08 de julho de 2026
Ciências

Vanguarda: universidade ou mercado?

Ciência no Dia a Dia - Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

E um reitor disse: - a universidade deve servir o mercado! Quase enfartei, mas me mantive sereno na aparência e inquieto na alma. Qualquer mortal apenas diz isto se não conhece a história da universidade e a sua essência.

Essência é algo primariamente necessário e o princípio de inteligibilidade. Essência é o que há de mais fundamental. A essência de João é ser homem e todas suas características decorrem dela, como sorrir, falar, chorar e pensar. Poucas universidades, infelizmente, exercem sua essência e ocupam-se apenas de aspectos teóricos e técnicos.

A universidade foi criada para ensinar os jovens interessados em aprender mais, ter capacidade de análise, ganhar poder crítico e independência no pensar e agir para contribuir com o aperfeiçoamento do pensamento. As primeiras foram: Bolonha (1088), Paris (entre 1150 e 1170), Pádua (1222), Nápoles (1224), Salamanca (1230), Oxford (1249), Cambridge (1284) e Coimbra (1290). A tônica da universidade foi voltada para o saber como um fim em si mesmo, o saber desinteressado.

Para formar seres pensantes, analíticos e críticos se pode usar diferentes processos e o mais comum é ensinar uma profissão. No ensinamento da profissão, o indivíduo e cidadão aprende como analisar, qual critério para julgar e decidir. No final do processo se forma profissionais, mas principalmente seres analíticos pensantes para a sociedade!

Se a universidade apenas der formação "profissional ao cidadão", ela não estará cumprindo o seu papel essencial. Formar profissionais, outras instituições também fazem como o Senai, Senac e muitas outras. Mas formar homens pensantes, críticos e analíticos, apenas a universidade tem este compromisso histórico e social.

TRIPÉ!!!

Já ouvi muitos afirmarem que a universidade serve para cumprir o tripé ensino, pesquisa e extensão de serviços. Ouço respeitosamente, mas fico com muita vergonha! Pelo amor ao saber consciente, parem de falar assim! Ensino, pesquisa e extensão de serviços são também executados por inúmeras outras entidades.

A universidade tem na sua essência formar pensadores, críticos, analíticos e questionadores. O tripé citado serve como ferramentas para formar pessoas com estas características e não como sua essência. A praticidade, as questões financeiras e o poder faz com que muitas pessoas esqueçam a essência. A erudição de qualquer pessoa deveria incluir a história e essência da universidade.

As pessoas formadas voltam para a sociedade e a questiona, propõem soluções, inovam e determinam o progresso da sociedade. Este é o papel da universidade: formar pessoas pensantes, críticas e analíticas. Não há nada mais destituído de qualquer propósito na universidade, do que alguém dizer: ... eu não quero fazer uma crítica, apenas um comentário! Este pensamento é a negação da essência da universidade!

E O MERCADO?

A universidade existe para ensinar a pensar sozinho. Os indivíduos formados devem pensar e criticar com independência e saber transmitir à sociedade este espírito. Esta é a essência da universidade. Na universidade, devem-se discutir os problemas que incomodam e inquietam a sociedade, quer sejam científicos, políticos, sociais e culturais. Está implícito que ao falar de universidade, deve-se necessariamente pensar em polêmica e controvérsia. Sem vários pontos de vista, ela tende a ser totalitária ou morta, sem vida intelectual.

O produto da universidade não deve ser a quantidade de trabalhos publicados, o número de pacientes atendidos e nem mesmo a quantidade de graduandos. A função dela não é servir ao mercado; a vanguarda na sociedade não deve ser o mercado, mas sim a universidade! O produto da universidade deve ser a qualidade de profissionais que formam como cidadãos pensantes, críticos, analíticos e participativos na sociedade.

A universidade representa a vanguarda, o erudito e o que há de mais avançado no pensar e agir. O mercado deve correr atrás da universidade e não o contrário. Se não for assim, tem algo errado e a universidade será apenas mais uma escola, hospital, clínica ou prestador de serviço e nem deveria ser assim chamada de "universidade" em sua essência!

Reflitamos!

OBSERVATÓRIO

Bolonha - Tem 390 mil habitantes e é capital da província, caracterizando-se por uma vida animada, cosmopolita, universitária com história impregnada em seus prédios e ruas. Sua vida é rica em arte, culinária, música e cultura. Localizada no norte da Itália, foi fundada em 510 a.C. e tomada por Napoleão Bonaparte entre 1796-1815. Hoje Bolonha é o centro de uma região metropolitana com 1 milhão de pessoas.

Primeira - A Universidade de Bolonha, fundada em 1088, é reconhecida como a mais antiga do mundo e sua história se confunde com a da ciência e seus personagens principais. Em 1158, o imperador Frederico I promulga a lei orgânica da universidade e lhe dá total autonomia quase como uma cidade-estado independente. Entre seus alunos e professores destacam-se Dante Aligheri, Nicolau Copérnico e Umberto Eco!