08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Norusca ioiô

Eduardo Coube de Carvalho
| Tempo de leitura: 2 min

A proposta de estatização do Norusca seria assustadora, não fosse ela trágica. Enxergar o estado, no caso específico o município de Bauru, como ente salvador dos problemas privados é querer misturar o erário, a coisa pública, com interesses não coletivos. E pressionar uma gestão municipal aos 45 minutos de seu segundo mandato é, no mínimo, injusto com os eleitores que estão decidindo em poucos dias o próximo prefeito.


A sugestão da atual administração do clube carrega pesado montante emocional, inegável, dado o carinho que a cidade tem para com o Norusca. Entretanto, antes do clube vem a cidade, vem o déficit na assistência básica de saúde, vem as crianças sem vagas em creches (62%), vem a década perdida sem investimentos, e também o PIB per capita dentre os menores do Estado em cidades com população equivalente.


Como esperar que uma cidade assuma dívidas trabalhistas de entidade privada, sendo que ainda deve muito trabalho e eficiência aos seus moradores? Como esperar que uma prefeitura efetue uma operação de crédito velada com entidade privada, sendo que ela investe em saúde e educação muito menos que a média nacional?


Propor que a prefeitura compre as dependências do clube e mantenha-o como arrendatário exclusivo não é garantia de que a situação do clube vá se resolver, além de ser uma afronta perigosa ao artigo 26 da Lei de Responsabilidade Fiscal. Portanto, devem-se buscar caminhos eficientes, corretos e que passem longe da Praça das Cerejeiras. Um deles seria a avaliação imobiliária das áreas não ocupadas do complexo esportivo. A sede do clube possui áreas ao fundo da Panela de Pressão que não são usadas. Por que não avaliar o desmembramento e negociação dessas áreas com interessados (construtoras/investidores)? Outra possibilidade é agir com clareza e eficiência nas questões trabalhistas. O tema foi destaque em recente reunião entre clubes como o XV de Jaú, a Federação Paulista, desembargadores e magistrados trabalhistas.


A ideia de atos de execução concentrada busca dar o respiro necessário aos times de futebol, sem se afastar dos direitos dos trabalhadores, que devem ser quitados. Em relação ao aluguel da Panela de Pressão, precisa haver sim uma negociação firme com os envolvidos, porém, sabendo de que não há muitos interessados no local, fora os atuais ocupantes (prefeitura, basquete e vôlei).


Existe uma grande torcida para que a nova gestão do Norusca encontre soluções para a crise, interrompa de vez uma história de decisões equivocadas e irresponsáveis que não resolviam os problemas, apenas os jogavam de um lado ao outro. Administrar significa cuidar, tomar as melhores decisões possíveis, sem que a corda da ética e do bom senso seja esticada ao limite a todo tempo, como um ioiô.