09 de julho de 2026
Articulistas

Olhar para o outro lado

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O produto de um incrível cruzamento de elefante e cavalo chama-se bom senso. O dicionário Webster, desde o século 18, conceitua bom senso, ou senso comum (commonsense) como alguma coisa “livre de qualquer viés emocional ou de sutileza intelectual (...) senso de cavalo” (horse sense). Estou repetindo ensinamentos das Lições de Literatura, deixadas pelo escritor Vladimir Nabocov. Antes de tornar-se famoso com “Lolita”, que virou filme premiado de Hollywood, ele lecionou nas Universidades de Cornell e Stanford. Procurava demonstrar que quem escreve para o público tem que se despir das convenções e, principalmente, da autocensura, uma praga.  O bom senso é em essência imoral porque os princípios morais básicos da humanidade são irracionais. No que tem de pior, o bom senso é o senso tornado vulgar, barateando confortavelmente tudo o que ele toca.

Nabocov desconstrói o conceito do escritor bem-comportado durante os 50 minutos dessa aula, até com certo lirismo: “O bom senso é quadrado, enquanto toda as mais essenciais visões e valores da vida são lindamente redondos, tão redondos como o universo ou os olhos de uma criança em sua primeira visita a um circo”. E adverte para certos momentos de cegueira que acometem por vezes os maiores autores, provocados por “gordos e verrugosos diabretes”, que teimam em rastejar pelas pernas da escrivaninha de quem escreve. Hoje chamaríamos de “politicamente correto” a essas convenções. Proust não seria o gênio inovador da literatura se não tivesse a ideia de um romance derivado de sensações tão reais como a dissolução de um biscoito amanteigado (madeleine) na boca, ou do desnível de uma laje onde se pisa. Vários editores rejeitaram sua obra, por contrariar o cruel monstro do bom senso. O que não é convencional, com as receitas arquetípicas como o amor, o ódio, a intriga e a exploração dos baixos instintos humanos, não agrada ao grande público. Nunca vai vender. A fórmula junguiana é a das novelas da tevê.

Tudo o que se escreve pode servir de antídoto para um mal que contamina o nosso mundo: a rigidez. Ideias sólidas demais tendem à insensibilidade e à indiferença, tendem ao esvaziamento e à repetição. Tendem ao terror. É o mundo técnico, de números, de planilhas, balancetes e manuais, mundo fascinado pela exatidão e pela perfeição. Nosso mundo perde o gosto pelo relativo que, afinal, é não só o que tempera a existência, mas também o que a torna possível. Perde em sutilezas. A relatividade acentua os contrastes e confere gosto à vida. Ela é o sal do mundo.

Lembro Rubem Braga (1958), “o sabiá da crônica”, criticado pela reflexão sutil a respeito do relativo em nossa existência. Ele observa do alto da sua cobertura em Copacabana, o gavião que ameaça uma pomba. Braga logo toma partido da pequena ave. Pouco depois, porém, ele se detém para uma análise mais minuciosa, que o conduz a uma conduta paradoxal: toma partido do gavião. “Admiro a inocência túrgida das pombas e também o lance magnífico em que o gavião despenca sobre uma delas. Comer pomba é, como diria Saint-Éxupery, a verdade do gavião, mas matar um gavião no ar com um belo tiro pode também ser a verdade do caçador”. Braga prefere a sabedoria de acolher o que não suporta, o que não é seu. Prefere acatar a diferença, que, hoje, para os ambientalistas pode ser uma interferência indevida na cadeia alimentar.  Hemingway perpassa a sua obra com a tragédia e glória do toureiro e a verdade do touro. Repassa a estética e a ética do caçador diante do leão, à distância de um salto, que dá a chance da presa tornar-se algoz se o tiro não a atingir no coração. Aos apressados, pode parecer que o escritor defende a violência gratuita, como a mais odiosa violência dos homens contra os animais. Quem escreve não tem o dom mágico de resolver questões que há muito afligem a sociedade. Mas pode ajudar a iluminar o que não suportamos ver. Ver a diferença já é celebrá-la. Serve para suavizar o mundo e desprezar as bocas com dentes arreganhados que por aí proliferam. Trata-se de uma questão de liberdade interior do autor. Sem a mente livre para acatar, mas também para renegar, ninguém se aproxima verdadeiramente da verdade. Esta é a única exigência: estar sempre pronto para olhar para o outro lado.


O autor é jornalista e articulista do JC