| Reuters/Pilar Olivares |
| Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 |
A cerimônia de abertura dos Jogos Rio 2016 iniciou exaltando uma das principais características do Rio de Janeiro: a combinação entre áreas verdes e urbanas.
A cidade possui duas grandes reservas ambientais, a Floresta da Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca, e imagens aéreas mostraram a proximidade desses espaços em um videoclipe com a música Aquele Abraço, cantada por Luiz Melodia, que o público acompanhou nos versos mais famosos.
Após a projeção das primeiras imagens, foi anunciado o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach. Pelo protocolo, estava previsto também o anúncio do presidente interino Michel Temer, o que não ocorreu.
| Reuters |
| Representação da formação da floresta amazônica |
| Oca simbólica dos povos indígenas do Brasil |
| Hasteamento da Bandeira Nacional |
| Dançarinos representando a escravidão no Brasil |
| Marcas da imigração japonesa |
| Giselle Bündchen interpretou a Garota de Ipanema |
| Favelas foram representadas com um show de ritmos como o samba e o funk |
| Avião 14 Bis saiu ao som de Samba do Avião |
O cantor Paulinho da Viola emocionou o público com uma interpretação do Hino Nacional em um palco inspirado nas formas do arquiteto Oscar Niemeyer. Ao violão, o cantor foi acompanhado por uma orquestra de cordas.
A bandeira do Brasil foi hasteada pelo Comando de Policiamento Ambiental do Rio de Janeiro e 60 bandeiras foram carregadas por 50 atletas iniciantes e estrelas do esporte como Virna, Robson Caetano, Maureen Maggi e Flávio Canto.
A festa seguiu com uma homenagem ao "espírito da gambiarra", definido pelos organizadores como "o talento para fazer algo grande a partir de quase nada".
Nessa parte da abertura, a arte geométrica brasileira foi homenageada, como referências a Athos Bulcão, geometria indígena, estampas africanas e azulejos portugueses. As duas mensagens mais importantes da cerimônia, a paz e a sustentabilidade, vieram logo em seguida, com a transformação do símbolo da paz em uma árvore.
Logo depois, a cerimônia voltou no tempo, ao nascimento das imensas florestas que cobriam o Brasil na chegada dos portugueses.
Do começo da vida, a homenagem avança até a formação dos povos indígenas, cuja entrada foi representada por 72 dançarinos das duas grandes agremiações do Festival de Parintins, os Bois Caprichoso e Garantido.
A chegada dos europeus em caravelas, o desembarque forçado dos africanos escravizados e a migração de árabes e orientais ao país foi representada após, com pessoas que descendem de cada um desses grupos.
Grupos de parcour atravessaram o palco e pularam sobre telhados de prédios na parte da cerimônia que destacou a urbanização do Brasil contemporâneo, concentrada em grandes cidades.
Ao som do clássico Construção, de Chico Buarque, acrobatas desafiaram as fachadas dos prédios e montaram uma parede, de trás da qual o avião 14 Bis saiu ao som de Samba do Avião, com um ator interpretando o inventor Santos Dumont.
O avião voou pelo Maracanã e a bossa nova continuou a dar o tom da festa com a exaltação das curvas do Rio de Janeiro, que inspiraram Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Oscar Niemeyer e o paisagista Roberto Burle Marx.
Giselle Bündchen interpretou a Garota de Ipanema e desfilou no Maracanã, enquanto Daniel Jobim, neto do maestro, tocava o clássico. Por onde passava, Giselle desenhava curvas que formavam obras de Niemeyer, como a Igreja da Pampulha e a Catedral de Brasília.
Depois de Ipanema, as favelas foram representadas com um show de ritmos como o samba e o funk, que reuniu as cantoras Elza Soares, que interpretou o Canto de Ossanha, e Ludmilla, com o RAP da felicidade ao lado de dançarinos de passinho.
O rapper Marcelo D2 e o cantor Zeca Pagodinho simularam um duelo de ritmos, representando a diversidade da música do Rio de Janeiro.
A partir daí, a importância dos negros na cultura brasileira ganhou destaque com as rappers Karol Conka e McSofia, de apenas 12 anos.
Manifestações culturais como o maracatu, os bate-bolas e o bumba-meu-boi também dividiram o espaço no palco do Maracanã e o treme-treme, do Pará, foi representado pela Gang do Eletro.
A diversidade era representada no palco em tom de disputa até que a conciliação veio com Jorge Ben Jor e a frase: "Vamos procurar as semelhanças e celebrar as diferenças".
O cantor foi a atração seguinte, com o sucesso País Tropical, dançado por mais de mil bailarinos do baile charme de Madureira, festa tradicional na zona norte do Rio de Janeiro. O público cantou de pé trechos da canção.
Festa X Crise
A animada festa de abertura da primeira edição dos Jogos Olímpicos na América do Sul contrastou com meses de problemas e polêmicas antes da Rio 2016, não apenas na organização mas também no país, que enfrenta sua pior recessão econômica em décadas e uma profunda crise política.
| Reuters |
| Delegação brasileira foi a última a desfilar |
O gasto de 40 bilhões de reais do orçamento da Olimpíada tem provocado críticas de alguns que questionam o investimento nos Jogos em vez de outras áreas, como saúde e educação.
O presidente interino Temer acompanhou a cerimônia ao lado de dezenas de chefes de Estado, mas não teve seu nome anunciado oficialmente logo no início, quando apareceu no telão ao lado do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, ele sim apresentado pelo locutor.
Antes da cerimônia, um grupo de manifestantes protestou contra a realização dos Jogos do lado de fora do estádio, e a polícia usou bombas de efeito moral para dispersar a multidão. Ao menos uma pessoa foi detida.
Diante do forte esquema de segurança montado pelas autoridades para o evento, longas filas se formaram do lado de fora do Maracanã, e pessoas reclamaram de ter de esperar por até duas horas para passar pela rigorosa revista de bolsas e raio X.
Antes da entrada de centenas dos cerca de 11.000 atletas que irão disputar os Jogos, os ritmos musicais brasileiros deram espaço a uma mensagem séria sobre as mudanças climáticas e o desmatamento da Amazônia. As atrizes Judi Dench e Fernanda Montenegro emprestaram suas vozes a um poema clássico de Carlos Drummond de Andrade sobre esperança para o futuro.
Cada atleta recebeu uma semente de árvore típica do Brasil a ser plantada na futura Floresta dos Atletas no Rio.
| Ruben Sprich/Reuters |
| Ex-maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima acendendo a pira |
A parte final da cerimônia foi marcada pelo acendimento da pira olímpica pelo ex-maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, escolhido pelos organizadores para ter a honra depois que o tricampeão mundial Pelé recusou um convite por problemas físicos.
A imprensa internacional acompanhou com atenção a cerimônia de abertura da Rio 2016, que foi comentada em tempo real nos principais sites de notícias do mundo. Na maior parte deles, a festa rendeu elogios.
O argentino El Clarín disse que o Rio vibrou com uma festa cheia de música, cores e esporte. “A cerimônia de abertura foi uma exibição à altura da Cidade Maravilhosa. Havia ritmo e beleza em cada passo no estádio do lendário Maracanã”, avalia a publicação.
O norte-americano The New York Time disse que a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro chegou “como um salve” após todas as crises, políticas e econômicas, que o país enfrentou durante a organização dos jogos. Segundo a publicação, a festa disfarçou “as feridas por algumas horas e deixou os brasileiros celebrarem tudo”.
| Stefan Wemuth/Reuters |
| Desfile da delegação brasileira e, já no início da madrugada de hoje, fogos marcam encerramento da festa histórica (abaixo) |
| Alkis Konstantinidis/Reuters |
O jornal francês Le Monde chamou a cerimônia de inovadora e destacou que a abertura foi marcada por uma celebração da música brasileira. O jornal citou que o presidente interino do Brasil Michel Temer, ao falar no evento, foi recebido por vaias de uma parte “importante” do estádio do Maracanã.
Na página de cobertura ao vivo da BBC inglesa, o veículo se referiu à cerimônia como um “show espetacular”.
O inglês The Guardian destacou que há um contraste interessante entre a abertura da Rio 2016 e dos jogos de Beijing em 2008 e em Londres, em 2012. As duas cerimônias anteriores abordaram a história dos países-sede, enquanto no Rio a mensagem passada é de que “é preciso fazer algo sobre o meio ambiente ou podemos não ter muitos Jogos Olímpicos para celebrar no futuro”.
Nuzman diz que Rio é melhor lugar do mundo; presidente do COI elogia Brasil
Após o desfile das 207 delegações participantes da Rio 2016, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, disse que a experiência do Brasil em sediar a 31ª edição dos Jogos Olímpicos vai abrir espaço para que o evento possa chegar a outras regiões do mundo.
“Lembrem-se, os filhos do Brasil não fogem à luta, são fortes. O Rio está orgulhoso de ser a capital olímpica do mundo, iluminado pela transformação que prometemos e entregamos”, disse.
Segundo Nuzman, o Rio é o melhor lugar do mundo no momento. “O Brasil recebe o mundo de braços abertos. Sou o homem mais orgulhoso vivo, sou orgulhoso da minha cidade, do meu país”, lembrando que já foi atleta de vôlei e participou dos jogos olímpicos de Tóquio em 1974.
O presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, disse que o Brasil conseguiu organizar os Jogos mesmo enfrentando problemas políticos. "Todos devem estar muito orgulhosos esta noite. Vocês conseguiram em sete anos aquilo que gerações antes de vocês só puderam sonhar. Transformaram o Rio em uma cidade moderna e em uma cidade ainda mais bonita", disse.
Bach também agradeceu a presença dos atletas refugiados, que, segundo ele, passam uma mensagem de esperança ao mundo. "Vocês mandam uma mensagem de esperança às pessoas espalhadas pelo mundo. Tiveram que escapar de suas casas pois eram diferentes. Estão fazendo uma grande contribuição à sociedade. No mundo olímpico, nós não só toleramos a adversidade, mas damos as boas-vindas a algo que enriquece a nossa diversidade", diz Thomas Bach.
O ex-atleta queniano Kip' Keino, bicampeão olímpico em corridas de meio-fundo e presidente do Comitê Olímpico do Quênia foi homeageado com um prêmio olímpico pela contribuição ao esporte. Ele recebeu a homenagem das mãos do presidente do COI.
Manifestantes foram isolados pela PM no vão do Masp durante protesto
Manifestantes que participaram nessa sexta-feira (5) de um protesto contra os Jogos Olímpicos Rio 2016 em São Paulo foram isolados pela Polícia Militar na entrada do vão-livre do Museu de Arte (Masp), na Avenida Paulista. A polícia fez um cordão de isolamento com cerca de 85 homens, impedindo a entrada ou saída de qualquer pessoa, inclusive de quem estava passando pelo local sem saber do protesto.
Entre os que ficaram cercados, estavam 60 participantes da manifestação. A ativista da Anistia Internacional Rebeca Lerer tentou ultrapassar o bloqueio, mas não conseguiu. “Isso aqui é uma área pública, isso é um crime, isso aqui é uma violação do direito de livre expressão, manifestação e reunião, que é um direito constitucional, é um direito humano internacionalmente reconhecido, e [uma violação] do direito de ir e vir, porque o vão-livre do Masp é uma área pública que está sendo limitada pelo poder policial”, criticou a ativista.
Rebeca lembrou que diversas manifestações já ocorreram no mesmo local e não foram alvo de bloqueio pela polícia. “Isso é uma seletividade da aplicação da repressão, do direito ao protesto, é um absurdo isso que está acontecendo aqui”, acrescentou.
Três mulheres que não participavam do protesto e preferiram não se identificar também foram barradas pelo bloqueio policial. Segundo uma delas, de 21 anos, as três estavam sentadas, conversando no local - que é um ponto de encontro na região da Avenida Paulista - quando o isolamento foi montado.
“Fui lá primeiro [apontando para uma das laterais do cordão], aí eles falaram para gente vir para cá, aí a gente foi pra lá [apontando para a outra extremidade], eles mandaram voltar, aí a gente chegou aqui [meio do cordão], e falaram para esperar mais um pouco. Só que estamos tentando tempo sair faz um tempo e até agora nada”, reclamou a jovem.
O comandante da operação de segurança no local, capitão Teles, disse que a entrada e saída de pessoas da área isolada estava sendo autorizada por ele. “Acabei de liberar algumas pessoas que não faziam parte da manifestação”, disse.
O capitão disse que a PM estava restringindo o acesso ao vão do Masp porque, segundo ele, não havia liderança na manifestação nem itinerário, exigidas na organização de protestos na capital paulista. “Estamos restringindo os manifestantes até verificarmos se tem alguma liderança e qual o trajeto eles pretendem fazer”, disse. A manifestação foi convocada pelo movimento Periferia Revolucionária, por meio do Facebook e o trajeto foi divulgado em sua página na manhã de hoje.
Um grupo que queria sair do local mas estava sendo impedido pela polícia furou o bloqueio pela lateral do Masp, onde há um espelho d'água. Eles passaram por dentro da água, conseguiram sair pela Rua Plínio Figueiredo e bloquearam a Avenida Paulista, dando início a uma passeata.
Manifestantes detidos
Ativistas que estavam na calçada em frente ao Masp se juntaram à manifestação e cerca de 200 pessoas caminharam na direção à Rua da Consolação. Na Rua Augusta, os policiais cercaram os manifestantes, o que gerou correria. Cerca de 70 pessoas ficaram sob cassetetes e spray de pimenta.
O grupo teve que se sentar no chão e foram revistados um a um antes de deixarem o local em carros da PM, por volta das 20h. Segundo o capitão Teles, comandante da operação, todos foram encaminhados para o 38º Distrito Policial.
Durante o tempo em que os manifestantes ficaram cercados na rua pelos policiais, pessoas que acompanhavam em volta gritavam palavras de ordem de reprovação à atuação da Polícia Militar.
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública disse que estava apurando o caso. A Polícia Militar, às 23h15, não tinha a informação de quantos manifestantes haviam sido detidos nem se eles tinham sido liberados.