09 de julho de 2026
Articulistas

A primavera na literatura

Sérgio Mauro
| Tempo de leitura: 4 min

Mais uma vez, a primavera está às portas. Mas que sentido há em se falar de primavera em terras tropicais? Excetuando-se algumas regiões montanhosas do Sul, não há a rigor uma estação fria, um inverno que dure pelo menos três meses, com frio constante. Em boa parte do país, o frio é uma raridade; em outras, como aqui no Sudeste, precisamos esperar a chegada de uma esporádica frente fria. Para nós, portanto, a primavera está associada a conceitos importados da Europa, assim como a neve sobre os pinheirinhos ou o pesado casaco vermelho do Papai Noel que embalam os sonhos das nossas crianças (e de muitos adultos).


Na literatura, o narrador-protagonista Conselheiro Aires, do romance Memorial de Aires, de Machado de Assis, assim se refere à estação das flores: “Acaba hoje o mês. Maio é também cantado na nossa poesia como o mês das flores, - e aliás, todo o ano se pode dizer delas. A mim custou-me bastante aceitar aquelas passagens de estação que achei em terras alheias.” (Memorial de Aires. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, p.75). Devido às características tropicais do clima, maio, plena primavera no Hemisfério Norte, passa a ser representado também na nossa literatura como um “mês das flores”.


De certa maneira, portanto, os poetas brasileiros (ou de países tropicais em geral) não precisam aguardar setembro para escreverem versos saudando o despertar da natureza, com as suas flores e os pássaros a cantar. Há pássaros e flores até mesmo em maio (ou até em julho), meses pertencentes ao outono-inverno do Hemisfério Sul.


Assim o repertório imagético acaba ficando condicionado pelos elementos naturais ou pelas diferentes concepções cosmogônicas que perpassaram pela literatura, europeia ou não. No Proêmio da Divina Comédia, por exemplo, o protagonista que está para iniciar uma imprevista viagem pelo mundo infernal experimenta uma sensação de ilusória esperança diante do primeiro obstáculo que se lhe apresenta (a onça), por se encontrar no período matutino do dia e, sobretudo, por ser abril, isto é, inicio da primavera na Europa.

Logo depois, porém, nem a “doce estação” lhe servirá como consolo diante dos últimos e definitivos obstáculos (o leão e a loba), tornando-se necessária a intervenção de Virgílio, seu mestre e seu guia pelos círculos infernais e por boa parte do Purgatório. Para T.S. Eliot, porém, o mesmo mês de abril, em The Waste Land (A terra desolada) é descrito como “o mais cruel dos meses”.

Em que pesem as implicações alegóricas da alusão do poeta norte-americano ao mês de abril, não custa lembrar que o início da primavera é bastante chuvoso de modo geral nos países de clima temperado do Hemisfério Norte (daí a “crueldade” do mês). O mesmo mês reveste-se de significados diferentes para dois poetas que, apesar da distância de seis séculos que os separa, são frequentemente relacionados, pois T.S. Eliot foi um grande apreciador da obra de Dante e escreveu ensaios fundamentais sobre a Divina Comédia.


Quanto à visão do cosmo, basta lembrar que é importante ter em mente a visão cosmogônica medieval para se compreender a estrutura da própria obra-prima do grande poeta florentino, ou que é preciso levar em consideração as profundas transformações proporcionadas pelas descobertas de Copérnico e Galileu na forma de representação do universo em toda a poesia barroca europeia. A título de exemplo, basta observar que Giambattista Marino, o maior poeta barroco italiano, descreve o universo em Adônis, sua obra-prima poética, estritamente a partir das descobertas científicas de Galileu.


Tanto na poesia culta como nos versos ou canções populares, a referência à primavera ou a outros elementos ligados à passagem das estações torna-se complicada em terras tropicais, tornando-se um conceito abstrato. Quando o poeta pede que a amada o aqueça em pleno inverno no Rio de Janeiro, por exemplo, ou na Bahia, está, na verdade, usando uma imagem distante de qualquer observação empírica, isto é, uma mera abstração ou uma representação que bebe diretamente em fontes da poesia europeia, bem distante da nossa realidade. Temos uma vantagem, porém, com relação aos europeus: a flor que brota do duro asfalto da famosa poesia de Drummond - “A flor e a náusea” - não precisa esperar a primavera, podendo desabrochar até em maio, em pleno outono, como bem lembrou o Conselheiro Aires!


O autor é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.