08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Miguel Chaim

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 6 min

Aceituno Jr.
Miguel Chaim, um advogado nascido em 1925, que sempre esteve muito à frente do seu tempo

Escolhas bem definidas, perseverança e luta por ideais. Este é um bom caminho para deixar a vida, por mais atribulada que seja, ainda mais feliz e completa. Assim é a história de Miguel Chaim, um advogado nascido em 1925, que sempre esteve muito à frente do seu tempo.
Nascido em Arealva, estudou direito na ITE, formou-se e escolheu trilhar os caminhos da educação, com o objetivo de fazer com que as faculdades dessem a melhor estrutura a seus alunos, a fim de formá-los bons profissionais. 
Aposentadoria? Pensou aos 50, aos 60, aos 70. Hoje, porém, trabalha muito mais e com mais vigor do que em outras épocas da vida. Mantém seu escritório em São Paulo, na Praça da República. Acompanhe agora esta entrevista cheia de lições de vida.

Jornal da Cidade - Conte um pouco de sua história. Como foi sua vinda para Bauru?
Miguel Chaim - Nasci em Arealva e vim a Bauru ainda jovem para cursar direito na ITE. Terminando a faculdade, resolvi prestar concurso público na área de educação. Sempre tive essa preocupação com a educação. Então, fui aprovado para o cargo de técnico em assuntos educacionais do Ministério da Educação (MEC) e comecei a trabalhar no Estado todo. No início, eu fiscalizava as escolas. Depois, passei para o ensino superior, com as universidades. Ficava bastante na Capital; no Interior, em Bauru, Marília, Presidente Prudente; e ainda Cuiabá; Campo Grande; e Dourados.

JC - Fale um pouco mais sobre este seu trabalho...
Miguel -  Eu fazia a fiscalização das instituições de ensino e aprovava ou não. Fui alvo de muitas discussões para a abertura de universidades em Bauru e região, pois sempre levei muito a sério meu trabalho. Fui bastante feliz em meus 32 anos de atuação no MEC. O único ponto negativo foi que não participei com tanta proximidade do crescimento dos meus filhos.

JC -  Quantos filhos você tem? Netos? Bisnetos?
Miguel - Tenho quatro filhos: Humberto, Anete, Homero e Marcelo. Também tenho oito netos e um bisneto, o Enzo. 

JC - Algum deles seguiu a mesma carreira de advogado?
Miguel - O Humberto é bacharel em direito; a Anete é advogada e minha neta Luana  hoje é juíza.

JC - Nesta trajetória, você tem alguma lembrança marcante?
Miguel - Certa vez, eu estava na estrada e liguei o rádio do carro. Só tocava música americana em todas as rádios que eu sintonizava. E eu queria ouvir música brasileira mesmo. Acabei levando isso adiante e conversando com colegas. Acabou virando lei. Tinha que tocar três músicas brasileiras primeiro, para, na sequência, tocar uma internacional. E essa lei foi aprovada, está em vigor, mas hoje caiu no esquecimento. Existe essa lei, criada por nós ali do MEC. O espírito de brasilidade é muito importante. 

JC - Tem outras passagens que marcaram mais sua vida?
Miguel - Eu fui vereador em Bariri 8 anos, dois mandatos. E, para mim, foi uma escola da vida. Respeitar e conviver com a administração municipal. No Brasil, fala-se muito em política, mas no termo pejorativo. Todo brasileiro deveria conhecer um pouco da política. 

JC - Por que você escolheu essa área da educação?
Miguel - Pois sempre foi algo que me seduziu. Como vereador, eu também era parte importante das comissões. Ensino primário, fundamental, escolas infantis, sempre gostei disso. Educação sempre foi muito importante. Pessoas cultas sabem escolher em quem votar, por exemplo. Melhora o conceito em tudo. 

JC - E você ainda tem o seu escritório de advocacia?
Miguel - Sim, tenho meu escritório em São Paulo, na Praça da República. Atuo na área civil. Mas, no meu escritório tem também as áreas trabalhista e criminal. Outros quatro advogados trabalham comigo. 

JC - É uma pessoa urbana, então?
Miguel - Tenho também uma vida voltada ao rural: agricultura, pecuária. Sempre que sobram algumas economias é para lá que vai o investimento. Gosto muito de turismo. Lá, em Bariri, fui  presidente do Conselho de Turismo. Por exemplo, acho um absurdo termos um Rio Tietê e ninguém explorá-lo para o turismo. A política não interioriza nenhuma das atividades. Por exemplo, todo advogado vive em função de São Paulo, pois é lá que estão todos os processos. Por que não montar um anexo do Tribunal em Bauru? Ribeirão Preto? Presidente Prudente? Desafogaria o Tribunal.

JC - Falando em turismo, você gosta de viajar?
Miguel - Sim, gosto muito!

JC - Tem algum lugar que visitou que se tornou especial para você?
Miguel -  A Áustria. País maravilhoso. É um País pequeno, mas muito florido. Todas as casas, tanto na Capital quanto no Interior, são muito boas, com janelas cheias de flores. É um paraíso. Todos vivem bem, se alimentam bem, tem educação de qualidade. É um País bem evoluído.

JC - E você se sente realizado com essas muitas coisas boas que fez?
Miguel - Sempre quis participar de tudo o que visa algo de melhor. Eu já nasci com esse espírito. Eu sempre incentivei a todas a pessoas do meu convívio a lerem jornal. Tenho cinco advogados trabalhando comigo, assino o JC e outros muitos jornais e revistas, fora os livros jurídicos. De manhã, todos leem os jornais. O jornal é em primeiro lugar, você já vai sair informado. É uma cultura geral, melhora a capacidade de leitura, de conhecimento. Leio muito jornal. É uma instrução. 

JC- Me conte mais sobre essa sua vivência na política, amigos...
Miguel - Como vereador, tive grande experiência, foram oito anos na atividade. Tive bom contato e fui muito bem recebido pelo Gilberto Kassab e com o deputado Rodrigo Garcia. Isso me marcou muito, pois ele (Gilberto) foi prefeito de cidade, se projetou. Nós nos respeitávamos muito. Temos grandes lembranças do Lauro Natel, que foi governador e presidente do São Paulo, meu time do coração. Aliás, sou são paulino ‘roxo’, que comprou até cadeira cativa (risos). 

JC- E na educação e advocacia?
Miguel- Na educação eu tive grande amizade e grande apoio do Mauro Toledo. Grande educador, grande administrador. Todos os trabalhos que sugeri na ITE, ele acatou e só melhorou. Lá, em São Paulo, tenho grandes colegas, também tive grandes amigos que estão na alta esfera. E, como advogado, trabalhei dois anos no escritório do professor Theotonio Negrão, que é o autor dos livros (tem 47 edições) Código Civil e Código de Processo Civil, usado por todos os advogados e todos os juízes. Ele foi meu colega também como advogado e era extraordinário. Já faleceu, mas tem uma passagem brilhante pelo direito. Foi técnico em assuntos educacionais do MEC comigo, foi meu colega de trabalho. Ele compilou todas as leis federais do Brasil em vigor. Era um gênio, grande escritor.

JC - Você ainda trabalha bastante. Pretende se aposentar um dia para viajar, descansar?
Miguel - Quando ia completar 50 anos, falei que ia diminuir metade do meu trabalho. Não diminui. Disse que quando chegasse nos 60, eu pararia para viajar o Brasil inteiro. Não parei. Nem aos 70, nem aos 80 e nem aos 90. Estou na ativa, trabalhando como nunca trabalhei na vida, pois a vida tornou-se muito difícil. 

JC - Você se considera um homem da educação por tudo o que você fez pela melhora do ensino?
Miguel - Considero. Dei minha contribuição. Educação, enquanto estiverem pensando que é despesa, vai ser difícil. A discrepância do salário de um professor para um outro funcionário público, por exemplo, é enorme.

Perfil

Miguel Chaim nasceu em 7 de maio de 1925 (“deixe as pessoas fazerem contas”, brinca) na cidade de Arealva e é do signo de Touro. Tem como principal livro a Constituição. Gosta somente de música brasileira e aprecia filmes de caráter mais sério. O time de coração é o São Paulo e dá nota 10 para o Mauro Toledo. Já a nota 0 vai para a corrupção. Seu e-mail é mslchaim@terra.com.br.