09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Copa do Mundo e Olimpíada: reflexões sobre um provável legado....

Por Profa Dra Márcia Lopes Reis; Profa Dra Fernanda Rossi; Unesp ? FC | Departame
| Tempo de leitura: 4 min

Parece irreal, mas é fato: sobrevivemos à realização de uma Copa do Mundo (2014) e da Olimpíada (2016). Poucos países ousaram tanto... México, Alemanha e Estados Unidos, como demonstram os relatos históricos cercados de polêmicas e, em certo nível, graus distintos de violência registrados nos anais da história recente do século XX. Mas, independentemente desses aspectos que podem ser facilmente encontrados nos relatos, gostaríamos de pensar um pouco - neste espaço de opinião - sobre uma possível herança dessa aventura histórica vivenciada, de alguma forma, por todos nós – direta ou indiretamente.

 Tudo começou quando os Jogos Olímpicos mal haviam terminado: uma funcionária do edifício que moro disse que o filho de 24 anos gostaria de retomar os treinos para voltar a correr. Junto, ele gostaria de levar o irmão – de 11 anos. Na condição de professora na universidade, do curso de Educação Física, ela julgava que eu soubesse de algum projeto ou ação governamental para incentivar esse retorno ao que ela mesma definiu como um “desperdício de talento” pois seu filho – segundo ela – “tem pernas longas” e, na escola, ganhava todas as corridas...

Essas primeiras mudanças se juntaram a outras: no Parque Vitória Régia, nos sábados quentes e secos do mês de agosto, meninas e meninos brincavam de ‘dar estrelinha’ e finalizavam com a pose dos atletas da ginástica desportiva... algumas delas conheço de outros finais de semana: eles não faziam isso antes. Conversando com a mãe de uma dessas crianças, ela comentava que as filhas ficaram encantadas com as ginastas e gostariam de fazer esse tipo de modalidade na escola. Ela, diferentemente da funcionária do meu prédio, já havia encontrado um projeto para matricular as filhas. Ela gostou do que encontrou, mas não entendeu o porquê da necessidade de apresentação de boletins de nota e frequência para estar matriculado e seguir as atividades em distintas modalidades. Sua alegria era imensa pois as meninas não ficariam mais na rua, nem na Internet no horário em que não estão em sala de aula... e tudo isso, segundo ela, de graça...

Chamam a nossa atenção e parecem responder em parte à nossa pergunta sobre o que fica de uma realização de eventos desportivos nessa magnitude e, em tão pouco espaço de tempo. Afinal, todos nós temos uma lista de prioridades que certamente, não inclui a realização de um Mundial e, tampouco, de Jogos Olímpicos em meio ao cenário social, político, econômico e ambiental da cidade do Rio e do próprio país.

Pois bem, na Sociologia temos um conceito interessante chamado efeito-demonstração que consiste exatamente nesse processo de repetir determinados comportamentos ou práticas que são difundidos, sobretudo, reforçados e premiados como ocorreu com o conjunto de atletas premiados ao longo dessas duas semanas. Num país que possui 51 milhões de jovens, segundo o Censo/IBGE (2014) -  um quarto da população brasileira,  portanto – seria relevante que o processo de imitação fosse de práticas como essa.

A educação física, ao lado das Artes e das Humanidades, possui um fator diferenciador da qualidade da formação desses jovens, para além da herança que a Educação Física – como disciplina – deixou no Brasil em função dos anos de exceção. Para além da domesticação de corpos e espíritos, bem provavelmente, quando esses jovens retomem as modalidades de esporte possam reconstruir o verdadeiro sentido da prática de exercícios físicos, qual seja, apropriar-se e desenvolver autonomamente as diferentes formas do esporte, com capacidade para intervir e analisar criticamente esse fenômeno social globalizado e grande alcance mundial. Inserido numa dinâmica cultural, revela (e produz) traços históricos, linguagens específicas, dimensões éticas, estéticas e concepções dos meios nos quais circula.

 O esporte, “direito de todas as pessoas”, como consta na Carta Internacional de Educação Física e Esporte da Unesco (1978), contemplado, também, na Constituição do Brasil, no Estatuto da Criança e do Adolescente e no PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) não é virtuoso ou alienante em si, como nos lembra o sociólogo francês e teórico da educação física contemporânea, Pierra Parlebás, “o desporto não possui nenhuma virtude mágica. Ele não é em si mesmo nem socializante nem anti-socializante. É conforme: ele é aquilo que se fizer dele”.

Cedo demais para isso? Talvez, mas isso somente as próximas Olímpíadas dirão, pois esses processos tardam mais que o intervalo de um evento para outro. Mais do que isso, essas iniciativas demandam um conjunto de mudanças estruturais das nossas escolas – local no qual esses jovens deveriam inventar e reinventar o sentido que a prática de uma atividade física tem para as suas vidas. Mesmo que não seja para competir com os outros, talvez conhecer seus próprios limites para, quem sabe, propor superar como fez – com êxito – nosso campeão do salto de vara...