08 de julho de 2026
Geral

Vacina da dengue chega a Bauru, mas rede pública não irá adquirir

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

As clínicas particulares de Bauru já têm a vacina contra a dengue, cuja eficácia varia de 47,1% a 83,2%, dependendo do sorotipo da doença. Aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em dezembro de 2015, o imunizante só foi liberado para venda em julho e, há cerca de 15 dias, os estabelecimentos do município receberam as doses. Mas quem quiser se proteger terá que desembolsar um total de R$ 750,00. O Ministério da Saúde dá liberdade para que cada prefeitura compre a vacina e distribua à população, mas a de Bauru é enfática em dizer que não tem condições de adquirir o produto no momento.

Em nota, a assessoria de comunicação do Ministério da Saúde explica que os Estados e os municípios têm autonomia para avaliar e adquirir qualquer imunizante registrado junto à Anvisa, bem como realizar a vacinação da população, de acordo com as necessidades locais.

A reportagem procurou o titular da Secretaria Municipal de Saúde, Fernando Monti, porém, até o fechamento desta edição, ele não havia atendido e nem retornado as ligações. Em sucinta nota, a prefeitura afirma que “nesse momento, não há condições que possibilitem obter as vacinas para a cobertura do município”.

Além disso, o Ministério da Saúde informa que, até o momento, não proferiu nenhuma decisão sobre a incorporação da vacina contra o vírus da dengue junto ao Sistema Único de Saúde (SUS), mas não descartou essa possibilidade.

Para tanto, o imunizante, mesmo já liberado para a venda, precisa passar, ainda, pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, que leva em consideração a eficácia, a segurança, o custo-efetividade do produto e os benefícios para a população.

Já a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo alega que a pasta não tem interesse em incorporar esta vacina, porque o Instituto Butantan está produzindo outro imunizante. Inclusive, uma nova etapa de testes em humanos teve início na última quarta-feira, na Santa Casa de Misericórdia, localizada na Capital (leia mais abaixo).

Nas clínicas

Samantha Ciuffa
Elis Vilela, enfermeira de uma clínica da região central, mostra a nova vacina contra a dengue

Enfermeira de uma clínica particular sediada na região central de Bauru, Elis Vilela relata que solicitou 25 doses ao distribuidor da empresa francesa Sanofi Pasteur, responsável pela fabricação desta única vacina contra a dengue aprovada no País. “Já tínhamos dez pessoas na lista de espera e não compramos em grande quantidade, porque não sabíamos como seria a demanda na cidade, afinal, é algo novo”, acrescenta.

Segundo a enfermeira, são necessárias três doses, de seis em seis meses, para que a vacina tenha eficácia e cada uma delas vale R$ 250,00. Portanto, o custo total da imunização é de R$ 750,00 por pessoa. O agravante é que as clínicas particulares receberam frascos que contêm cinco doses. “Quando abrimos um, temos de aplicar todas as doses em menos de seis horas. Diante disso, só vacinamos grupos de cinco pessoas por vez”, argumenta.

Preços    

Embora a dose da vacina tenha sido cotada de R$ 132,76 até R$ 138,53 - decorrente da variação do preço de fábrica, com o qual o produto poderá ser comercializado nas diferentes alíquotas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) vigentes no País - a enfermeira esclarece que as clínicas passaram a cobrar a mais, porque calculam a margem de lucro, além de outros gastos, com funcionários e demais impostos.

O JC consultou mais dois estabelecimentos particulares de Bauru e ambos também aplicam a vacina por R$ 250,00 a dose. Médico infectologista e sócio proprietário de uma das clínicas, sediada no Jardim Aeroporto, Marcelo Pesce Gomes da Costa recebeu 200 doses há três semanas - logo que o órgão regulador estabeleceu os preços do imunizante para todo o País - e já vacinou 40 pessoas.

Segundo o infectologista, em um primeiro momento, a humanidade terá de se adaptar às vacinas com percentuais menores de eficácia, como a da dengue. “Até a pesquisa chegar aos percentuais maiores, a dengue já se alastrou. Como não conseguimos resolver o problema com prevenção, o imunizante veio para impactar a saúde pública de forma positiva. Porém, a prevenção deve continuar”, finaliza.

Público-alvo e eficácia

O público-alvo da vacina, como consta no site oficial do governo federal, é formado por pessoas de 9 a 45 anos. O imunizante não funciona contra a chikungunya e o zika vírus, porém, previne os sorotipos 1, 2, 3 e 4 da dengue (veja quadro abaixo).

Cada uma das três doses deve ser aplicada de seis em seis meses. Segundo a empresa francesa Sanofi Pasteur, o produto protege 70% das pessoas, a partir da primeira dose, mas a eficácia se mantém por mais tempo só quando as três são administradas.

Quem já teve dengue também pode tomar a vacina, segundo o Ministério da Saúde. Além disso, o imunizante apresentou uma eficácia de 65,6%, na população acima de 9 anos. Ainda nesse público-alvo, a eficiência é de 58,4% contra o sorotipo 1; 47,1% contra o 2; 73,6% contra o 3 e 83,2% contra o 4. Se for considerado o tipo mais grave, que leva à hospitalização, a eficácia é de 80,8%.

1.333 casos

Desde o último dia 18 de julho, Bauru não registra um caso de dengue. O tempo não muito favorável à proliferação do Aedes aegypit e a demora em concluir os exames são as explicações mais prováveis para a situação. Porém, a cidade já teve 1.333 casos de dengue, sendo 1,3 mil autóctones, 33 importados e uma morte, do início deste ano até o momento. Em 2015 inteiro, foram 8.543 ocorrências da doença, sendo 8.482 autóctones, 61 importados e seis óbitos.

Mais um imunizante é testado pelo Butantan

O Instituto Butantan iniciou uma nova fase de testes de outra vacina contra a dengue na última quarta-feira, na Santa Casa de Misericórdia, localizada na Capital paulista. O hospital integra a terceira e última etapa das avaliações, antes que o imunizante seja submetido à aprovação da Anvisa.

Segundo a assessoria da Secretaria de Saúde do Estado, aproximadamente 1,2 mil pessoas, de 18 a 59 anos, participam da última etapa do estudo.

A vacina é desenvolvida em parceria com os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos e contém vírus vivos, mas geneticamente enfraquecidos. “Com vírus vivos, a resposta imunológica tende a ser mais forte, mas, como estão enfraquecidos, não têm potencial para provocar a doença. A vacina deve proteger contra os quatro sorotipos da dengue com uma única dose”, defende o diretor do Butantan, Jorge Kalil.