Um mineiro, aturdido com uma explosão inesperada, disse, no estilo de Guimarães Rosa: ‘Não sei doncovim, oncotô e proncovô’. Assim está o Brasil frente à atual crise política, econômica e moral – sem saber de onde veio, onde está e para onde vai. E não é por falta de pessoas capazes de indicar rumos, formular propostas consistentes e conduzir a sua implementação, que todos sabemos que existem, mas porque quem nós colocamos no governo escolhe seus iguais para os ministérios e outros órgãos da estrutura administrativa. Essa forma de escolha, apenas pelo critério político-partidário, exclui os que seriam desejáveis, por terem competência, honorabilidade e espírito público. Desse modo, as propostas das reformas necessárias ficam à mercê da ‘palpitologia’ dos menos indicados para tal empreendimento, com a agravante de seguir caminho semelhante no Legislativo. ‘Proncovamos’, então?
De tempos em tempos o Brasil precisa se reinventar, porque cai em situações como a atual em que tudo que é do governo apresenta deficiências que dificultam o seu desenvolvimento. Faltam políticas públicas que estimulem e orientem a criação de planos estratégicos que deem eficácia e eficiência às ações do governo ou que dependem dele. Faz tempo que ouvimos falar em reforma política, reforma tributária, da previdência, da legislação trabalhista, a interminável reforma agrária, e tudo continua sem solução. O alto custo do Congresso Nacional não retribui à população, que o sustenta, com os benefícios esperados. Propostas para melhorar não têm faltado. Agora foi a vez da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) apresentar ao presidente interino Michel Temer uma proposta de 10 medidas para garantir o crescimento e fortalecimento da agropecuária brasileira. Esse documento mostra que o setor agropecuário, em todas as cadeias, representa 22% do Produto Interno Bruto (PIB), 32,7% dos empregos e 46% das exportações do país. É o que tem segurado o rojão da economia brasileira com o encolhimento do setor industrial, no governo Dilma.
Embora o agronegócio puxe a economia, o setor precisa manter-se atualizado em técnicas de produção e contar com ofertas de crédito e financiamento a custos razoáveis para máquinas, implementos e armazenamento. Precisa de melhorias nas condições de escoamento da produção – transporte e embarque, para garantir a competitividade que já possui na produção. A modernização, entretanto, deve chegar ao pequeno e médio produtor, em número cada vez mais reduzido, lutando contra a falta de recursos e a inclemência da intempérie e das pragas. As pequenas unidades agrícolas servem para atender o mercado urbano de produtos hortícolas e precisam ficar próximas a ele, principalmente por questões de transporte e de habitação – perto de escola e de assistência à saúde. Precisam de assistência técnica para fornecerem produtos saudáveis e a preços razoáveis.
Uma atenção especial deve ser dada aos pequenos produtores rurais, os tradicionais sitiantes, radicados no campo, que além da produção de alimentos poderiam ser os grandes agentes de recuperação das matas e dos rios. Com eles é que poderia ser feita uma verdadeira reforma agrária, substituindo essa extemporânea política de distribuição de terras para quem já deixou o campo, que tantos transtornos tem causado. Onde estão os exemplos de sucesso dos assentamentos? Os relatórios do Incra só trazem dados sobre número de lotes, classificação de assentados por faixa etária, sexo, escolaridade etc. Sobre consolidação e produção não trazem quase nada.
Com todo o avanço das ciências ligadas à Terra e com a realidade do êxodo rural, da degradação do solo por desmatamento, esgotamento por uso inadequado e pelas ações climáticas, amparar o trabalhador rural não pode mais ser pensado apenas em distribuir terras. Os sitiantes ainda remanescentes, mais distantes das cidades, precisam de melhorias em estradas vicinais, acesso à energia elétrica, assistência técnica específica da sua atividade e financiamento favorecido para máquinas, implementos e insumos. Além disso precisam de orientação em métodos inovadores, de agricultura ecoeficiente, que recupera o solo degradado e restitui a mata nativa e as nascentes d’água, como a agricultura sintrópica, defendida na novela “Velho Chico”, pelo personagem Miguel. Há exemplos maravilhosos como o do cientista suíço Ernst Gotsch, radicado no sul da Bahia desde 1982, que transformou a “Fazenda Fugidos da Terra Seca”, de 410 hectares degradados, na “Fazenda Olhos d’Água”, reconstruindo toda a mata nativa e 14 nascentes d’água. Sob a floresta são produzidos banana e cacau com a melhor cotação no mercado. Pode ser visto em vídeo na Internet. Há outros exemplos, como o “Instituto Terra”, de Sebastião Salgado e o projeto do município de Extrema, ambos em Minas. Aí está o futuro de nossas terras e nossas matas.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.