09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

PROFESSORA CLEIDE CANOVA ? A (À) MESTRA COM CARINHO

Marco Antônio de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

Tema dos mais áridos é discutir a ciência à luz da fé. Ou discutir a fé à luz da ciência. Invariavelmente, a maior parte dos exegetas entende que fé e ciência seguem linhas paralelas, que, se se encontrarem só o conseguirão no infinito. E como o infinito não é tangível a nós, mortais, pontifica-se que não há comunicação entre fé e razão (ciência).

Há certa dose de certeza, visto que a fé está fundada em dogmas muitos dos quais não se explicam – simplesmente se os aceitam, enquanto a ciência necessita de provas incontestáveis, através de experimentos exaustivos ou de rigorosos cálculos matemáticos.

Minha eterna professora Cleide Canova, falecida recentemente, navegou contra esta corrente pragmática. Nos idos de 1960, estrela de primeira grandeza em uma constelação onde também brilhavam luminares como Isaac Portal Roldán, Agarb César de Carvalho, Carlos Gomes Peixoto de Mello, Nair Mattos da Cunha, José Dimas Ribeiro e tantos outros, Dona Cleide, no Instituto de Educação Ernesto Monte, nos abriu a mente para conhecimentos ímpares sobre DNA, Teoria de Darwin, Leis de Mendel, os ciclos das doenças parasitárias, delicadeza da botânica, empolgando-nos com memoráveis aulas que, com todo respeito, eram verdadeiros “happenings”.

Seu domínio dos assuntos e sua extraordinária didática prendiam nossa atenção diante da lousa repleta de informações e desenhos/esquemas. Olhos vidrados no quadro que ainda era negro, espantava-nos todo aquele saber e todo aquele verdadeiro hino à ciência. E era necessário tomar anotações do que se via, porque constituiria material indispensável ao preparo para as provas. Certo que havia o BSCS (Biological Sciences Curriculum Study) que, junto com a Matemática Moderna, era o “destaque da estação”. Mas era um livro meio pernóstico que dona Cleide usava como suporte. O que valia mesmo era a explicação da professora.

E por que Dona Cleide transitava entre a fé e a ciência de que falei em parágrafos anteriores? Porque sempre entendeu – e isto foi depois confessado quando participamos juntos de aulas de italiano sob a competente orientação da professoressa Ilda Rugai Delicato – que a fé só é forte e inquebrantável quando consegue encarar o desenvolvimento da ciência, sem precisar despir-se de suas verdades. Por isto não se apegava demais ao criacionismo. E nem poderia, porque entendia que os estudos e experimentos de Darwin e Lamarck, bem como a hélice do DNA (adenosina-guanina-citosina-timina mais tarde vindo a uracila), o desenvolvimento do genoma humano, o uso de células tronco eram conquistas indispensáveis à ciência moderna, mas que faziam parte de uma energia maior que poderia muito bem ser chamada de Deus, para tristeza dos ateus.

Não poucas vezes, como me sentava ao seu lado nas aulas de italiano, “colei” as respostas de suas tarefas. Nestes momentos, a grande mestra vestia a humilde pele de aluna e assumia as traquinagens da infância, tudo baixinho e escondido da professora.

Participava dos debates que fazíamos sobre tudo o que preocupa a existência da humanidade, seja aqui seja no outro extremo do planeta. Sempre teve ideias modernas, mas com um tempero doce e nostálgico de quando a escola era risonha e franca. Uma maldade do destino a fez se afastar de nós. A princípio com muita esperança de voltar ao nosso convívio. Mas o tempo foi se passando e em sua implacabilidade mostrava-nos que o retorno jamais aconteceria.

Como escreveu Guimarães Rosa, o mundo é mágico e a gente não morre; encanta-se. Dona Cleide encantou-se, quem sabe até porque os milhares de alunos que preparou para a vida sempre foram encantados com ela e por ela.

Pode ter se encantado em uma estrela de distante galáxia, em um raio cósmico, mas é bem provável que se encante como uma flor. Como flor delicada e ao mesmo tempo firme, interpretou sem qualquer ambiguidade a ciência sem perder a ternura jamais. Ou a fé.

O querido professor Canova (a quem ela chamava amorosamente de Canovinha), Lia e Tadeu, sabem bem do que estou falando. Deus os conforte. Deus conforte a todos nós que compartilhamos parte da nossa vida com tão luminosa criatura.