08 de julho de 2026
Regional

Lendas e mitos povoam a imaginação

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 12 min

Alex Mita
Decoração da Semana do Folclore  em Lençóis Paulista

O folclore é um conjunto de mitos e lendas passadas de uma geração para outra Alguns nascem da imaginação das pessoas, especialmente dos moradores das regiões do interior do país. Muitas delas foram criadas para passar mensagens ou apenas para assustar as pessoas. Como a do saci-pererê que fez parte dos pesadelos infantis durante décadas.

O folclore pode ser dividido em lendas e mitos. Deram origem a festas populares que acontecem em todo o Brasil. A palavra folclore é de origem inglesa. Folk significa povo e lore, cultura. No Brasil, o Dia do Folclore é comemorado em 22 de agosto. Embora o saci faça parte do folclore, desde 2005, o dia dele é comemorado em 31 de outubro.

As lendas são estórias contadas por pessoas e transmitidas oralmente através dos tempos. É um misto de fatos reais e históricos com acontecimentos fantasiosos. Ela procuram das explicações a acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais. Uma lenda urbana da nossa região é da Júlia, a loira que assustava estudantes em Lençóis Paulista. Até ser enterrada em solo santo.

Os mitos foram criados para explicar os fenômenos da natureza na antiguidade. Davam sentido as coisas do mundo. Tem um forte componente simbólico. Heróis, deuses e personagens sobrenaturais se misturam aos fatos da realidade.

O folclore brasileiro é composto de uma diversidade cultural muito grande. Inclui ritmos e danças folclóricas como o carimbo, forró, capoeira, frevo, caiapó. Comidas regionais típicas. Encenações como bumba-meu boi, congada e cavalhada assim como brincadeiras e jogos infantis como a amarelinha. Festas como a Junina, do Divino, Círio de Nazaré e Folia de Reis também fazem parte.  

Tradição

Para o diretor municipal de Cultura de Lençóis Paulista, NIlceu Bernardo, onde a lenda do esqueleto Júlia passou de geração em geração, o folclore é o que ficou dentro de uma linha de pensamento que parece tão distante e está tão presente no nosso cotidiano.

“Quando a gente olha o folclore como algo distante, caipira, interiorano e não urbano esquecemos que ainda acreditamos em muitas das coisas. A gente se benze, reza, acredita em mau agouros, em simpatias. Tudo isso é vertente de coisas maiores. As crenças nas coisas que nos firmam dentro da cultura no cotidiano da forma de fazer, de agir. Isso tá presente então não só as lendas, não são só os causos, não são só nas tradições populares. Apesar de ser do povo não é o povo mais caipira rural. É um povo como nós todos.”

Na opinião dele, temos que nos olhar como o povo e como agentes do folclore todos os dias. “Isso se torna folclore. As vertentes das músicas produzidas. As clássicas e eruditas têm um quê de folclore. Acaba fazendo parte da nossa cultura, da nossa tradição e se torna também popular. Então não é só o folclore que inspira o erudito, o erudito também inspira o popular. São vários caminhos e isso ajuda muito a potencializar nossa cultura de modo geral.”

Lençóis faz uma releitura do folclore

Exposição foi batizada de Saci do Pé Vermelho, cuja criatura veio ‘importada’ de Botucatu, além de lendas urbanas como a ‘Noiva do Banheiro’

Fotos: Alex Mita

A Semana do Folclore na cidade de Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) ganhou uma exposição de artesanato. Através da colagem, amarração, retalhos, bordados e fitas foi feita uma releitura das lendas, costumes e receitas. A exposição de folclore por Adriane Matias começou dia 15 de agosto e prossegue até 18 de setembro das 8h às 21h .

A professora Adriane Matias ressalta que a ideia é mostrar a origem das lendas, dos folguedos e dos aspectos regionais da cultura popular no Brasil. De acordo com o diretor municipal da Cultura, Nilceu Bernardo, a partir daí todas as áreas, teatro, dança, música entram na exposição dando uma nova dinâmica. “As crianças e estudantes participam. Tem contação de história e causos. Pessoas conhecidas de nosso meio entram em uma roda de conversa onde revivemos o costume das anedotas que popularmente são chamadas de causos.”

A música raiz brasileira será lembrada no Dia de Fazer o Bem, um evento que faz parte da programação do folclore e que será desenvolvido no asilo. Será um concerto com a Orquestra de Viola e Violão Boca do Sertão da Casa da Cultura. O repertório é recheado de clássicos da música raiz brasileira.

Haverá ainda a apresentação de canções folclóricas pelos alunos de sopros da Casa da Cultura juntamente com os alunos das Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamenal (Emeif) Profª Guiomar Fortunata Coneglian Borcat, Coral Unimed Macatuba e Emeif Philomena Briquesi Boso.

As cantigas do folclore com arranjos feitos para grupos de câmaras de compositores brasileiros como por exemplo: Ernani Aguiar, Glauco Velasquez, Luiz Gonzaga e outros fará parte da apresentação do grupo de alunos avançados de instrumentos de sopro madeiras, canto e piano.

O filme “Tapete Vermelho” de Mazzaropi também será exibido durante as comemorações do folclore. O filme conta a história de uma família de classe baixa, que vivia em um sítio, e tinha uma missão a ser cumprido, assistir ao filme do Mazzaropi. Era uma promessa que Quinzinho quando criança prometeu para seu pai, levar seu filho ao cinema, quando tivesse um filho. O aniversário de Neco estava chegando, Quinzinho pensa em algo que poderia presentear o filho e vai ao cinema.

A família de Quinzinho tem um dialeto típico das pessoas que moram no campo, mas nem por isso deixam de se comunicar. Entende-se que a linguagem está intimamente ligada a fala e a língua, pois a fala expõe os sentimentos, torna se um ato comunicativo, de acordo com Millani “a fala é realizada sob estados de língua, e as mudanças ocorrem no contexto da língua”.

Essa variação esta associada a fatores sociais e econômicos, assim nota-se que o processo comunicativo é passível de variação por apresentar na fala dos indivíduos traços fonéticos que destacam o grau de escolaridade, a nível social, a região, o sexo que está presente na linguagem das pessoas.

Lendas & Mitos

Boitatá
Uma cobra de fogo que protege as matas e os animais. Pode perseguir e matar as pessoas que não respeitam a natureza. Acredita-se que esse mito seja um dos primeiros do folclore brasileiro e que é de origem indígena.
Boto

É uma lenda que surgiu na região amazônica. É um homem que encanta as mulheres e as leva até a beira de um rio onde as engravida. Antes da madrugada chegar, ele mergulha no rio e se transforma em boto.
Curupira

É um protetor das matas e animais silvestres. É representado por um anão de cabelos compridos e com os pés virados para trás. Persegue e mata aqueles que desrespeitam a natureza.
Lobisomem
Conta o mito que um homem foi atacado por um lobo numa noite de lua cheia e não morreu. Desenvolveu a capacidade de virar lobo nas noites de lua cheia. Nessas ocasiões, ele ataca todos aqueles que encontra pela frente. Só um tiro de bala de prata em seu coração poderia matá-lo.
Mãe d’água
Corpo metade de mulher e metade peixe, semelhante a sereia. Com seu canto atrai os homens até levá-los para o fundo das águas.
Mula sem cabeça
Conta-se que uma mulher teve um romance com um padre. Como castigo ela foi transformada em um animal quadrúpede que galopa e salta sem parar, enquanto solta fogo pelas narinas nas noites de quinta para sexta-feira. 
Saci-pererê
O saci-pererê é um menino negro com uma única perna. Anda com cachimbo e gorro vermelho que lhe dá poderes mágicos. Vive fazendo travessuras. Adora espantar cavalos, queimar comida e acordar pessoas com gargalhadas.
Unhudo
Uma alma penada de cabelos longos, unhas grandes e chapéus de palha. Encontrado nas grutas do monte Pedra Branca em Dois Córregos.

Avaré faz Semana do Folclore na biblioteca

Uma série de atividades previstas no calendário cultural da  Biblioteca Municipal “Professor Francisco Rodrigues dos Santos” de Avaré (120 quilômetros de Bauru) estão focadas na comemoração da Semana do Folclore. A programação, especialmente destinada aos alunos da Rede Municipal de Ensino, prevê a exibição da série “Juro que Vi”, animação que mostra as mais conhecidas figuras folclóricas do Brasil.

O público poderá visitar uma exposição sobre o tema e conhecer brinquedos tradicionais produzidos com material reciclado. No bosque do Caic, com a parceria de monitores da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, vão ser resgatadas com as crianças as brincadeiras tradicionais de antigamente. “Estamos com o agendamento quase completo”, destacou a bibliotecária Suzely Dainezi.

Saci do Pé Vermelho

O Saci do Pé Vermelho foi solto no parque Paredão de Lençóis Paulista já há alguns anos, comemora o secretário Nilceu Bernardo. “Nós trouxemos um de Botucatu, cidade do Saci e soltamos no parque. Ele tem voltado, vez ou outra para as beiras dos rios e bambuzais. Nossas crenças tradicionais se mantêm. Não tem uma identidade única. Tem outros casos, muitas histórias. De assombração das estradas das fazendas, as noivas de e mulheres dos banheiros das escolas. A gente chega nas lendas urbanas também.” 

Outra lenda urbana que ainda é lembrada em Lençóis Paulista, segundo Bernardo, é da Júlia dos Banheiros. “O Colégio Virgílio Capoani tem um laboratório e dentre os materiais de pesquisa tinha um esqueleto. Esse esqueleto ficou lá por muitos anos. Quando a escola mudou, a Júlia foi junto.

A Júlia inspirou a Noiva do Banheiro. Os estudantes encontravam a noiva de espuma no nariz que os assombravam. “Ela só acalmou quando o esqueleto foi enterrado em solo santo, no cemitério da cidade. Isso passou de geração em geração.” 

Documentário do Unhudo é a novidade

Lenda urbana faz parte da Semana do Folclore de Dois Córregos que terá exibição de vídeo sobre a criatura sobrenatural no Centro Cultural do município

Divulgação
Peça de teatro e documentário vão contar a estudantes a lenda do Unhudo de Dois Córregos

Alenda do Unhudo faz parte do cotidiano dos moradores mais antigos da cidade de Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru). Um documentário feito sobre o assunto será exibido no Centro Cultural Nilson Prado Telles de 22 a 26 de setembro para toda a rede pública de ensino. O evento é aberto ao público. Até o final do semestre o Grupo de Teatro do Projeto Portas Abertas apresentarão uma peça referente a Lenda do Unhudo sob o comando de Sabrina Luciene Pereira Barroso.

Mas afinal, quem é o Unhudo? É uma alma penada de cabelos longos, chapéu de palha esfiapado, unhas grandes semelhantes a garras e dois metros de altura. Quem quiser ver de perto essa figura fantástica, considerada um morto-vivo e batizada de Unhudo, pode procurá-lo em uma das pequenas grutas do monte Pedra Branca, entre os municípios de Dois Córregos e Mineiros do Tietê.

Tido como benfeitor da mata, ele aparece, de acordo com a lenda, nas imediações da Pedra Branca quando algum intruso resolve colher jabuticabas silvestres e orquídeas naquele local. Mas todas as pessoas que entram na floresta correm o risco de irritar o Unhudo e experimentar seu tapa que costuma arremessar a vítima para o outro lado do Rio Tietê. Outra característica da entidade seria repetir a fala cantada dos boiadeiros que frequentavam a região, na hora de tocar os bois. Diz a lenda que quando o boiadeiro gritava:   “Ôh! Boi!,” o Unhudo repetia, como se fosse um eco.

Um dos causos contado na cidade é do lavrador Zé Ramos. Segundo seu filho Neguito Ramos, que mora na zona urbana de Dois Córregos, certa vez seu pai entrou na mata da Pedra Branca para catar jabuticabas silvestres. Quando estava no alto de uma jabuticabeira, ouviu uma voz rouquenha, que lhe disse: “Moço, essa fruteira tá reservada pra mim”.

O pai, muito assustado, percebendo que não estava diante de um ser humano e sim de uma entidade perigosa, Zé Ramos sacou sua garrucha e deu dois tiros no peito de Unhudo. As balas atravessaram o fantasma sem fazer nenhum estrago. No mesmo instante Zé Ramos foi atingido por um tapa do morto-vivo, perdendo os sentidos.

Dois dias depois, o lavrador foi achado no bairro Contendas, que fica próximo do loteamento Docemar, na margem do rio Tietê. De acordo com o filho, Zé Ramos, depois do episódio, nunca mais foi o mesmo. Se tornou um homem abatido, tanto que a palavra Unhudo passou a ser evitado em sua casa, pois toda vez que isso acontecia, ele se emocionava e ia às lágrimas.

Outra aparição do Unhudo aconteceu em 2000, na beira do rio Tietê, mais exatamente na fazenda Água Vermelha. O pescador Pacílio Inácio Cardoso, conhecido como Cardosinho. Segundo ele mesmo contou, em uma tarde, decidiu ir colher orquídeas na mata do monte Pedra Branca. Dois amigos o acompanharam e ficaram na beira da mata desafiando o Unhudo, enquanto que ele entrou.

O Unhudo teria saído de um buraco existente na pedra e o agrediu por trás. Ele lembra que antes de ser atacado percebeu que não estava sozinho no mato, mas não teve tempo de virar o corpo e nem viu o Unhudo, pois tomou um tapa forte nas costas que o jogou violentamente no chão. Ele sofreu fratura exposta do braço direito. Seus gritos de socorro levaram os amigos dele ao local. Foi encaminhado para a Santa casa de Jaú, onde foi submetido a uma cirurgia.

Botucatu prepara a Feira do Verde

Igor Medeiros/Divulgação
Botucatu é conhecida como a cidade do saci-pererê

Conhecida como terra do Saci, Botucatu prepara a 22ª Feira do Verde de 9 a 11 de setembro, no Parque Municipal “Joaquim Amaral Amando de Barros”, das 9h às 22h. A novidade deste ano é que junto com a Feira do Verde será promovido o 27º Festival da Música Sertaneja Raiz de Botucatu e Região, que faz parte da oitava Festança, promovida pela Secretaria Municipal de Cultura. A entrada é gratuita.

A Festança no ano passado trouxe grupo de congada e foclore. A administração decidiu fazer junto a Feira do Verde que foi realizada pela primeira vez na cidade em 1994. Desde então, se tornou um evento tradicional do calendário de Botucatu por ser uma excelente opção de lazer às famílias em pleno mês de chegada da primavera. Durante o dia, ela reunirá exposição-comercialização de plantas ornamentais e artesanato, cursos gratuitos de jardinagem-paisagismo, praça de alimentação, trilhas monitoradas, e uma ampla e diversificada programação musical.

Já o Festival da Música Sertaneja Raiz acontecerá sempre à noite, com o melhor da cultura caipira. Dos artistas inscritos haverá a seleção de 24 canções, que serão apresentadas ao vivo, divididas em duas etapas seletivas nos dias 9 e 10 de setembro. A grande final está marcada para o dia 11. Os três melhores recebem troféu e premiação em dinheiro. Também serão reconhecidos com troféu o “Melhor Intérprete”, “Melhor Letra” e “Melhor Arranjo”.

Ambos eventos também marcarão a reabertura em definitivo do Parque Municipal, que por meses manteve-se fechado para as obras de revitalização do espaço, o que inclui a construção de um lago, um Centro Receptivo.