A capitã do time feminino de basquete do Brasil entrou no jogo contra a França diante de uma torcedora empolgada. Sua mãe, que faz aniversário nessa quinta-feira (11), estava no meio do público incansável da Arena da Juventude, no complexo esportivo de Deodoro, zona norte do Rio de Janeiro, que alternava aplausos e gritos de apoio às brasileiras e vaias às francesas. Mas não adiantou: com a derrota por 74 a 64 e a eliminação da Olimpíada Rio 2016, a jogadora deixou o estádio desabafando:
“Estou cansada de perder”, disse Iziane, com os olhos marejados. O basquete feminino perdeu os quatro jogos que disputou e, após cumprir a tabela no confronto de sábado, com a Turquia, deixará a olimpíada sem passar para a fase eliminatória pela terceira vez seguida. Para que a campanha não seja pior do que as de Pequim e Londres, porém, ainda é preciso vencer o último jogo.
Iziane se despede da carreira de atleta nesta olimpíada e lamenta não ter dado uma última vitória de presente para a mãe. "O mais importante é que ela sabe que a filha dela entra para dar o melhor. Luto sempre para ajudar minha equipe a vencer e sair de cabeça erguida", diz ela, que acredita que é preciso ampliar a base e a formação de atletas para que o basquete feminino reencontre um caminho: "É preciso massificar o basquete feminino. Um campeonato brasileiro de apenas seis equipes, em um país grande como o Brasil, não vai nos ajudar nisso".
Os problemas que levaram à campanha mal sucedida são praticamente um consenso entre atletas e o técnico, Antonio Carlos Barbosa, que reassumiu a seleção em janeiro, após um período em que cinco treinadores se sucederam depois que ele saiu do comando do time, em 2007. Tantas mudanças também atingiram o elenco, que, segundo Barbosa, teve 28 nomes diferentes em um intervalo de três anos.
“Faltou que elas tivessem muitos jogos internacionais para diminuir a diferença de nível do basquete que elas jogam internamente para o de nível internacional”, analisa ele, que treinou a seleção que ganhou o bronze em Sidney 2000. O técnico acredita que não há diferença entre as atletas daquele ano e as de 2016, mas que faltou o entrosamento que um time acumula em amistosos internacionais e mais tempo de jogo em conjunto.
"Com a exceção do jogo do Japão, fizemos jogos muito bons. Faltou pouco", diz Barbosa, que se considera extremamente frustrado, mas não decepcionado. "De antemão, não havia cobrança no basquete feminino. A modalidade estava desacreditada".
Com uma experiência na seleção de basquete que vem desde a década de 70, Barbosa não pretende continuar como técnico titular, posição que afirma ter assumido “em uma situação emergencial”. Ele diz preferir uma posição de supervisão, o que acredita ser muito cedo para definir, já que haverá eleições na Confederação Brasileira de Basquete este ano.
Também de saída da seleção, a armadora Adriana Moisés concorda que faltou um trabalho de longo prazo: "É frustrante. Nenhum atleta vem para perder. A gente treina para fazer o melhor, mas sabe que o momento do basquete feminino é delicado, atualmente", disse ela, que contou ter aconselhado as jogadoras que permanecem na seleção a observar as atletas internacionais. "Os erros que a gente tem são da falta de jogar, da falta de intercâmbio. Não são culpa só nossa", diz ela, que quer continuar a trabalhar com basquete, mas como auxiliar técnica. E acrescenta:
“O basquete feminino precisa de gente trabalhando em prol dele, para o bem, não só criticando, mas fazendo também”. Além da mãe de Iziane, outra torcedora ilustre estava na arena, a ex-jogadora Janeth Arcain, que acredita que o caminho é a renovação, mas avisa que isso não virá a tempo do ciclo olímpico de Tóquio.
"Não podemos criar falsa expectativa. Nos últimos anos, a gente não vem obtendo resultados e isso fez com que a equipe não estivesse tão bem. Temos que pensar em renovação e em tempo para que as coisas sejam modificadas".