08 de julho de 2026
Articulistas

A Palavra

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

“Palavras, palavras, palavras” responde Hamlet a Polônio quando este lhe pergunta o que o príncipe estava lendo. E quando Polônio pergunta, mais uma vez, qual era a trama do livro, Hamlet responde que eram calúnias contra os velhos, que jamais deveriam ser postas no papel. Na verdade, não eram calúnias, eram verdades que apontavam a decadência da velhice, mas Hamlet achava que não era decente falar sobre isso. Fala-se demais. Jogam-se palavras ao léu, desperdiçando-as. Escritores perdem, muitas vezes, a oportunidade de deixar a superfluidade de lado. Políticos assassinam as palavras, desgastam-nas, tirando o sentido do discurso. Escrever, falar não é para qualquer um.


O próprio Sartre, em ‘As palavras’, mostrou-se descontente consigo mesmo, temendo não ter correspondido quando adulto ao que a família esperava dele quando criança: “faço e farei livros, são necessários; sempre servem, apesar de tudo”. José Carlos Oliveira falou com propriedade: “Palavra é sangue. Não se derrama”. O pretenso literato que enrola, tergiversa, usa texto em círculo para dizer em três palavras o que consome laudas de papel, não passa de um chato que entedia o leitor. O discurso patife, como disse Hamlet, só pode dormir mesmo no ouvido idiota.


Sempre gostei de Virginia Woolf, apesar de ter lido que na família não era tida como muito certinha, servindo até de chacota para as crianças. Pouco me importo com isso. Quem é capaz de usar palavras adequadas e construir metáforas encantadoras como as fez, não pode passar pelo crivo de crianças. “Fico atônita quando afasto o véu das coisas com palavras, e constato o quanto mais infinitamente mais, observei do que consigo dizer”. Quem escreve uma frase  como essa, mostrando, de certa forma, a impotência da palavra, merece julgamento?


Acredito que, neste texto, eu esteja satisfazendo a vontade dela que consentia em manter suas frases pendentes como roupas num armário, aguardando que alguém as usasse. Quando nossa preocupação é a palavra, e admitimos que muitos a malbaratam, forçoso é destacar os que fizeram dela um altar, um culto, uma paixão. Suponho que o leitor esteja farto, como eu, de tanto embuste, de tanta charlatanice, de tanta bijuteria intelectual. Se é assim, meu amigo, vá para Proust e deleite-se com a riqueza de suas palavras.


Muitos dirão que as traduções são traidoras, que é preciso ler no original. Bobagem! Então, se não conhece o francês, vai deixar Proust de lado? Basta procurar um bom tradutor. Eu, por exemplo, li James Joyce em português, tradução de Houaiss. E daí? Não é melhor assim do que ficar de boca aberta feito bobo quando, numa roda de conversa, alguém pronuncia o nome de algum notável? “E não se arrasta às vezes uma palavra como uma serpente?”, pergunta Neruda. Sim, mas, outras vezes, ao contrário, faz-se dela um florete que desbrava mistérios, “um pandeiro de cristal ferindo a madrugada” (esta tomei emprestado de J. J. Benítez, que a plagiou de Lorca).

Lygia Fagundes Telles conta que estava vendo na tevê uma luta de boxe. Desligou o som e ficou só a imagem do lutador já cansado, mas resistindo. Insistindo. O que mantinha o lutador de pé? Duas vezes beijou a lona. Poeira, suor e sangue. Alguém sugeriu que jogassem a toalha. Mas, ele se levantava de novo, o fervor acendendo a fresta do olho quase encoberto pela pálpebra inchada. Era a coragem que sustentava o lutador? A vaidade? A necessidade do aplauso? Tudo isso tinha sido, mas agora era a vocação, a paixão. E, diz Lygia, de repente me emocionei: na imagem do lutador de boxe vi a imagem do escritor – eu diria, daquele que luta com a palavra. Se o pensamento verte sangue, parafraseio Lygia, desse sangue estão impregnadas as palavras.


A autora é pedagoga, advogada, jornalista, professora doutora aposentada da Unesp. mg-de-rosa@hotmail.com