mesmo o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran.SP) entrou na onda do Pokémon Go. De forma bem-humorada, o órgão tem feito alertas em suas redes sociais sobre os perigos de acidentes de trânsito envolvendo a distração dos jogadores.
“Antes de ser iniciado, o próprio jogo emite um alerta para que não se jogue Pokémon Go enquanto dirige. Nas últimas semanas, Austrália e Estados Unidos foram alguns dos países que já noticiaram batidas e atropelamentos envolvendo a caça aos Pokémons, um deles ocasionando a morte de uma garota de 22 anos. No Brasil, a história se repete: em Curitiba, no Paraná, um jovem foi atropelado na manhã de ontem (quinta-4) enquanto jogava”, aponta o Detran.
Colisões e choques são os tipos de acidentes mais frequentes no trânsito, muitos deles graves ou até mesmo fatais. “E a distração é um dos principais motivos para essas batidas. Por isso, se quiser sair à caça de Pokémons no trânsito, procure alternativas. Pesquisas mostram que usar o celular enquanto dirige prejudica tanto nossa capacidade de perceber e evitar perigos no trânsito como dirigir alcoolizado”, alerta o órgão.
CRIATIVIDADE
A criatividade do brasileiro já fez com que a febre se torne oportunidade de negócio. Táxis e mototáxis já oferecem serviços especiais para que os jogadores cacem pokémons no trânsito sem se preocupar com a segurança. “No Nordeste, um motoboy oferece seus serviços para rodar pela cidade com os gamers na busca por monstrinhos”.
A preocupação com a distração vale e muito também para os pedestres, que jamais devem jogar enquanto atravessam a rua. No Estado de São Paulo, um em cada quatro mortos por acidente de trânsito são pedestres, segundo o Observatório Paulista de Trânsito, do Detran.SP. No Brasil, a proporção é de um em cada cinco.
“Cuide primeiro da sua segurança ou corra o risco de não zerar o jogo e ainda por cima conquistar o prêmio Darwin (das mortes mais bizarras do mundo)”, finaliza o Detran, em nota.