09 de julho de 2026
Articulistas

Literatura cantada

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 2 min

Qual a relação entre a sílaba e a melodia? De que forma a rejeição social forja a identidade cultural brasileira? Essas duas questões estão postas no livro “Literatura cantada”, projeto que une literatura e música em diferentes gêneros e que está sendo lançado hoje no palco do Teatro Municipal de Bauru, às 20h30, e também vai ao Festival do Livro, no dia 4 de novembro, em Lençóis Paulista.


Como analfabeto musical, passei os últimos dois anos intrigado com a necessidade de compreender por qual razão um analfabeto musical produz melodias, muitas delas com razoável conteúdo harmônico, sem qualquer domínio sobre códigos musicais?


Sem a pretensão de reinventar a roda, invoquei o lado jornalista para mergulhar em estudos como o do doutor pela Universidade de São Paulo (USP) semiotista José Roberto do Carmo Jr. Ao entrevista-lo sobre o processo denominado “palavra cantada” busquei reflexão sobre a compreensão de que cada sílaba corresponde a uma nota musical. Assim, ao burilar palavras, tendo como princípio as possibilidades da semântica melódica inserida nelas, construí raciocínio para o exercício da ação de compor sem domínio da codificação musical.


De outro lado, a proposta do “Literatura cantada” é o de iniciar o garimpo não menos sugestivo na compreensão da formação da identidade cultural a partir da rejeição social no Brasil.


Aqui, merece parêntese os ingredientes trazidos pela sociologia a partir da formação de agrupamentos no Brasil colonial desde, por exemplo, a vinda da trupe de Tomé de Souza, em 1549. Dos 1.400 ‘aventureiros’ que desembarcaram na terra ‘descoberta’ por Cabral, não mais que meia dúzia eram mulheres.


E eis que os portugueses se relacionaram com as índias e deles vieram os párias, a “primeira geração’. Os filhos de portugueses com índias não foram aceitos pela Coroa. Eis a gênese brasilis da rejeição em curso.


Depois, em recorte histórico abrupto, vieram cafuzos, filhos de negros com índios. A exclusão, de novo, repete o rito e das pequenas vilas e do flagelo das senzalas deu-se a aproximação, paradoxalmente, dos rejeitados. Pouco nobres para a elite, mas de léxico, sincretismo e riquezas da miscigenação profundas. Um caminho que repete seu rito em nossas periferias. E dessa mistura forjada na rejeição deu-se a profusão de escalas genéticas e de bagagens essenciais à nossa amplitude, abrangência e efervescência como povo. É a exclusão forjando nossa identidade cultural. Para cada capítulo, uma canção. Eis a “Literatura cantada”.