08 de julho de 2026
Geral

Sem diagnóstico em Bauru, paciente consegue em Agudos

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Desde o dia 12 agosto deste ano, a costureira Vilma Gomes de Freitas Stafussi, de 54 anos, começou uma espécie de “via sacra” por conta da ineficiência da Saúde em Bauru. Com muita dor de cabeça, a mulher procurou atendimento na rede municipal por seis vezes, mas a tomografia - que levou ao diagnóstico de aneurisma - só teria sido solicitada quando ela deu entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Agudos, no último dia 23. Desde então, seu quadro clínico só se agravou.

Samantha Ciuffa
Eduardo Amauri Stafussi mostra os documentos da ‘via sacra’ de sua mãe em busca de atendimento; Vilma Gomes de Freitas Stafussi (logo abaixo) permanece internada no Base
Álbum de Família

Quem está inconformado diante da situação é o filho da paciente, o supervisor de vendas Eduardo Amauri Stafussi, de 36 anos. Com os laudos em mãos, ele narra passo a passo do que chama de descaso. No dia 12 de agosto, Vilma teve sua primeira crise e procurou a UPA do Geisel, onde teria sido diagnosticada com sinusite. “Ela foi medicada e liberada, mas nenhum exame foi feito”, reitera. No dia 19, retornou à mesma unidade, porque sentia pontadas na região da cabeça e estava com a pressão alta. “Lá, novamente, nada de exame: ela foi diagnosticada com enxaqueca, medicada e liberada”, acrescenta o filho.

A dor persistiu até o dia seguinte, quando sua família a encaminhou ao Pronto-Socorro Central (PSC). “Mais uma vez, nenhum exame foi pedido. O médico disse que ela tinha sinusite e estresse, fato que levou à pressão alta. Medicada e liberada, voltamos para casa”, narra. Já desorientada, Vilma foi levada à UPA do Mary Dota no dia 22 de agosto, já que a do Geisel, segundo Eduardo, não tinha médico. “Sem nenhum exame, minha mãe foi diagnosticada com cefaleia - uma dor de cabeça -, medicada e liberada”, acrescenta.

No mesmo dia, Vilma voltou à UPA do Geisel, ainda com forte dor de cabeça. “Lá, pediram um raio-X e a diagnosticaram com sinusite e cefaleia”, explica Eduardo. Um dia depois, já sem conseguir andar, Vilma foi levada à UPA do Bela Vista, onde trabalha um médico que é conhecido da família. “Ele a medicou para dor e pressão alta e a diagnosticou com hipertensão e disse, ainda, que sua dor decorria de ansiedade”, revela.

No mesmo dia, como a mulher não havia melhorado, veio a ideia de “tirá-la” de Bauru. “Como temos parentes que vivem em Agudos, a levei para a UPA da cidade vizinha. Dito e feito: o médico suspeitou de um AVC ou algo do tipo e disse que ela precisava de tomografia”, descreve.

Enfim, o exame

Vilma retornou ao PSC para conseguir o exame. Com a recomendação do médico de Agudos, a costureira passou a aguardar a internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base de Bauru. “Antes, ela passou a noite sentada, em uma cadeira lá do PSC e sentindo muita dor”, critica o filho da paciente.

No dia 24 de agosto, a mulher chegou ao Base e seu diagnóstico foi de aneurisma. “Hoje, a situação é delicada, porque ela corre risco de morte. Alguns médicos me disseram que, se minha mãe fosse atendida de forma adequada nas primeiras 48 horas após o aneurisma, ela não estaria assim. Não quero que outras famílias passem por esse mesmo sofrimento”, diz.

Outro caso: cuidadora recorre à rede privada

A cuidadora Maria Antônia de Souza, de 41 anos, também passou por poucas e boas para conseguir atendimento na rede municipal de saúde, também em Bauru. Ela afirma que, há dois meses, agendou uma consulta de rotina Unidade Básica de Saúde (UBS) do Jardim Nova Esperança para o último dia 5.

Porém, quando chegou ao local, seu nome sequer constava na agenda de atendimentos. Maria, por sua vez, mostrou à reportagem o lembrete de agendamento, fornecido pela unidade de saúde no momento em que marcou a consulta. Quatro dias antes, ela procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Bela Vista, com fortes dores abdominais.

“Lá, fizeram exame de sangue e urina, bem como um raio-X. Fui diagnosticada com infecção urinária. O médico me orientou a retornar ao Núcleo do Nova Esperança, porque eu já tinha uma consulta marcada. Quando voltei, não havia médico. Nem meu nome constava na agenda deles”, critica.

Resultado: Maria teve de contar com a ajuda de sua patroa, que pagou médico e exames particulares. No final das contas, ela foi diagnosticada com cálculos na vesícula e no rim direito. Questionada, a assessoria de comunicação da Prefeitura de Bauru, através da Secretaria Municipal de Saúde, alega que “não foi encontrado registro de agendamento de consulta para a data informada”.

De qualquer forma, segundo o órgão, o fato será devidamente averiguado. Maria foi orientada a comparecer à UBS do Jardim Nova Esperança ontem à tarde e, de fato, o fez. De lá, foi encaminhada à Divisão Regional de Saúde (DRS-6), em Bauru, porque seu caso exige um especialista.

‘Estamos averiguando’

O filho da paciente levou o caso à Polícia Civil, no último dia 31. Questionado, o diretor do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Sabbag, afirma que está averiguando o caso. “Ao que me parece, a queixa da paciente era muito vaga. Fica difícil diagnosticar precisamente só com o sintoma de dor de cabeça, principalmente, em um Pronto Atendimento, que é bastante movimentado. Porém, não chegamos a uma conclusão, ainda estamos estudando o que aconteceu”.

A reportagem tentou falar com o titular da Secretaria de Saúde de Agudos, João Urias Brosco. Contudo, ele não atendeu e nem retornou as ligações até o fechamento desta edição. Acionada por dois dias, a assessoria de imprensa da Prefeitura de Agudos também não deu uma resposta.