08 de julho de 2026
Polícia

Cartas com drogas na mira da polícia

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

A Delegacia de Polícia Federal (DPF) de Bauru registrou aumento no volume de casos de tráfico de drogas por meio de cartas neste ano. Somente no primeiro semestre, foram 11 inquéritos instaurados após correspondências enviadas de outras cidades brasileiras terem sido interceptadas pelos Correios na cidade.

João Rosan/JC Imagens
Para Karen Dunder, da PF, avanço do tráfico reflete aumento do consumo no País e precisa ser combatido por esforço conjunto

No mesmo período do ano passado, apenas uma carta contendo drogas foi identificada. Segundo a delegada chefe da DPF, Karen Dunder, o aumento reflete o avanço do tráfico de drogas no País. “É algo que vem ocorrendo há anos, muito em razão do crescimento do consumo interno. As estatísticas mostram que o Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína no mundo”, pontua.

E, com a evolução da tecnologia, os traficantes diversificaram seus negócios, atendendo até mesmo a uma demanda dos usuários, que preferem evitar o risco das abordagens policiais e o contato com os próprios criminosos. Muitos fornecedores utilizam sites da chamada “deep web”, que são difíceis de serem rastreados, já que não aparecem nas ferramentas de busca padrão.

Além da oferta em páginas da Internet, as negociações também ocorrem por meio de aplicativos de troca de mensagens. “A tecnologia facilitou a vida de toda a população, inclusive a dos traficantes. Como a transformação destes recursos é muito rápida, o trabalho da polícia é dificultado. Os mecanismos para investigação precisam estar em constante adaptação”, pontua Karen.

Para tentar despistar a fiscalização, os traficantes também optam por embalagens discretas e, frequentemente, enviam outras mercadorias lícitas junto com a droga como disfarce. Segundo a chefe da DPF, na maioria dos casos, as correspondências que chegam a Bauru são originárias de cidades do Interior do Estado.

Maconha e LSD

Os narcóticos remetidos com mais frequência são maconha (normalmente pequenas porções, para não despertar atenção) e dietilamida do ácido lisérgico, conhecido como LSD. “Este último, por se assemelhar a um pedaço de papel, é mais difícil de ser detectado no espectrômetro de massa”, pontua Karen, referindo-se a um dos equipamentos de que os Correios dispõem para fiscalizar as correspondências suspeitas.

Para ela, embora os mecanismos repressivos tenham papel importante no combate ao tráfico – seja ele nacional ou internacional, por meio de cartas ou negociação direta –, este trabalho precisa ser acompanhado de políticas públicas de prevenção mais eficazes do que as apresentadas até hoje. “Elas precisam ser reforçadas para reduzir o número de potenciais novos consumidores. E isso se faz com educação, informação e esclarecimento.  O esforço realizado pela polícia, sozinho, não dá conta de combater o problema”, completa.

Mecanismos de detecção

Por meio de nota, os Correios informaram que o processo de detecção de drogas em correspondências suspeitas ocorre por meio de espectrômetros de massa, aparelhos de raio-X e operadores treinados nos centralizadores operacionais da empresa pública. Quando há indícios da existência de conteúdo ilícito, a autoridade competente é comunicada.

Ainda de acordo com os Correios, sempre que alguma substância entorpecente é detectada no fluxo postal, o produto é remetido à DPF junto com o invólucro que a continha e as informações do rastreamento da correspondência, para que os procedimentos sejam adotados de acordo com o entendimento do órgão policial.

Tráfico internacional é investigado na Capital

As correspondências vindas de outros países com destino a Bauru não são mais investigadas pela Delegacia de Polícia Federal local. A mudança foi provocada por uma decisão recente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que determinou que os inquéritos sobre tráfico internacional sejam instaurados no local da apreensão da droga.

Antes, a apuração ocorria na cidade de destino da correspondência, conforme explica a delegada chefe da unidade, Karen Dunder. “A interceptação ocorre sempre na triagem feita pelos Correios em São Paulo, onde chega a correspondência vinda do Exterior. Então, todos os expedientes, hoje, ficam na Capital”, pontua.

No ano passado, quando a jurisprudência do STJ ainda não existia, a DPF de Bauru instaurou 15 inquéritos relativos a tráfico internacional com o uso de correspondências. “Praticamente todas eram sementes de maconha originárias da Holanda (onde a venda da erva é regulamentada). A importação entre usuários aumentou muito nos últimos anos em todo o Brasil”, cita Karen.