| Fotos: Samantha Ciuffa |
| 3 mil famílias tomam lotes de Bauru e a grande questão é como desenvolver a cidade, que está estagnada |
As maiores demandas públicas de Bauru, ora em debate na campanha eleitoral, ganham enorme desafio e um tema obrigatório a partir desta reportagem-documento: a ampla e articulada ocupação de glebas e terrenos por movimentos que lutam pela posse de terra associados a trabalhadores urbanos que sonham com casa própria. São 3.222 famílias envolvidas, a maior parte já moradora da cidade.
O JC traz um completo levantamento nestas 4 páginas e revela as dimensões inéditas na história de Bauru e talvez do Estado de um fenômeno social extremamente preocupante, que envolve o poder público e a sociedade em um grande desafio: temos comprovadamente um déficit de desenvolvimento, sem geração suficiente de oportunidades, inclusão, emprego e renda.
A grande questão é como desenvolver a cidade, que se encontra estagnada, para que ela tenha condições de dar conta de todas as suas urgentes pendências sociais, como esta, por exemplo. Veja também na última página desta reportagem documento os alertas feitos pelas autoridades policiais e judiciárias sobre o problema.
As ocupações de terra em Bauru, em glebas e lotes, atingem a maior extensão de área, em número de grupos organizados e de famílias, desde o auge do emblemático movimento na região do Pontal do Paranapanema, na metade da década de 90.
Organizados com estratégia para o levantamento de áreas, instalação provisória e mobilidade para desocupar e ocupar novas glebas, inclusive com revezamento de ‘habitantes provisórios’ nos acampamentos, os movimentos se propagam em 14 pontos de diferentes regiões periféricas de Bauru.
Divididos por orientações políticas e de lideranças distintos, os grupos ligados ao Movimento Social de Luta (MSL), à Frente Nacional de Luta (FNL) e ao Movimento Irmã Doroty estão ocupando desde o mês de junho passado 14 núcleos de áreas urbanas com o cadastramento de pelo menos 3.222 famílias até esta fase. A região dos Jardins Marabá e Mary, na zona sul da cidade, reúne o maior número de lotes ocupados e, também, a maior concentração de famílias envolvidas (1.500).
Silencioso para muitos, mas explosivo para autoridades e posseiros, as ocupações de sem teto e sem terra somente agora estão despertando a atenção da cidade. São milhares de pais e filhos que, a despeito do julgamento jurídico sobre o método de ação, posse, ocupação e/ou invasão, batem às portas do sistema de assistência social e dos equipamentos de saúde e educação do município.
Para se ter uma uma ideia da dimensão dessas ações, no auge das ocupações do Pontal do Paranapanema, 3.200 famílias foram cadastradas, segundo estudos, como o assinado pelo geógrafo da Unesp de Presidente Prudente Bernardo Mançano Fernandes e a geógrafa Cristiane Barbosa Ramalho, na época mestranda na mesma universidade.
A circunferência de ocupações nos 14 núcleos existentes nas bordas do perímetro de Bauru levantados pelo JC apontam, coincidentemente, o mesmo número de cadastros de famílias do período de todo o Pontal. A diferença, substancial, entretanto, além das novas dimensões sociais, políticas e econômicas dos movimentos neste momento, é que no Pontal do Paranapanema, cuja ocupação se deu ao longo da década de 90, é que foram 336 ocupações em todo o período (1990-2000), espalhadas por 20 municípios, sendo 128 delas em Mirante do Paranapanema, epicentro do episódio, segundo o estudo dos acadêmicos da Unesp.
Em Bauru, o MSL, o FNL e o Irmã Doroty montaram estratégia que já envolve 3.222 famílias, centenas de lotes e glebas de terras que contemplam enormes vazios urbanos.
Outras peculiaridades dão a noção da problemática social ainda não dimensionada pelas autoridades locais, como o fato de boa parte dos sem terra/sem teto estarem em cadastros de programas sociais registrados na prefeitura, como o CadÚnico e Bolsa Família.
Saiba mais clicando nos títulos abaixo e confira gráfico no final os locais das ocupações:
Movimento se une a grupos urbanos e diversifica ações
O custo da miséria social e um canto para morar
Promotorias Federal e Estadual e polícias Federal, Civil e Militar alertam para ilusão