09 de julho de 2026
Política

Jovens no Brasil resistem mais ao desemprego

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: Renan Casal
Fernanda Castilho (à esq.) foi promovida e, ao lado, Hevelin Lopes, que trabalho numa empresa e ganha R$ 700,00 

Se, para muitos jovens, ingressar no mercado de trabalho é um grande desafio, ao menos eles têm se mostrado menos vulneráveis aos elevados níveis de desemprego que castigam os trabalhadores brasileiros em tempos de crise. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o volume de vagas com carteira assinada fechadas em Bauru, no primeiro semestre deste ano, foi menor na faixa etária de até 24 anos.

Até 17 anos, foram extintos somente 14 postos no período e, entre 18 e 24 anos, 340. Já os trabalhadores de 30 a 39 anos foram os mais penalizados, com fechamento de 734 vagas nos primeiros seis meses do ano (veja quadro completo ao lado). O levantamento foi enviado pelo Ministério do Trabalho a pedido do Jornal da Cidade.

Segundo especialistas consultados pela reportagem, são inúmeros os motivos que têm levado os jovens a resistirem mais ao desemprego, que, neste primeiro semestre, registrou índice recorde em Bauru. Entre as causas, está o fato de os trabalhadores com menos idade aceitarem, com maior facilidade, salários mais baixos.

Isso porque, normalmente, possuem pouca experiência e baixa qualificação, com grau de escolaridade entre o nível médio completo ou superior incompleto. Na maioria dos casos, eles também não sustentam suas famílias e ainda não têm condições técnicas para procurar outras fontes de renda, como um negócio próprio.

Por este motivo, ficam mais suscetíveis a aceitar menores remunerações, o que acaba sendo um grande atrativo para empresas que enfrentam dificuldades financeiras. O economista Reinaldo Cafeo não acredita, contudo, que este perfil de empregado esteja tomando o espaço dos trabalhadores mais velhos.

“Com tão pouca idade, eles nem tiveram tempo para alcançar a mesma qualificação. Porém, depende muito do setor. Quando a empresa tem uma filosofia de ir lapidando e promovendo seus estagiários, como bancos e escritórios de contabilidade, os jovens podem ter oportunidade de crescimento”, pontua.

Contramão

Foi o que aconteceu com Fernanda Castilho, 22 anos, promovida nesta semana ao cargo de auxiliar de qualidade, com acréscimo de R$ 400,00 no salário pago pela empresa em que trabalha há três anos. “Enquanto tanta gente está sendo demitida no País, fui na contramão deste fluxo. Foi nesta empresa que tive minha primeira oportunidade e acho que estou fazendo um bom trabalho”, pontua.

Entre os setores que mais contratam jovens em Bauru, estão o ramo de serviços, com ênfase nas empresas recuperadoras de crédito, e o comércio, especificamente em vagas de vendas em lojas. “E Bauru tem diversas empresas nestes segmentos, o que ajudou a fazer com que não fosse tão acentuada a queda do nível de emprego para este perfil de trabalhador”, pontua Cafeo.

A operadora de crédito Hevelin Thaina Lopes, 21 anos, por exemplo, já trabalha há um ano e meio em uma empresa de cobrança, onde ganha pouco mais de R$ 700,00 mensais. Mesmo com a baixa remuneração, ela diz temer uma eventual demissão, justamente por conhecer muitas pessoas, até de outras cidades, que foram desligadas de seus empregos. “Há um receio, mas a gente procura fazer tudo certinho para que isso não aconteça”, completa.

Mais flexíveis e conectados

De maneira geral, os jovens possuem algumas qualidades que podem ajudá-los a ficar mais imunes ao desemprego. Salvo raras exceções, eles são mais íntimos e interessados nas novas tecnologias, o que é bem visto pelas empresas, e mais flexíveis às mudanças, que são comuns em momentos desafiadores como o de agora. “Ele tende a se adaptar mais rapidamente do que o funcionário que está há décadas no mesmo emprego, recebendo um salário maior. E é uma aptidão muito requerida diante do cenário econômico atual”, considera a consultora em gestão estratégica de pessoas Alexandra Fabri.

Ela lembra que uma característica comum entre os trabalhadores com pouca idade, o baixo tempo de permanência no emprego, também vem sendo transformada em razão da crise. “Esta rotatividade preocupava muitas empresas e existia porque a oferta de vagas de trabalho era muito alta. Agora, os jovens estão mais cautelosos”, pondera. Reinaldo Cafeo lembra, contudo, que os jovens ainda enfrentam grande dificuldade para conseguir o primeiro emprego, já que a preferência continua quase sempre sendo dada a quem possui algum tipo de experiência - trabalhadores que, diante da crise, podem aceitar receber salários menores.