08 de julho de 2026
Articulistas

Dia de Maria

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

O jornal “The New York Times” elencou 30 sugestões de músicas brasileiras para se ouvir durante as Olimpíadas do Rio. Não são as “30 maiores canções brasileiras”, como andaram dizendo por aí. São músicas que, para o jornal norte-americano, caem bem no clima olímpico e resumem como é vasta a produção nacional. Por isso mesmo, para mostrar essa vastidão, é que estão ali Chico Buarque e Pixinguinha na mesma lista que tem MC Bin Laden, MC Pikachu e a funkeira Deize Tigrona.


Legal é que não esqueceram de uma música que tem “cara” de esporte por causa de sua contagiante pulsação: “Maria, Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. O único “porém” nela, se fosse feita uma transposição para os dias que correm, já que foi composta em 1976, seria no trecho “não vive, apenas aguenta”. Essa “gente que apenas aguenta”, hoje, solta mais a voz em busca de seus direitos.


Brant diria, anos mais tarde, que sua letra para a melodia vigorosa de Milton foi inspirada nas Marias trabalhadoras que conheceu quando jovem. A canção marcou época e nasceu, na verdade, após Brant se encontrar com artistas que criaram o balé “Maria, Maria”, base do que viria ser o aclamado grupo Corpo. Músicas foram especialmente compostas por Brant e Milton para o balé, como “Maria, Maria” e outro clássico mineiro, “Maria Solidária” (“Dança Maria Maria / Lança seu corpo jovem pelo ar”).


Pois assim como as Marias dos compositores, hoje uma Maria também faz aniversário. Se as Marias deles completam 40 anos, a lei Maria da Penha chega à sua primeira década neste domingo. Uma lei que deveria ser desnecessária, mas o machismo reinante não deixa. Então, precisa mesmo existir para punir com mais rigor a violência contra a mulher.  


O marido de Maria da Penha tentou matá-la duas vezes após anos de inferno na relação. Ela reagiu para levar seu agressor aos tribunais e se colocou não como a parte fraca, que “aguenta”, mas como a forte, que “tem gana sempre”. E, como na “Maria, Maria” de Milton e Brant, misturou “dor e alegria” e ensinou que “é preciso ter força” sem perder ”a estranha mania de ter fé da vida”.


O autor é editor executivo do JC