08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Os doentes imaginários

José Carlos Brandão
| Tempo de leitura: 3 min

Só sentimos o nosso corpo quando dói. É a única vantagem da doença, fazer despertar em nós a iluminação de que estamos vivos. É onde o hipocondríaco tem razão: é melhor estar doente, nem que seja de uma doença imaginária, do que estar morto. Mas antes de ter sido inventada essa palavra feia, hipocondríaco, pesada demais, a doença já existia, tanto que Molière usou-a como título de uma de suas peças mais conhecidas, “Les malades imaginaires” (Os doentes imaginários). Ouvi contar duas histórias que ilustram tão bem o caso que merecem ser registradas em letra de fôrma. Não juro que é verdade (já disse que ouvi contar), mas como disseram do matador do facínora do filme de John Ford: “Se a lenda supera a realidade, publique-se a lenda”.

O Dr. Ivan Peixoto, médico do interior de São Paulo, se livrou para sempre de dois aporrinhadores da paciência alheia com suas dores abstratas, mas sempre superlativas. A primeira foi a Dona Amélia, que estava com uma cólica insuportável. “Não será nó nas tripas, Doutor?” O médico cofiou o cavanhaque inexistente: “É bem possível, minha senhora. Tudo leva a crer que seu problema é gravíssimo.” A Dona Amélia apalpou o ventre protuberante: “E o que eu posso fazer, Doutor? Eu tenho salvação?” O médico receitou-lhe exames muito sérios, segundo ele, para saber sem margem de erro qual era o seu problema: deveria tomar dois litros d’água, os dois comprimidos que tinha na mão e que ela não sabia que eram um diurético fortíssimo. E não deveria urinar de jeito nenhum, para não comprometer os exames de que dependia a sua vida. Enfim ela ficou quase duas horas na sala de espera, vermelha, roxa de vontade de urinar, a sala cheia de gente, e o médico chamando todo mundo menos ela, que acabou urinando ali mesmo, depois de tanta, de tão infinita dor, agora uma dor real, para espanto do público e vergonha dela, tão pudica, coitada. Até que a enfermeira anunciou: “Dona Amélia, o Doutor Peixoto já foi embora, disse que o seu problema não é problema não, que é só a senhora tomar um diurético e urinar que passa, não passou?”

O outro caso foi o da mordida de macaco. O Geraldo sempre inventava alguma para chamar a atenção, esta vez foi um arranhãozinho de nada nas costas da mão, que parecia a maior ferida do mundo. “Um macaco me mordeu, Doutor. Não existe vacina contra mordida de macaco?” O Doutor Ivan cofiou o bigode, coçou o cenho, e disse: “São muitas as vacinas, cada uma para um caso específico, uma não pode ser dada no lugar da outra ou o resultado certamente será fatal. Conforme o macaco, a vacina. Tenho certeza que você sabe a raça do macaco, não sabe?” “Não sei, não senhor”, disse o Geraldo, saindo de fininho, com o rabo entre as pernas. Mas no dia seguinte, ei-lo no consultório, arranhado da cabeça aos pés, sangue manchando o corpo inteiro. Trazia um saco com a boca amarrada, que parecia vivo: “Veja o senhor de que raça é a fera.” O médico abriu de leve a boca do saco e, com a solenidade que o momento exigia, sentenciou: “Esse macaquinho não oferece nenhum perigo não, Geraldo. Não é preciso nenhuma vacina para essa raça de macaco. Pode ficar sossegado, descansado, em paz.” E em paz foi ficando o Dr. Ivan Peixoto, com a sua fama de apaziguador de dores imaginárias correndo o mundo – o seu mundo, pelo menos.