| Malavolta Jr. |
| Chico Nicola “no meio da roça” em pleno condomínio nobre; a produção ele divide com os vizinhos |
Imagina chegar na casa de Francisco Juliano Nicolielo, 87 anos, e se deparar com uma piscina “ornamentada”, digamos assim, com alfaces. Em vez de vasos com folhagens típicas tropicais, como é o usual, o que está ali a delimitar suas bordas são alfaces que crescem com uma exuberância que nem mesmo as fotos conseguem traduzir. A imagem vista esta semana é única. Os vasos do alface (sim, o correto é o alface) com o verde-claro das folhas contrapondo ao azul da água da piscina é fascinante.
E as jabuticabas, a erva-cidreira, a bardana, a mandioca? Isso sem falar na parreira de uvas. E o canteiro de hortelã? Cada pezinho dessa erva repleta de benefícios, usada como remédio e condimento, tem o triplo do tamanho de um comprado em qualquer supermercado. Sem contar que é 100% orgânico. Nada de agrotóxicos. Quando precisa espantar alguma praga das plantas, seu Francisco, ou simplesmente Chico Nicola, usa a tradicional calda de fumo de corda, orgânica. A plantação está na frente de sua casa em um lote padrão de um condomínio horizontal de moradores de alto poder aquisitivo.
Causa urbana
Quando a prefeitura regulamentar a lei recém-aprovada pela Câmara Municipal de Bauru que vai obrigar prédios e residenciais horizontais a separar o lixo orgânico do reciclável (o texto final vai ser dado pelo poder executivo), os bauruenses podem ir além, diz ele. Não apenas descartar, mas utilizar totalmente os resíduos. Chico Nicola já faz isso há dezenas de anos. Ele parabeniza o autor da lei (o vereador Paulo Eduardo de Souza, do PSB): “Nossa! Fiquei espantado quando li a notícia. Achei bom demais. Quis dar a minha contribuição e mostrar o que eu faço, muita gente não tem noção do quanto isso é importante. Reaproveitamento é fundamental. Eu vi isso na Alemanha. Na França, então, nem se fala, lá a criancinha, aprende a não desperdiçar nenhum alimento, as cascas, as folhas, tudo vira adubo”.
Filho de um fazendeiro de Arealva, nascido em 20 de junho de 1929 numa família de oito irmãos, “criado bebendo água limpinha e cristalina de poço artesiano”, Chico Nicola é autodidata. “Estudei até o quarto ano primário, aprendi tudo na vida observando os outros fazerem e lendo muito”, o que o credenciou a ser escritor. “Vida Longa” já tem dois volumes. Neles, o autor fala especificamente da fitoterapia e dá as receitas que aprendeu a fazer usando ervas e com os índios quando morou no Mato Grosso, ainda jovem viveu no sertão, na região do chamado Marco 247. Na época, Chico sempre pedia a Deus uma terrinha para “plantar meus remédios”. E a casa onde mora e que apropriadamente chama de “ranchinho feliz” está localizada no número 2-47.
Flexibilidade
“Não podemos condenar o laboratório (de remédios), tudo é mais prático, mas não devemos esquecer a ‘flora mãe’”, diz com convicção. Ah! E não se pense que Chico Nicola é vegetariano.
Nada disso. Como filho de criador de porcos, adora uma boa culinária e ainda cozinha um arroz com suã (a coluna vertebral do porco) como poucos. Seu Chico dá uma receita para ter bons ossos e articulações flexíveis dignas de um menino.
O segredo? Tutano de boi, um recuperador das articulações e renovador celular. Bem temperada, após cozida pode ser congelada em cubos.
Mudança de vida
Casado com Maria do Carmo Borges Nicolielo, natural de Lençóis Paulista, 75 anos, que divide com ele o gosto pela vida natural e o prazer de ter o tempero, a horta, a fruta na porta da cozinha, Chico Nicola admite que para que as pessoas façam todo o reaproveitamento do material orgânico (na casa deles nada se joga fora) é preciso uma mudança da programação mental, mudança de hábito mesmo.
“É difícil mudar os hábitos, mas não é impossível, e nos dias de hoje, é mais do que necessário, quem vai querer beber água suja? Quanto não se gasta para limpar um rio?”. Por isso, quer passar para a frente o que sabe. Chico Nicola costuma doar aos vizinhos sua produção. E vai ficar bem feliz se todos os que se beneficiam dela aprenderem a usar os resíduos e reciclar o lixo urbano. Ah! Antes que a nova lei seja colocada em prática, fica aqui a dica para os vizinhos: que tal já levarem para ele as sobras orgânicas? Ele vai adorar, com certeza.