09 de julho de 2026
Articulistas

Este agosto também termina com desgosto

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Nem todas as pessoas que passam pela vida são lembradas na eternidade, pois na medida que a morte atinge uma pessoa, aos poucos seus parente e amigos dela vão se esquecendo, retirando-a da memória humana. De rigor, o morto só desaparece mesmo quando morrerem todos aqueles que em vida o conheceram. Assim tem sido a vida, salvo se o falecido recebe nome de rua ou de praça ou de algum local onde como homenagem seu nome fica inscrito para a eternidade. Ainda assim, de cada um deles resta pouco mais que o nome. Nem todos, porém, recebem esse tipo de homenagem e a memória que deles fica é chama que se apaga aos poucos até extinguir-se por completo. São muito raros os falecidos lembrados e homenageados e, dentre esses, são raríssimos aqueles que perenemente se destacam e estão incluídos no pavilhão da eternidade por fatos acontecidos em suas vidas.


Agosto, pelos fatos acontecidos em nossa história, é mês trágico para a memória nacional. Foi em agosto que faleceu Juscelino, na mesma Via Dutra que nos levou Francisco Alves. Também foi em agosto que Getúlio deixou a vida para entrar na história com tempo para preparar sua carta-testamento, escrita de caso pensado nos dias que antecederam seu premeditado suicídio. Em agosto também, abruptamente Jânio renunciou à Presidência com vago e tosco bilhete que apenas trouxe para a memória brasileira as inexplicáveis forças ocultas tão fortes que o apearam do poder para frustração geral, numa tragédia mal explicada, típica de desequilibrados. Agora, neste agosto que acabou a presidente Dilma Rousseff atropelada com a conclusão do longo e desgastante processo de seu impedimento chegou ao fim de sua desastrada trajetória presidencial, sem carta, sem bilhete, mas com longo e repetitivo discurso cansativamente reproduzido, por ela e seus correligionários em todas frentes de defesa abertas pelo rito de julgamento que, desde o início, se sabia ser causa perdida e ter desfecho certo.


No calor desse lastimável desfecho político que fecha este agourento mês de agosto, a impressão que parece ficar na memória recente, infelizmente, é de que a presidente não foi boa opção, eleita e reeleita por desarticulação e fragilidade das oposições e favorecida com exitosas estratégias de falacioso marketing político, sem aptidão e preparo para a penosa investidura que obteve. No exercício do poder foi se enredando nas próprias deficiências e revelando sua face real despida da maquiagem de seu falacioso marketing, praticamente incompatibilizando-se com a classe política e com a imensa maioria da nação, fragilizando sua credibilidade e perdendo confiabilidade até de seu próprio Partido.


Perdeu a investidura não só pelos fatos julgados, mas, principalmente, pelo desastroso conjunto de sua obra que arrastou a nação para a beiradinha do abismo. O generoso e inconstitucional fatiamento da votação para preservar sua habilitação política contra a letra clara da Constituição – engolido por Ricardo Levandowski em desabono de sua própria biografia – é, apenas, surpreendente manobra de lhe conceder segunda e piedosa chance para tentar reconstruir história que lhe permita aspirar ingresso no pavilhão da eternidade. Isto se a Suprema Corte (STF) não engendrar algum chicanico pretexto para descumprir seu papel de guardião da Constituição.


O autor é advogado, articulista do JC e escreve a cada catorze dias