11 de julho de 2026
Regional

Projeto social incentiva crianças a fazer fotografias do bairro

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 11 min

Divulgação
Moradores da Vila Divinéia no lançamento da exposição 

de fotos  

Um olhar por meio das lentes de uma máquina fotográfica transformou a antiga favela Taturana em Vila Divinéia. Co-m aproximadamente 300 famílias, o bairro de Santa Cruz do Rio Pardo (90 quilômetros de Bauru) já sofreu muito com preconceitos, mas um projeto desenvolvido pelo Centro de Referência da Assistência Social (Cras) em parceria com a Secretaria de Assistência Social está mudando a maneira como a cidade enxerga a vila.   

“É como se existisse um muro separando a Vila Divinéia do restante da cidade. É a área mais carente e com maior vulnerabilidade social. A oficina de fotografia ‘O Belo do Cotidiano’ fez com que a população da cidade enxergasse o bairro de outra maneira. Ao pesquisarmos a identidade e levantarmos o potencial da comunidade, até os moradores se sentiram orgulhosos de morar ali”, comenta a diretora do Cras, Antiella Cristiane Carrijo Ramos.

A Vila Divinéia é uma comunidade localizada na zona periférica do município de Santa Cruz do Rio Pardo às margens do Rio Pardo. Segundo os moradores, o bairro foi se formando em um terreno cedido pela prefeitura e no início contava com dez famílias. Nessa época, as mulheres lavavam roupas no rio e utilizavam água de mina. Hoje, a vila tem toda infraestrutura de saneamento básico. As casas de pau-a-pique deram espaço para edificações de blocos e conta com uma associação de moradores atuante.

A psicóloga do Cras Lívia Maria Rosseto Ortega teve uma impressão boa do trabalho desenvolvido na Vila Divinéia. “Com o projeto ‘O Belo do Cotidiano’ percebemos que a comunidade tem muitas potencialidades. Eu vi muitas coisas boas que podem sair dali. Tem muita gente com vontade de aprender, com muita garra.”

Para ela, a própria comunidade mudou a maneira de se ver. “Através das fotos e do documentário, conseguimos perceber o outro lado da comunidade. Tudo o que tinha de bonito. O que fazia daquele lugar ser diferente. As relações afetuosas entre eles, as parcerias. A questão do preconceito vivido por eles deu início ao projeto. Durante o trabalho observamos que alguns sentiam vergonha do local. Outros, orgulho. Esses gostam dali e da convivência entre eles.”

Segundo ela, a vida deles é muita dura, em vários sentidos. “Um olhar afetuoso, mostrando o lado bonito provocou uma mudança. Eles passaram a compreender a importância de uma nova forma de ver a mesma coisa.”  

Para a diretora do Cras Antiella Cristiane Carrijo Ramos, o trabalho possibilitou mudar a perspectiva do trabalho feito pela assistência social. “Nós trabalhamos com a parte ruim, com os problemas, com a vulnerabilidade. Esse projeto possibilitou mudar a perspectiva do nosso trabalho. Olhar para a potencialidade do espaço, do local, foi maravilhoso.”

A experiência deve se repetir durante esse semestre, explica a diretora. “Vamos dar continuidade em projetos. Temos um ateliê de costura no Cras, ‘Alinhavando Sonhos’ (grupo formado por moradoras do território do bairro São José e adjacentes). Vamos produzir roupas, modelos e fazer um desfile de modas. Além do ensaio fotográfico com as mulheres do Cras que participam do grupo ‘Para Além do Azul e Rosa’. A oficina de grafite vai continuar.”

‘Fala Vila’ dá voz aos moradores

Trezentas fotos foram tiradas pelas crianças e moradores do próprio bairro num projeto social que se transformou em uma exposição

Fotos: Divulgação
Crianças tiraram dezenas de fotos que depois de escolhidas entre 50 ficaram expostas em centro social da Vila Divinéia

O projeto Fala Vila é um projeto tem a intenção de dar voz ao bairro Vila Divinéia,por meio do universo das artes. Surgiu da união entre o Cras Betinha e a Secretaria Municipal de Cultura e Associação de Moradores da Vila Divinéia. Compreendeu atividades de oficina de grafite, documentário e oficina e exposição fotográfica.

A oficina de grafite foi um pedido da associação de moradores para homenagear uma saudosa figura do bairro: João Nervoso. A história de vida dele inspirou o documentário. O Fala Vila conta um pouco da comunidade, da sua generosidade e do conceito existente na Divinéia.

A exposição Salgadinhos é o olhar das crianças da vila que participam do Cras. Elas fotografaram o que acham belo em seu cotidiano. O resultado foi tão magnífico que foram batizados de Salgadinhos, em homenagem ao fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado que documenta um mundo de pessoas e lugares esquecidos.

As 50 fotos selecionadas entre as 300, revelam o olhar dos pequenos artistas. Segundo a diretora do Cras, Antiella Ramos os participantes são integrantes do serviço de convivência para crianças. “Eles fotografaram sem técnica nenhuma. A ideia era deixá-los soltos para que eles demonstrassem o que de real admiravam na vila. Usamos cinco máquinas nossas e da Secretaria de Cultura. Os participantes foram orientados pela psicóloga Livia Ortega e pela diretora de Cultura, Fernanda Botelho.”

A única orientação dada aos participantes foi para que eles fotografassem o lugar que mais gostam no bairro. “Que traga lembranças boas para eles. Eles tiraram 300 fotos, selecionamos 50. A seleção foi muito difícil. Percebemos a qualidade das imagens e  apelidamos de Salgadinhos. As fotos são semelhantes ao do famoso fotógrafo. Preferimos não selecionar fotos com identidade, justamente para valorizar o trabalho do grupo. Não fizemos distinção.”

Os participantes são crianças e adolescentes que moram no território da abrangência do Cras Betinha. “Não são menores infratores. Eles frequentam o Cras três vezes por semana. A ideia surgiu durante um trabalho sobre Direitos Humanos. Finalizamos com uma oficina de grafite no muros do Cras  envolvendo toda a temática. A associação de moradores viu e me procurou  com a ideia de fazer o mesmo grafite no barracão da vila. Eles pediram ajuda. Queriam homenagear o líder comunitário, chamado João Batista Pedro que era conhecido como João nervoso. Fomos atrás de parceria. Percebemos que tinha possibilidade de trabalhar outras questões relacionadas. A história da vila, e o desenvolvimento da autoestima.”

A história do bairro foi resgatada através de depoimentos dos moradores. “Fizemos um documentário e  grafitamos o João Nervoso. Os moradores mais antigos, alguns da associação e outros indiciados pelos moradores foram entrevistados. Como era e o que é hoje. O que tem de bom. O documentário foi lançado dia 11 de agosto no Palácio da Cultura Umberto Magnani Neto.”

A história contada com fotos e imagens deu início a 1ª exposição fotográfica da Vila Divinéia. “Foi feita no barracão do bairro. Ela é itinerante. Foi para o Centro Cultural e depois para o Palácio da Cultura. Temos recebido pedidos de agendamento para a exposição ser levada para outros lugares."

Crianças em frente ao grafite feito em parede que retrata o antigo morador João Batista Pedro que não tinha nada de nervoso

Quem era João Nervoso

A grafitagem feita no barracão da Vila Divinéia homenageia o “João nervoso” que no cartório o recebeu o nome de João Batista Pedro. Era muito querido da comunidade e por isso é lembrado até hoje. Não se sabe a data de sua morte.

Dona Tereza Cipriano da Silva, uma das mais antigas moradoras da vila lembra dele. “Quando eu cheguei aqui a mãe dele morava na vila, era a dona Josefa. Ele era uma pessoa brincalhona, Na época de carnaval, e das festas juninas ele divertia todo mundo. Dançava quadrilha, se vestia de palhaço. Fazia palhaçada para as crianças. Tinha um time  futebol aqui no fundo da minha casa. Ele fez uma casinha beirando o campo. Instalou uma emissora de rádio de brincadeira. Dela ele  irradiava o jogo tudo na base da brincadeira. As vezes promovia jogos com os jogadores vestidos de mulher.”

Construções eram feitas de pau a pique

Jarbas Monteiro São Miguel, vice-presidente da Associação do Bairro da Divinéia, lembra do que era a vila há mais de 30 anos. Época que não tinha água encanada e o líquido era de poço. Não tinha energia elétrica e durante a noite os moradores usavam latinhas com querosene para iluminar os ambientes. “As casas eram feitas de barro com bambu, cobertas com folhas de coco. Eram poucas as construções de madeira. Atualmente, todas as casas são de material (blocos)”, diz com simplicidade.

Nessa época, os moradores eram em sua maioria, trabalhadores braçais da roça. “Ainda tem gente que trabalha na roça, mas hoje é minoria. Temos muitos pedreiros, serventes, gente que trabalha no frigorífico, em serraria e muitas crianças. Para trabalhar, os pais as deixam na creche do bairro São José.”

Com o passar dos anos, o esgoto, a água encanada e a energia alcançaram a Divinéia.  “Nesse mesmo período, os moradores começaram a construir suas casas com material. A vila já foi chamada de Taturana, era considerada uma favela. Hoje é uma vila. Sofremos muito preconceito. Agora posso dizer que estamos no céu.”

Para o vice da associação, a vila tem coisas interessantes que em outros bairros não têm. “Temos uma benzedeira entre as mais antigas moradoras. Ela tem mais de 60 anos e é a única mulher dentre os 14 membros da associação. Eu tenho orgulho de morar aqui. Muita gente tem. Só saio daqui quando morrer. Minha vida foi aqui.”

Ele conta com orgulho que as festas populares agitam a vila. “Quando chega o carnaval nós ensaiamos no barracão e depois desfilamos. É tipo uma escola de samba, mas não temos instrumentos musicais. Nós construímos um barracão que estava ruim, muito antigo. A prefeitura construiu outro. O projeto Fala Vila do Cras foi muito bom para nós. Fizemos grafite no barracão. Melhorou muito a autoestima dos moradores.” 

Terrenos foram ‘doados’ a moradores

Bairro começou a partir do êxodo rural dos anos 70, quando muitas famílias deixam a zona rural para se estabelecer na área urbana do município

Fotos: Divulgação
Moradora de Vila Divinéia fazendo artesanato, bairro cresceu a partir dos anos 60 e 70 e ganhou um novo olhar em projeto social

A dona Tereza Cipriano da Silva, como é chamada pelos moradores da Vila, é uma das mais antigas moradoras da Divinéia. Sem dúvida nenhuma é também a mais conhecida, uma vez que benze crianças, uma atividade que exerce por amor, desde os 15 anos, hoje ela tem 67. 

Há 40 anos, dona Tereza saiu do sítio que morava para fazer parte da comunidade da Divinéia. Quando ela chegou eram poucos os moradores e todos se conheciam pelo nome acrescido de algo que fazia parte das características da pessoa. “Tinha o Zé da Gruta, a Maria do Coco, a Maria Preta, o Tonho Góes.”

Ela frisa que quem dava os terrenos era o Zé da Gruta, morador que já morreu. “Eu sai da roça e vim para a Divinéia. Meu marido estava desempregado e já faltava comida em casa. A dona Cida, mãe do Tonho Góes, era benzedeira à época. Ela morava em dois cômodos feitos de bambu com barro. Ela cedeu um dos cômodos para que eu, meu marido e meus três filhos morássemos. Ela com os filhos ficaram em um cômodo também.” 

Tempos depois, o Zé da Gruta deu um pedacinho de terra para a família de dona Tereza. “Fizemos uma casinha de tábua. Fiquei morando lá até ele ir embora com outra mulher. O finado seu Américo, morador mais antigo do que eu, tinha uma terra ocupada por um canavial. Lá tinha só quatro casinhas. Ele alugou uma casinha para mim. Na sequência comprei três cômodos de zinco que estava caindo. Foi a filha dele que me vendeu. Nesse terreno fiz a casinha de bloco. Aqui criei meus seis filhos, três deles do primeiro relacionamento. Os gêmeos nasceram aqui. Mais um menino também.” 

A maioria das pessoas que moravam na vila quando Tereza chegou já morreram. “Tem poucos vivos. Agora são os filhos ou parentes que moram aqui. Eu faço parte da associação de moradores há quase 20 anos. Eu comecei com o Ademir, ele estava sozinho e me chamou. Nessa época montamos um time de futebol. Eu levava as crianças para jogar fora da cidade. Acompanhava tudo. Depois o Valtinho entrou na presidência e é o atual.”

Ela se orgulha de dizer que a associação de moradores evoluiu muito. “A associação está de papel passado, legalizada. Ela aumentou muito. O barracão é novo e recebeu pintura de grafite. A atuação da associação é importante. Eu participo de tudo. Quando tem que ir reivindicar algo na câmara eu vou.” O projeto Fala Vila foi muito bom na avaliação dela. Mexeu com a cabeça dos moradores. 

Mulheres do Interior/Divulgação
O ato de benzer é uma prática muito antiga e ganhou força no Brasil no período de colonização

Benzedeira aprendeu ouvindo a avó

A avó de dona Tereza era benzedeira. Ainda criança ela ficava ao lado da avó ouvindo o que ela falava. Aprendeu a benzer. “Eu benzo desde os 15 anos. Aprendi ouvindo minha avó. Ela benzia falando alto e eu gravei as palavras. Quando mudei na fazenda Cardoso, não tinha benzedô e todo mundo precisava. Eu comecei a benzer as crianças. Já benzi adulto, mas por conta da fragilidade de minha saúde, hoje, só benzo crianças.” 

 

Na comunidade, segundo as mães, conservam o costume de benzer as crianças. “As crianças sofrem com muitas coisas que o médico não resolve. Eu benzo quando elas estão assustadas e elas passam a dormir tranquila. Quando estão com o ventre virado, com lombriga ou com quebranto (mau olhado). O benzimento me fez conhecer todos os moradores.  

 

O que é benzer

 

É tornar bento. É o ato de rezar pedindo que dela se afastem todos os males ou mal específico que lhe aflige. É uma prática muito antiga. No Brasil ganhou força no período da colonização.