09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O mundo visto pelos jovens de ontem e de hoje

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Prof.º Doutor aposentado do Departame
| Tempo de leitura: 3 min

Quando jovem, lá pelos anos 1960, lembro-me muito bem dos filmes de bang-bang que assistia nas matinês de domingo à tarde, onde no final o mocinho sempre ganhava e o bandido sempre se ferrava. E, para realçar as diferenças entre o bem e o mal, também colocavam nas fitas uns mocinhos bonitões com corpos esculturais, enquanto os bandidos eram sempre horríveis e desengonçados. Este incentivo, para molecada da época, deu certo, pois todos nas brincadeiras queriam ser o mocinho, ainda mais que no filme ele acabava também ficando com a mocinha, que era sempre bonita. Parece que a “liberdade de expressão” daquele tempo era consensual, pois isto acontecia sistematicamente nos filmes, e tinha um objetivo claro para a sociedade, tentando passar a ideia de que o crime não compensa. Esta indução aos jovens aparentemente funcionou bem, pois tudo casava com o que acontecia na vida real, uma vez que se poderia passear tranquilo a noite por toda cidade sem a preocupação de ser assaltado. E, para reforçar isto, notícias de outros crimes eram também muito raras.


Hoje está tudo muito diferente. Temos uma multiplicidade de “liberdade de expressão”onde na arte representada pelos filmes e novelas, o mocinho ainda é o principal, mas já faz algum tempo que alguns bandidos têm se saído bem. Tem também aparecido uns bandidos bonitões e bons de bico, outros que ficam ricos apenas com o fruto do seu trabalho de bandidagem, e alguns espertos que se safam das prisões com facilidade. E tem também os bandidos que acabam ficando com a mocinha, mas, agora, a engravida e caem fora. Tudo isto está muito parecido com nosso mundo atual e, por incrível que pareça, a correlação que existia antes entre a arte e a vida, é semelhante com a que existe agora. Caberia então a pergunta: entre a “arte” e a “vida” quem estaria imitando quem?


Não vamos ser ingênuos ao ponto de achar que antigamente era tudo perfeito, que não tinha malandragem e os filmes eram um retrato fiel da vida. Longe disso! O que assusta é compararmos a parte visível dos dois mundos, e o de hoje é de longe muito mais assustador. Principalmente no nosso mundo! Hoje temos bandidos de todos os tipos e gostos: feios e bonitos, inteligentes e desastrados... mas, certamente, os campeões da esperteza são os políticos. Para identificar os supercampeões é fácil: ou são aqueles que mentem pra caramba ou aqueles que nunca sabem de nada ou aqueles que fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Com todo este pacote diversificado entre a arte e a vida, certamente nossos jovens devem estar muito confusos, sem saber direito que rumo tomar na vida. Não deve estar nada fácil criar filhos atualmente!


Apesar de toda esta confusão, sou plenamente favorável a liberdade de expressão, tanto na vida real como nos filmes e nas novelas, bem como na rua ou dentro de casa. Só não incluo as grosserias como liberdade de expressão. O fato de existir opiniões diferentes gerando esta multiplicidade de visões de mundo e, muitas vezes, até estimulando a vida imitar a arte, acho que é um preço a pagar para termos esta liberdade. Pior seria se não fosse assim. Entretanto, tal como a liberdade de expressão, sou também totalmente favorável que nossa polícia e o ministério público cumpra seu papel na vida real e atue devidamente na bandidagem, aplicando de forma implacável a justiça. Assim acontecendo, se espera que os mocinhos voltem a vencer e os bandidos a perder, e nossos jovens de hoje passarem a ter um bom exemplo a seguir.