Quando ministros vêm a público dar opiniões e até censurar colegas, como fez Gilmar Mendes, o que está em risco é a credibilidade da Justiça e a Lava-Jato. O STF está falando demais. É raro que se passe uma semana no Brasil sem que algum ministro do Supremo Tribunal Federal dê uma declaração de impacto, com repercussão na imprensa. Em países mais desenvolvidos, como Alemanha e Estados Unidos, isto seria inapropriado, ou inimaginável, juízes das altas cortes destes países preferem o silêncio, com uma postura bem diferente dos seus pares brasileiros. Nestes países, prevalece o entendimento de que qualquer palpite ou opinião fora dos autos pode atrapalhar a unidade e a imagem de independência da alta corte perante a sociedade.
É importante dizer que "unidade" não significa a inexistência de divergências de opiniões entre magistrados das altas cortes. Quando as chamadas "opiniões dissidentes" ocorrem, no entanto, elas aparecem apenas como anexos nos autos de uma decisão judicial. As possíveis discussões internas sobre o tema - que podem até ser bastante acaloradas - jamais são expostas fora desse limite. Os comentários devem apenas se limitar as questões constitucionais. A política fica exclusivamente para os políticos.
Em um momento tão delicado da conjuntura político-jurídica brasileira, em que os ataques aos trabalhos da Operação Lava Jato surgem a todo momento, seria bom que os 11 ministros do STF tomassem redobrado cuidado em suas declarações, mesmo quando atingem diretamente apenas um juiz, pois afetam o STF como um todo.
A Lava-Jato e todo o processo de limpeza ética no Brasil só se sustentarão se continuarem contando com o forte apoio da opinião pública, da imprensa e da sociedade civil. Para que tudo isso se sustente é fundamental que a Justiça se blinde contra possíveis ataques. Neste sentido, uma medida salutar seria que evitassem qualquer divergência pública.
Como leigo no assunto, se eu pudesse ajudar no debate diria: "Juízes brasileiros, sejam mais alemães e americanos".