08 de julho de 2026
Regional

Botucatu: primeira estação experimental de café

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 12 min

Divulgação
Fazenda Lageado pertencente à Unesp

"A Estação Experimental de Café de Botucatu e as transformações na Cafeicultura Nacional na Era Vargas (1934-1945)", de autoria de Jefferson de Lara Sanches Junior, é fruto da dissertação de mestrado, defendida no programa de pós-graduação em Política Científica e Tecnologia, vinculado ao Instituto de Geociência da Universidade Estadual de Campinas.

O trabalho analisa o papel da estação nas mudanças ocorridas na cafeicultura entre 34 e 45, quando Getúlio Vargas esteve no poder. Momento em que o Brasil atravessava grave crise econômica movida pela quebra de Wall Street, pela superprodução do café e queda no preço. Na esfera política, assistia-se à ascensão de um novo governo sob o comando de Getúlio Dornelles Vargas.

A partir de então, prometia-se uma mudança radical nas práticas políticas e econômicas que vigoraram até então das oligarquias que dominaram o poder na "República Velha". Na esfera econômica, o problema mais grave a ser enfrentado pelo novo governo encontrava-se na cafeicultura, principal gerador de divisas para a nação.

Época em que todos os procedimentos adotados para a rubiácea deveriam ser revistos ou transformados, além da adoção de conjunto de medidas que diminuíssem a dependência econômica brasileira em relação à cafeicultura. O objetivo era solucionar as debilidades do setor e implantar um novo modelo de controle. As diretrizes sobre o principal produto da balança comercial brasileira foram apontados pelo governo federal.

No estudo, o pesquisador constata que o foco principal de discussão ocorre em torno das medidas econômicas adotadas para contornar os impactos que atingiram diretamente a cafeicultura. Dentre eles, a instituição de cotas de sacrifício, ou a formação de institutos federais como o Serviço Técnico do café (STC), vinculado ao Ministério da Agricultura, e o Conselho Nacional do Café (CNC), criado em maio de 1931 e, posteriormente, o Departamento Nacional do Café (DNC), criado em 1933, para substituir o antigo CNC.

Foi a partir desse período que o governo federal direciona os esforços para uma política de diversificação da agricultura brasileira, com o objetivo de tornar o país menos dependente do café. Adota-se uma atitude específica de melhorar a qualidade do café a fim de torná-lo competitivo no mercado externo.

Para isso, criam-se as estações experimentais por todo o país. A do café é instalada em Botucatu. Segundo Sanches, as estações experimentais realizavam uma diversidade de trabalhos, com foco para os produtos de melhor aplicação nas regiões em que estavam aplicadas. "No caso de Botucatu, os trabalhos se focaram nos primeiros anos da cafeicultura, visando realizar pesquisas que possibilitem o plantio de um café de boa qualidade que pudesse ser inserido em regiões de São Paulo, como a Sorocabana, a Alta Paulista, a Noroeste, além do Norte do Paraná, áreas que na década de 30 produziam uma grande parte do café brasileiro."

Ministro abriu estação experimental

Duas fazendas de Botucatu serviram para estudos da cafeicultura, após a crise que abateu o setor nos anos 30 e funcionou até a década de 70

 

A primeira estação experimental de café do país foi criada em 1934 com a aquisição das fazendas Lageado e Edgárdia pelo Departamento Nacional do Café (DNC) quando o Ministério da Agricultura assumiu as instalações. As atividades tiveram início com a chegada de engenheiros agrônomos. A inauguração oficial aconteceu no ano seguinte, no dia 29 de abril, com a visita do ministro da Agricultura, Odilon Braga.

A visita também marcou o início das obras da diretoria da estação experimental, com o lançamento da pedra fundamental. A estação funcionou até a década de 1970. Em 72, o governo federal cede as instalações ao governo do Estado de São Paulo para o uso da fazenda como unidade de ensino superior, instituindo os cursos de agronomia e medicina veterinária que, juntamente com as faculdades de ciências médicas e biológicas de Botucatu e os outros institutos isolados de ensino superior do Estado uniram-se em 1976, para a formação da Unesp.

De acordo com o autor, o Brasil possui uma antiga tradição de institutos de pesquisa agrícola, desde a vinda da Família Real. Em 1808 foi criado o Jardim Botânico, por iniciativa de D. João VI. O espaço foi destinado ao estudo e aclimatação de diversos tipos de plantas e vegetais, no Rio de Janeiro.

Após a implantação do Jardim Botânico, ocorreu a instalação de outros institutos. "Durante o império, com destaque para o criado em Campinas no ano de 1887. Após a Proclamação da República, ele se transforma em Instituto Agronômico de Campinas. Época em que foi considerada a 'capital agrícola' de São Paulo e sofre forte influência pela expansão do café, que se alastra pelo estado."

No final do século XIX e início do XX, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) foi um dos maiores institutos de pesquisa em café do mundo. "Além dele, tínhamos as estações experimentais, cuja importância cresceu de forma significativa com a chegada de Getúlio Vargas na presidência, após a Revolução de 1930, chegando a 40 institutos em 1940."

As estações tinham importância fundamental no projeto de diversificação da produção agrícola. "Que era o que se pretendia, fugindo da dependência ao café, então em crise. Muitas dessas estações experimentais vão compor a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em 72. Atualmente a Embrapa é a maior instituição de pesquisa em agricultura tropical do mundo."

Diversas culturas

A Estação experimental de Botucatu em convênio com o Instituto Agronômico de Campinas desenvolveram inúmeros trabalhos e pesquisas agrícolas. Ao lado do café, passaram a ser cultivados em caráter experimental: trigo, mandioca, amendoim, milho, cevada, vime, rami, sisal etc.

Estação experimental focou melhoria do café

 

Jefferson de Lara Sanches Junior  enfatiza na dissertação que as estações experimentais realizavam uma diversidade de trabalhos, com foco para os produtos de melhor aplicação nas regiões em que estavam aplicadas. "No caso de Botucatu, os trabalhos se focaram nos primeiros anos da cafeicultura, visando realizar pesquisas que possibilitassem o plantio de um café de boa qualidade que pudesse ser inserido em regiões onde se produzia grande parte do café brasileiro."

QUALIDADE

Os experimentos feitos em Botucatu destinaram-se a obtenção de um grão que possibilitasse uma bebida de melhor qualidade. "Semelhante do café colombiano, principal concorrente do produto brasileiro. Para isso, eles realizavam pesquisas com o sombreamento do cafezal, podas, enxertia, além do controle de broca do café, principal ameaça a produção no que se refere as pragas."

Economia do Brasil foi dependente do café até estourar a crise de 1929

 

O Brasil teve a sua economia muito dependente da produção de café. No seu auge deixou cafeicultores ricos, possibilitou a construção de ferrovias e influenciou até mesmo a modernização das cidades.

A região viveu esse apogeu como Garça, Pirajuí, Cafelândia entre outros municípios. Mas a crise de 1929 quebrou os produtores, afinal o país era dependente das exportações de um único produto, o café.

O crash provocou uma mudança no foco de poder no país, acabou com um pacto político interno que já durava mais de trinta anos.

A política café com leite quando se elegia presidente da República paulista pelos barões do café num mandato e, no outro pelos pecuaristas mineiros, chega ao fim.

Em 1929, a quebra nos mercados acionários do mundo provocou uma forte queda nos preços internacionais das commodities. 

Além da queda nos preços, a crise provocou uma diminuição na renda e no consumo no mundo todo, prejudicando ainda mais as vendas de café.  

QUEIMOU ESTOQUES

Na tentativa de conter a queda, o governo federal comprou grande parte dos estoques dos produtores, e queimou 80 milhões de sacas do produto. A crise arruinou a oligarquia cafeeira, que já sofria pressões e contestações dos diferentes grupos urbanos e das oligarquias dissidentes de outros Estados 

O que aconteceu, então, foi que o foco do poder no país foi deslocado para o gaúcho Getúlio Vargas, que se tornou presidente da República após a Revolução de 1930.

O novo presidente, porém, sabia que, mesmo com o fim da oligarquia paulista, o café não podia ser deixado de lado. Assumiu, então, uma nova política de defesa da cafeicultura, na tentativa de equilibrar os preços e evitar a superprodução. Getúlio incentivou a criação da Estação Experimental para melhorar a produção cafeeira.

A cafeicultura nacional também se veria diante de desafios, como controle dos estoques e combate à concorrência, que recrudescia cada vez mais.

Fazenda virou faculdade da Unesp

As Estações Experimentais Lageado e Edgárdia, formadas por área contínua, constituíam antigas propriedades particulares produtoras de café

Divulgação
Museu do Café é um dos principais pontos turísticos de Botucatu, onde foi a Estação Experimental

As Fazendas Experimentais Lageado e Edgárdia, formadas por área contínua, constituíam antiga propriedade particular produtora de café, em meados do século passado. As duas abrigam atualmente, a Faculdade de Ciências Agronômicas e Medicina Veterinária da Unesp.

A Fazenda Experimental Edgárdia, localizada parcialmente na “Cuesta” de Botucatu, abarca o desenvolvimento de atividades zootécnicas e de conservação das matas naturais, recobrindo mais de 500 ha, englobadas em área de Proteção Ambiental (APA).

Do passado há inúmeras lembranças ‘vivas’. As instalações antigas estão em uso. As antigas moradias sediam núcleos e unidades de serviço.

A “Casa Grande” é utilizada pelo Museu do Café. Um dos mais completos acervos históricos da região, cujo objetivo é o de preservar, recuperar, organizar e expor ao público, especialmente a população escolar de 1º e 2º grau seu acervo arquitetônico, documental, de peças e máquinas antigas, vinculado ao café e sua história no espaço regional.

Com raízes da escravidão, a área é de valor paisagístico inestimável. Hoje, convive harmoniosamente com modernos prédios, em sua maioria constituídos a partir da década de 1970. Eles abrigam sedes departamentais, diretoria e administração, central de salas de aula, laboratórios, casas de vegetação, equipamentos de esporte e lazer, etc.

Segundo o historiador João Carlos Figueiroa, a ‘Casa Grande’, antiga sede da Fazenda Lageado era o coração da propriedade. “Toda a fazenda foi preservada. É a memória das antigas propriedades de café. Durante um longo período essa área foi grande produtora de café”. O Museu do Café e a área histórica são um dos principais pontos turísticos da cidade e região.

Recebe visitantes dos municípios do interior paulista, de outros estados brasileiros e estrangeiros. Desde 2006 quando passou a ser administrado e inserido em um projeto, foi visitado por quase 150 mil pessoas. O público é principalmente formado por alunos e pesquisadores.

O conjunto arquitetônico, típico das fazendas do interior paulista, ocupa uma área de aproximadamente 890 alqueires. Possui grande extensão de vegetação de grande porte e de excepcional beleza, com muitos exemplares de madeiras nobres e de lei (peroba, cabreúva, ipês, cássias, jacarandás e cedro). A fazenda é cortada pelo Rio Lavapés e outros riachos.

Até a década de 70, as fazendas Lageado e Edgárdia abrigavam a Estação Experimental Agrícola do Ministério da Agricultura. Nesse período foi responsável pelo desenvolvimento de pesquisas e experimentos técnico-científicos na área da cafeicultura. Foi construída baseada nas características do século XIX, como o paiol, o moinho e a estrutura do parapeito do terreiro de café- na tradição do seu colono italiano.

A arquitetura romana é predominante com maquinários e outras instalações da época da Estação Experimental Agrícola. Além da história, o museu abriga diversas exposições artísticas em seu espaço cultural. Abriga ainda artefatos arqueológicos obtido na área da fazenda e na região de Botucatu por meio do Projeto Arqueologia no Campus.

Botucatu foi escolhida pela localização geográfica no início da Alta Sorocabana

Aceituno Jr.
Arado e objetos do período da cafeicultura é possível conhecer no Museu do Café de Botucatu

Na pesquisa de Jefferson Sanches é explicado no final do trabalho apresentado na Unicamp que, Botucatu foi a cidade escolhida para abrigar a Estação Experimental para centralizar os esforços do governo federal em ciência e tecnologia na cafeicultura e por sua infraestrutura, como estradas de ferro e de rodagem, e por sua localização geográfica, situada no início da Alta Sorocabana e de fácil acesso à Alta Paulista, Noroeste e Norte do Paraná, regiões às quais o café se espraiava e despertava maior atenção na luta por sua qualidade.

No município, a propriedade escolhida foi a composta pelas fazendas Lageado e Edgárdia, tradicionais unidades produtoras da região. As atividades iniciaram-se em 1934 e sua inauguração, no ano de 1935, recheada de muita expectativa, por acreditarem ser aquela a instituição que possibilitaria a solução do problema da qualidade do café brasileiro e, por conseguinte, da concorrência internacional.

Além do caráter técnico da escolha, assim como o seu congênere campineiro, a Estação Experimental de Botucatu foi uma consequência direta da marcha do café pelo Estado de São Paulo. Fundado em fins do século XIX, o IAC tinha por finalidade atender a uma região cujo crescimento das plantações de café se dava de forma considerável, sendo para isso necessária a existência de uma instituição que concedesse o suporte científico para isso.

Aceituno Jr.
José Eduardo Candeias mostra sacas de café que estão no recinto do Museu do Café

Em Botucatu, podia constatar uma situação semelhante, nos anos 1930: uma instituição de pesquisa em uma região que possibilitaria o atendimento das novas regiões, com o diferencial de que agora o governo federal tomava as rédeas e o agravante de se tratar de uma região produtora de um café de baixa qualidade, diferentemente do que havia nas zonas atendidas por Campinas. Aliado a isso, havia ainda o fato de que a estação botucatuense foi instalada em um período de crise na cafeicultura e parte das esperanças de salvação da produção nacional passava por ali. Sob esse prisma, a instalação de uma estação experimental para o café em Botucatu se deu em condições muito mais adversas do que em outras situações; contudo, inserindo-se como fruto da expansão cafeeira em São Paulo.

Segundo Sanches, as atividades na Estação Experimental de Botucatu se iniciaram, porém a ausência de recursos e a intermitência do corpo de técnicos e de diretores, aliadas ao fato de ainda se manterem centenas de milhares de pés de café em produção, prejudicavam de forma considerável o seu desenvolvimento.

Durante o período, pesquisas sobre a inoculação de levedos de zonas produtoras de cafés “moles” em cafés “duros” e o sombreamento de cafezais como forma de melhorar a produção foram desenvolvidas, com especial destaque para a última. Entretanto, em alguns casos os resultados foram pouco conclusivos e os experimentos com sombreamento comprovaram sua total inviabilidade.

Sanches destaca que ao mesmo tempo houve uma crescente diversificação das atividades de pesquisa ali realizadas, que passam a atender outros produtos, ao mesmo tempo em que há uma perda paulatina no interesse e no entusiasmo demonstrado à época da inauguração do instituto botucatuense em relação às pesquisas com o café.

“Por que isso? Nossa hipótese é a de que a retirada de impostos sobre o café, feita em 1937, e os acordos de venda do produto assinados durante a 2ª Guerra Mundial terminaram por resolver o problema da concorrência e garantir um mercado consumidor, em especial o norte-americano, sem a necessidade de se alterar a qualidade do produto”, deduz o autor da pesquisa em seu livro.