08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O menino da guerra

José Carlos Brandão
| Tempo de leitura: 1 min

O menino foi salvo dos escombros da casa. Tem sangue no olho esquerdo, tem terra no direito, tem sangue e terra na boca. Mas não chora. Olha a cor do mundo sem compreender. Tenta desenhar no chão com a mão esquerda, nem sabe o quê. Abre a boca, mas não fala nada. Tornaram-se inúteis todas as palavras. Um avião jogou uma bomba sobre a sua casa. Como se ele fosse o inimigo. Impossível compreender. A sua casa é um monte de destroços. Onde estão o seu pai, a sua mãe, os seus irmãos?


Ele nem tem força para perguntar. São questões muito transcendentes. Ergue a mão esquerda, olha-a, não sabe o que fazer com ela. Viu um homem morto pela primeira vez na vida, era um espetáculo muito feio. Ficou sem ação. O que é o mundo, meu Deus? A sua casa destruída, um homem morto ao lado. Não sabia o que dizer, o que pensar.  O que mais vai acontecer? O que será a morte? Ele vai morrer? Queria ser invisível, queria deixar de existir, por um breve momento que fosse.  Sonha com um mundo feliz. Mas será permitido sonhar com um mundo feliz?