| Renan Casal |
| Grupo reúne todas as segundas, na praça Machado de Mello; à direreita Miguel Axcar, um dos criadores |
São quase oito e meia da noite de uma segunda-feira de inverno, mas parecendo verão, e as últimas das 350 marmitas de isopor com sopas quentinhas vão sendo servidas para os moradores de rua que habitualmente usam as marquises do que foi a Estação Ferroviária de Bauru, para dormir. Agora os moradores já sabem: toda segunda-feira podem se achegar à praça em frente e não vão dormir de barriga vazia. E não se trata de um caldo ralo, não. A comida é bem substanciosa e feita com o maior carinho por mãos de voluntários, como a aposentada Marli Mattar, que também ajuda a servir.
As noites das segundas-feiras, como a de hoje, inclusive (se você quiser ajudar ainda dá tempo), a partir das 19h, são bastante especiais para os moradores de rua, frequentadores da Praça Machado de Mello. Todos já vão se habituando à rotina das sopas, caldinhos e marmitas e sabem que ali não estão à mercê da caridade alheia através de pedidos de esmolas. “O rango é certo, porque tem dia que a gente tem o que comer, tem dia que não”, fala alegre o sem-teto, como se define, Walter Beraldo ao receber a sopa.
Um braço
Ao lado dele, ouve a conversa com expressão agradecida Miguel Axcar, um dos fundadores do projeto Fruto Urbano, que se apressa em contar que o encontro das segundas-feiras é só um braço do que fazem. “O Fruto Urbano, começou com a ideia de tornar várias áreas da cidade mais arborizadas”. Daí para a solidariedade em todos os níveis foi só um passo. “Segunda-feira é dia de ação solidária do Fruto Urbano Bauru para moradores de rua. Nossa ideia é ir aumentando os dias para, no futuro, conseguirmos atender a semana toda”.
A ideia funciona de maneira simples: “montamos uma tenda ou mesa na praça para concentrar o atendimento. E só fazemos o meio de campo, trazendo uma boa panela para servir em descartáveis e aos poucos as pessoas foram chegando e está cada vez maior. Cada um traz o que tem para doar”. Além de fornecer marmitas, muitas pessoas têm levado panelas grandes com caldos variados. E mais: aproveitamos para distribuir roupas, agasalhos e cobertores doados na hora pelas pessoas a quem por lá estiver”.
O principal meio de divulgação é a chamada mídia espontânea. Um avisa o outro que fala para mais alguém e a iniciativa cresce. Tanto que, espontaneamente, no momento em que estávamos registrando a distribuição dos caldos, membros da família de um empresário dono de sorveteria vieram saber como distribuir um carrinho de picolés. Ficou agendado, óbvio, para a semana do Dia das Crianças.
Mãos na terra
| Divulgação |
| Plantio na avenida Carvalho Pinto, em Agudos, onde já existe um núcleo de voluntários |
Usando as próprias mãos, os irmãos Khalil e Miguel Axcar juntaram as primeiras mudas e ferramentas e, levando-as no porta-malas de seus carros, puseram as mãos na terra. Assim surgiu o Fruto Urbano. “O nome Fruto Urbano tem exata relação com seu propósito: fazer o meio urbano dar frutos, em seu sentido literal”, explica Miguel.
Até hoje (o começo foi em 2014) já foram mais de cinco mil árvores plantadas. Em junho, por exemplo, 150 foram plantadas em área verde em frente ao estádio Edmundo Coube. Os benefícios do plantio são grandes: redução do calor através das sombras das folhagens, oferta de frutas regionais às comunidades e a colaboração para o desenvolvimento de um meio ambiente que favoreça o crescimento do número de aves em meio à cidade.
Além disso, o intuito dos fundadores é expandir essa ideia pelo Brasil todo. “Vivemos em uma sociedade que gera riqueza para poucos, miséria para muitos e degradação ambiental para todos, mas dá para mudar isso”, finaliza. “Temos um longo trabalho pela frente, um país inteiro para reflorestar e milhares de cidades para arborizar, mas o importante é que já começamos”. De fato, além de Bauru, já têm núcleos formados em Piratininga, Agudos e Duartina.
Do que o projeto precisa?
Para colaborar: além da doação é preciso que em cada comunidade, onde o plantio já foi feito, haja alguém que cuide delas, regando de vez em quando