Deste domingo (18) até o próximo domingo (25), celebra-se a Semana Nacional de Trânsito e o crescimento da frota se coloca como um dos maiores desafios de Bauru. Em dez anos, o número de veículos na cidade quase dobrou e, inevitavelmente, a mobilidade urbana bauruense se tornou lenta, carregada e, por vezes, irritante.
De acordo com dados do Detran-SP, em julho de 2006, a quantidade de veículos licenciados em Bauru era pouco mais de 147 mil. Os carros representavam 97 mil e havia 28 mil motocicletas. Em julho de 2016, o total de veículos já ultrapassava os 270 mil, lembrando que a cidade tem 369 mil habitantes. O número de carros cresceu 70%, chegando a 169 mil, enquanto as motos quase dobraram, pulando para 56 mil. Já outros veículos leves, como caminhonetes, utilitários e micro-ônibus, passaram de 12 mil para 29 mil.
Vale destacar que estes números referem-se apenas a Bauru. Milhares de pessoas da região também vêm todos os dias à cidade para trabalhar, estudar e fazer compras. E o resultado pode ser observado diariamente. Ruas e avenidas que, antes tinham movimento normal, hoje apresentam lentidão, sobretudo nos horários de pico (começo da manhã e fim da tarde). Qualquer interdição é suficiente também para gerar transtornos.
O número de condutores também cresceu. Em 2012, eram 189.701, sendo 113.398 homens e 76.303 mulheres. Em agosto de 2016, o total era de 219.793, sendo 128.129 homens e 91.664 mulheres.
Eixos
Diretor de Trânsito e Transporte da Emdurb, Ewerton Hunzicker cita que o eixo leste-oeste é o mais carregado. Isso envolve principalmente as avenidas Duque de Caxias (uma das campeões em lentidão no ‘rush’), Rodrigues Alves, Pedro de Toledo e Nuno de Assis, e ainda ruas que surgem como alternativas, casos da Joaquim da Silva Martha, Cussy Júnior e Quinze de Novembro. “Esse eixo é o que apresenta o maior fluxo de pessoas porque dois Distritos Industriais estão na parte leste da cidade, e isso implica em um deslocamento grande nestes sentidos”.
A percepção é de que a zona oeste (regiões da Vila Falcão e Independência) possui um trânsito mais complicado do que o lado oposto (Geisel e Redentor). “Na zona leste, há espaço para a construção de vias alternativas, como foi o caso da avenida Água Comprida (atual av. Jorge Zaiden), e as avenidas Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul chegam até vários bairros.
Na parte oeste, são bairros mais antigos, que tem pouco espaço para a abertura de avenidas. Isso pode ser observado, por exemplo, na Vila Falcão, onde há trânsito intenso nas ruas Nilo Peçanha, Wenceslau Brás e Campos Salles, e na Independência, com a Castelo Branco sobrecarregada, além da Bernardino de Campos. A rua Salvador Filardi, na Vila Industrial, também tem fluxo intenso. Isso porque são rotas quase obrigatórias para se chegar a diversos bairros, como Nova Esperança e Vila Dutra”, detalha.
É também na entrada da zona oeste que está o maior gargalo do trânsito bauruense: a Praça Primaz Chujiro Otake, mais conhecida como “rotatória do relógio de sol”. Porém, a Emdurb ressalta que somente com intervenções será possível minimizar o problema. A principal opção seria aumentar o tamanho da rotatória, o que permitira escoamento mais ágil dos veículos. A saturação da rotatória levou muitos condutores a usar a avenida Comendador Martha, mas a via também já começa a apresentar problemas nos horários de pico.
| Samantha Ciuffa |
| João Felipe Lança e Ewerton Mussi Hunzicker, ambos da Emdurb |
Desafogo
Já o eixo norte-sul tem como via principal a Nações Unidas, que também apresenta lentidão em horários de pico, sobretudo na região central e perto da Praça da Paz. Também são vias importantes no sentido sul-norte as ruas Treze de Maio e Araújo Leite, as que apresentam trânsito mais carregado na região central. “Essas duas ruas são ligação direta dos Altos da Cidade com o Jardim Bela Vista e são rotas do transporte coletivo também”, ressalta o gerente de Transporte Coletivo da Emdurb, João Felipe Lança.
“Na zona norte, também houve espaço para a abertura de novas vias, como a Moussa Tobias e a Nações Norte, e a construção das marginais da Bauru-Iacanga. Isso amenizou a demanda. Já na zona sul, foi construída a avenida Mário Mattosinho, que liga o final da Getúlio Vargas à Rondon, mas o acesso da Getúlio à região dos condomínios ainda precisa de duplicação”, afirma Hunzicker.
Bauruenses mudam hábitos e rotas
Para fugir dos pontos de lentidão, condutores fazem caminhos alternativos, optam pelos arriscados veículos de duas rodas e evitam partes da cidade
Para escapar dos “gargalos”, os bauruenses apostam cada vez mais em rotas alternativas e atalhos. Alguns mudam até seus hábitos. Evitar as principais avenidas em horários de pico tem sido a estratégia de muita gente. O vigia Adílson José de Oliveira, de 37 anos, e a gerente de loja Franciane Quessada, de 35 anos, passaram a usar a moto diariamente. Eles moram no Núcleo Isaura Pitta Garmes (Bauru I) e se deslocam principalmente na região do Núcleo Mary Dota.
Quando precisam ir a outras partes da cidade, usam a avenida José Vitório Dota, que interliga o Nobuji Nagasawa (Bauru 2.000) ao Jd. Flórida. A rota é a alternativa à Nuno de Assis, que apresenta lentidão no trevo com a Rondon – trecho que pode ter algumas melhorias durante a construção das marginais da rodovia.
“A gente sempre faz esse caminho, porque a avenida nova ajuda a cortar um bom trecho. Mas, mesmo ali, que é um lugar novo, talvez já vá precisar de semáforo na hora em que chega ao Jardim Flórida. De manhã, tem bastante movimento”, aponta Oliveira. Hoje, são quase 200 semáforos em Bauru, o dobro do que havia em 2009, segundo a Emdurb – outro reflexo do “boom” da frota local.
Franciane, por sua vez, sofreu um acidente de moto no Mary Dota há poucos dias, machucando a mão. “Tem muito carro e muita moto na cidade, e não existe um respeito. Então, é complicado”.
Ligações
Novas interligações entre bairros podem ajudar a desafogar o tráfego de algumas vias atualmente sobrecarregadas. Passagens diretas do Núcleo Gasparini ao Pousada da Esperança, ou do Jardim América ao Parque das Nações, por exemplo, são cobradas há anos pela população. “Mas é bom ressaltar que essas intervenções podem ajudar, mas também podem ficar saturadas em pouco tempo, porque muitas pessoas passam a usar essas vias como alternativa”, diz Ewerton Hunzicker, diretor de Trânsito e Transportes da Emdurb.
“Existem estudos que apontam que quanto mais se constrói dispositivos viários, mais as pessoas são incentivadas a usar o transporte individual. Então, construir novos acessos nem sempre vai resolver de fato o problema”, pondera João Felipe Lança, gerente de Transporte Coletivo da empresa municipal.
Hoje, uma das saídas para a construção de vias são as contrapartidas que a prefeitura exige de novos empreendimentos residenciais ou empresariais. Entre os exemplos mais recentes, estão a continuação da avenida Adinan Shahateet, que permite ao acesso do final da Comendador Martha com a Castelo Branco, e a avenida Jorge Zaiden (Água Comprida), que criou novo acesso ao Jd. Marambá, Camélias e Núcleo Geisel. A continuidade desta via, chegando até a confluência da rua Padre Francisco Van der Mass (no acesso ao Jardim Nicéia) também está prevista nos mesmos moldes.
Na zona sul, as contrapartidas podem permitir a duplicação completa da avenida Affonso José Aiello (ligação da Getúlio aos Villaggios) e o contorno do Aeroclube, saindo das avenida Odilon Braga (altura da Polícia Federal) até próximo ao Bauru Shopping.
Centro
O principal alvo de reclamações dos motoristas ainda é o Centro. Muitas relatam que é difícil arrumar vaga de estacionamento e que o tráfego é lento. “Eu evito passar no fim da tarde no Centro, porque é bem complicado”, afirma o técnico em refrigeração Edson Malta, de 66 anos.
Outro motorista descontente é Ariovaldo dos Santos, de 70 anos. “O mais complicado mesmo é vaga para estacionar, e sempre tem bastante movimento”, relata. O estudante Lucas Frasson, 20 anos, também ressalta a mesma dificuldade. “Não é fácil de achar vaga no Centro, acabo parando em estacionamento particular. Eu muitas vezes uso o transporte coletivo e, quando estou de carro, procuro não passar no Centro no começo da manhã e fim da tarde”, lembra.
O viaduto Falcão-Bela Vista, inaugurado em agosto de 2015 (agora com o nome do ex-prefeito Nicola Avallone Jr.), sempre foi apontado como uma solução ao trânsito central. O efeito prático, mais de um ano após a inauguração, ainda é tímido. “É uma obra que ajudou, com certeza, mas é difícil dizer que houve grande redução no Centro. Para quem está na Falcão ou Independência, o tempo economizado para chegar na Nuno é significativo, mas muitas pessoas ainda precisam passar pelo Centro”, diz Hunzicker.
O elevado opera em apenas um sentido, da Vila Falcão para a Nuno de Assis. O sentido oposto depende de uma ponte sobre o Rio Bauru, nas proximidades do Viaduto JK. “Ajudaria quem vem no sentido Falcão, mas continuaria a ter um gargalo na Praça Espanha, porque o fluxo cairia ali”, completa o diretor da Emdurb.
Transporte coletivo: questão cultural
Melhorias no transporte coletivo não levam a um maior uso imediato do sistema público de mobilidade urbana. Contudo, como assume o próprio gerente de Transporte Coletivo da Emdurb, João Felipe Lança, isso não exime as cidades de garantir um bom sistema de circulares aos cidadãos.
“A questão do transporte individual é cultural. Nos últimos anos, houve uma facilidade grande para se adquirir carro ou moto, e é difícil que a pessoa deixe seu veículo em casa para andar de ônibus. Isso demanda uma mudança a longo prazo. Em cidades como Curitiba, mesmo com o grande número de veículos, o trânsito não é tão ruim, porque também há a opção do transporte coletivo, o que já não se observa em São Paulo, por exemplo”, destaca.