10 de julho de 2026
Bairros

Crise faz crescer 'vendas de garagem'

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Samantha Ciuffa
Rita Medeiros vende tapetes de crochê no ateliê-garagem da residência dela, no Núcleo Beija-Flor
Já há algum tempo, Dona Rita Medeiros resolveu aproveitar um dom que traz consigo há mais de 20 anos para aumentar a renda de casa. E foi na varanda que ela encontrou o melhor lugar para expor ao público os seus tapetes de crochê. É na área da frente de uma simpática casa da quadra 4 da rua Délio Hermes de Oliveira Coragem, no Núcleo Beija-Flor, que fica o "ateliê-garagem" da crocheteira. 

O comércio caseiro de dona Rita existe nesses moldes há cerca de 10 anos, porém, é cada vez mais visível o aumento do uso da própria casa como local de trabalho pelos quatro cantos da cidade. O JC nos Bairros encontrou gente que começou a vender ou atender na residência depois que perdeu o emprego ou viu o orçamento familiar ficar mais apertando, principalmente nos últimos tempos com a atual crise econômica brasileira (Confira nas próximas páginas).

Por todo o País, há cerca de 10 milhões de trabalhadores informais, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua compilados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e divulgados no mês de agosto. 

Queda

E dona Rita tem sentido a "falta" de dinheiro do mercado nos tapetes que já não têm tanta saída como antes. "Eu cheguei a vender de 20 a 30 tapetes por mês. Agora, tem semana que não vendo nenhum. Estou até diversificando e fazendo sabão com óleo de cozinha usado para vender", comenta. 

Aceituno Jr.
"A crise atual está afetando o mercado de trabalho; as pessoas precisam manter seu orçamento em ordem, sendo assim, realizam o que podem para ter e manter sua renda", acredita a economista Salete Lara  

Para economista, trabalho informal tem dois lados

 

"Sem dúvida alguma, a crise atual está afetando o mercado de trabalho e as formas de ter uma renda mensal. As pessoas precisam manter seu orçamento em ordem, pagar contas que não podem ser deixadas de lado (água, luz, telefone, escola, aluguel...). Sendo assim, realizam o que podem para ter e manter sua renda".

A afirmação acima é da economista e coordenadora do curso de ciências econômicas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Salete Lara, que aponta que, como quase tudo na vida, encontrar no trabalho informal uma fonte de renda pode representar uma saída de dois lados.

Positivamente, o trabalho informal é alternativa contra o desemprego ou mesmo para aumentar a renda pessoal e/ou familiar com a oportunidade de manter o consumo de produtos e serviços que seriam excluídos, como idas ao cinema, uma saída com os amigos e até mesmo cuidados pessoais, como salão de beleza.

Entretanto, acrescenta Salete, a informalidade leva a crer que os trabalhadores que atuam nessas condições estejam às margens dos direitos trabalhistas que os trabalhadores formais possuem.

"Ainda há diminuição na arrecadação de impostos, dificultando o orçamento público e seu repasse em programas sociais, saúde pública, escolas, segurança... A mesma realidade pode levar à ações criminais (exemplo é a pirataria). Também não há contribuição previdenciária e, portanto, as aposentadorias futuras ficam ameaçadas pela falta de orçamento previdenciário. Estes são apenas alguns itens, há muito mais para ser discutido", enumera a economista.

Quando o 'bico' vira a principal fonte de renda

Não é difícil encontrar exemplos de pessoas que se adaptem tão bem à atividade "tapa-buraco" e que façam dela a sua nova profissão. Nesses casos, o conselho da economista é a formalização.

"O ideal é a pessoa formalizar sua situação tornando-se Microempreendedor Individual (MEI) e garantindo, assim, os seus direitos trabalhistas e previdenciários", comenta.

Para se tornar MEI é necessário uma renda mensal média de até R$3 mil. Não há taxas de abertura de empresa e os tributos a serem pagos são atrativos ao trabalhador informal, de acordo com Salete, já que possibilitam o crédito bancário para ampliação dos negócios, oferecem direito à aposentadoria, auxílio doença, salário maternidade, pensão por morte, entre outros benefícios.

Para aumentar a renda, moradores se viram como podem

Venda de frutas e verduras, serviços de marcenaria, vidraçaria, bolos, doces e móveis usados são apenas algumas das saídas encontradas

Samantha Ciuffa
É na residência localizada no Nobuji Nagasawa que a doceira Regina Célia Simione Borges fabrica os doces que vende na Batista de Carvalho; renda supera a do trabalho com carteira que perdeu há 4 anos
A doceira Regina Célia Simione Borges começou a sua pequena fabricação de doces caseiros há quatro anos, quando ficou desempregada. Com o passar do tempo, os clientes aumentaram, ela se aperfeiçoou e hoje também faz bolos e festas completas de aniversário.

 

Regina, que trabalhou 18 anos no comércio, comenta que a renda conseguida com os doces atualmente são, no mínimo, o dobro do salário que ganhava como vendedora. Este é um dos motivos pelos quais ela não procura outro emprego na área (comércio).

 

"É claro que eu sei dos benefícios de se ter uma carteira assinada, mas há outras formas de garantir essas coisas. Trabalhando em casa, eu consigo fazer o meu horário, o que me permite cuidar das minhas duas filhas pequenas", acrescenta.

 

Calçadão

 

A doceira vende cerca de 50 doces, duas vezes por semana. E é exatamente no comércio central, mais precisamente no Calçadão da Batista (onde Regina trabalhou), que a moradora da quadra 1 da rua Admar Leopoldo Ghelardi, no Núcleo Habitacional Nobuji Nagasawa (Bauru 2000), encontra a maior parte da sua clientela. 

 

"Como eu trabalhei durante muitos anos no comércio, fiz bastante amizade. Então, tive a ideia de vender meus doces lá. E, graças a Deus, deu certo", finaliza.

 

De móveis usados a produtos de limpeza 

 

Samantha Ciuffa
Cícero da Silva Santos, morador da quadra 30 da avenida Rodrigues Alves vende móveis usados para aumentar a renda da família 
Cícero da Silva Santos mora na movimentada quadra 30 da avenida Rodrigues Alves. Movimento aproveitado por ele para vender móveis usados e produtos de limpeza que ele mesmo faz. Cícero abre os portões da entrada da casa para expor. E quem passa por ali, mesmo na correria, pode ver o que ele tem para vender no dia.

"Sou deficiente visual e acho difícil encontrar emprego. Antes de trabalhar em casa, eu estava vendendo picolés na rua, mas vivia caindo e me machucando. Dessa forma é melhor", comenta.

O morador da Vila Monlevade compra os móveis usados para revender. Segundo ele, os que mais têm procura são geladeiras, sofás, fogões e camas. Porém, ele lembra que não há uma média de produtos vendidos.

"Vendo bem em alguns meses e pouquíssimo em outros, depende muito. Por isso também estou fazendo produtos de limpeza, para diversificar as vendas e aumentar a renda", diz.

'Voltei a trabalhar para comprar remédios'

Samantha Ciuffa
No Parque Boa Vista, 'seo' Giné Gonçales, 80 anos, vende frutas e verduras na calçada para aumentar a renda e conseguir comprar remédios; ele aparece com a mascote Nina no colo e o amigo José Matragrano ao lado 
Cada morador que procura algo para vender em casa tem o seu objetivo particular. Alguns o fazem por causa do desemprego. Outros porque a renda mensal individual ou da família não estão sendo suficientes para pagar as contas... E por aí vai. 

No cruzamento das ruas Francisco Alves e Alto Acre, no Parque Boa Vista, "seo" Giné Gonçales vende frutas e verduras sob a sombra de uma frondosa árvore para fazer um dinheirinho extra para os remédios. Aposentado, ele conta que o salário já não é suficiente para a conta da farmácia. 

"Eu comecei a trabalhar assim em novembro porque os preços dos remédios que eu tomo aumentaram muito e minha aposentadoria é pequena. E trabalhar é sempre bom, se bem que já trabalhei muito nessa vida. Fui caminhoneiro durante 48 anos", recorda. 

Redução

Mas vender não está sendo nada fácil. Até mesmo a banca improvisado do aposentado tem sentido uma diminuição no número de clientes. Ele lembra que as pessoas já compraram mais. "Hoje os fregueses passam, olham e, quando levam, é pouco. Eu vendo para outra pessoa, que me paga por dia, mas eu preciso vender para ganhar", comenta.

'Já tive loja, mas o aluguel estava pesando no orçamento'

Vidraceiro conta que precisou fechar a loja para atender na varanda de casa; mas espera voltar a ter um lugar próprio para o serviço

 

 Samantha Ciuffa
José Roberto França, do Parque Roosevelt, precisou fechar a vidraçaria que tinha no Altos da Cidade e agora faz alguns serviços em casa
José Roberto França é vidraceiro há muitos anos. Morador do Parque Roosevelt, ele tinha uma loja montada no Altos da Cidade e, desde 2014, passou a notar uma diminuição considerável nos pedidos de serviço.

 

"O povo parou de ter dinheiro e só está fazendo mesmo o necessário. Eu pagava aluguel da loja e também pago da casa, então começou a ficar muito pesado. O caminho foi ficar só com o aluguel da casa e continuar atendendo aqueles clientes mais antigos, que sempre me procuram", afirma.

 

Morador da quadra 3 da rua Benedito José Teixeira, José Roberto diz ainda viver e sustentar a família com o ofício de vidraceiro e tem vontade e esperança de voltar a ter a sua loja. Do estabelecimento sobraram parte do serviço, a grande experiência do vidraceiro e as camisetas personalizadas que ele faz questão de usar mesmo em casa. 

 

"Eu vejo onde moro e em outros bairros que os serviços de garagem só estão aumentando. É aquela coisa, cada um faz o que pode gente faz o que pode".

 

Tudo começou com o desemprego

 

Samantha Ciuffa
Sócios, Fabiano Galli e Leandro Cortez usam a garagem de casa, no Santa Edwiges, para parte do trabalho da marcenaria da dupla 
Os sócios Leandro Cortez e Fabiano Galli têm uma marcenaria na Vila Dutra há um ano, porém, estão de mudança para um imóvel com o aluguel mais em conta na Vila São Paulo. Eles atribuem essa necessidade de mudança à crise econômica pela qual o País está passando.

"Estamos notando, por exemplo, que as pessoas estão nos procurando mais para serviços menores. Entretanto, mesmo com essa queda, nós ainda preferimos trabalhar sem carteira assinada. Descobrimos que trabalhar por conta própria é bem melhor, entretanto, é mais arriscado, porque a renda depende do trabalho aparecer", lembra Leandro.

Leandro e Fabiano começaram o trabalho, em meados de 2013, na garagem de Leandro, onde eles ainda realizam parte do trabalho. E tudo começou quando Leandro, que trabalhava como montador de móveis, ficou desempregado. Como ele também já havia trabalhado de auxiliar de marcenaria, fez a sociedade com Fabiano e começaram a empreitada. 

"Começamos com pequenos serviços e a demanda foi aumentando. Agora estamos sentindo uma redução dele (do trabalho), mas estamos confiantes que as coisas vão melhorar", confessa Fabiano. 

Uma garagem solidária

Samantha Ciuffa
João José da Silveira, morador do Jardim Flórida, usa a garagem de casa para construir banquinhos que doa todo mês de outubro para as crianças
Aos 83 anos, 'seo' João José da Silveira também usa a sua garagem para trabalhar, porém, não é para aumentar a renda. 

Há nove anos, ele faz banquinhos de madeira e doa todo mês de outubro para as crianças. No ano passado, ele presentou 110 pequenos com seu caprichado trabalho. Para este ano, no mínimo a mesma quantidade de banquinhos estará pronta e cuidadosamente pintada até o Dia das Crianças. 

"É uma alegria poder dar esses banquinhos para as crianças. Elas vêm do meu bairro e até de outras vilas buscar. Isso me faz muito feliz", grifa. 

O aposentado, que trabalhou a vida toda como pedreiro, também vende algumas peças, mas garante que é somente para comprar o material. "Eu gasto bastante com material e faço outras coisas para vender: algumas prateleiras, bercinhos de boneca..."