09 de julho de 2026
Articulistas

Será que eu tenho razão?

Wellington Balbo
| Tempo de leitura: 2 min

Deixe um pouco, se isto é possível, os afazeres de seu dia e reflita nos motivos pelos quais as pessoas entram constantemente em confronto. Por que as pessoas brigam por partidos políticos, times de futebol, desgastam relacionamentos e estabelecem divisões até em família? Eu tenho um palpite. Todos querem ter razão. Pouco importa se estão certos realmente, mas querem ter razão, ou, ao menos, querem que o outro admita que elas estão ao lado do “certo”.


Um amigo me disse, certa vez que, todas as vezes que seu tio, são paulino roxo, tentava convencê-lo de que o São Paulo jogou melhor do que o Palmeiras, ele apenas dizia: você tem razão! Pronto, era o que bastava para ele abrir o sorriso e ficar feliz. Não discutiam e são amigos até hoje.


Outro dia entrei num embate verbal com alguns familiares. Falei algo que sabia a razão estar comigo, eles discordaram. Eu insisti. Eles continuaram, teimosos, no “errado”. E eu não resisti: fiz o que faz a maioria das pessoas. Fui embora do churrasco e, trinta minutos depois, me arrependi, mas não adiantava mais, a carne já havia acabado e a cerveja estava quente. Quanto tempo desperdiçado apenas para ver quem tinha razão. Depois percebi que o fato de eu ter razão em nada acrescentou. Quanta bobagem! Aliás, será mesmo que eu tinha razão? Sabe Deus...


Minha esposa, quando as bombas hormonais a invadem uma vez por mês, costuma falar: quando eu estiver nervosa, fique quieto e apenas concorde, logo a raiva passa e a gente se acerta. Há um bom tempo descobri o que ela quer e eliminei as brigas do meu relacionamento. Ela quer razão. Aliás, cá entre nós, tomara que não leia este artigo. Imagine numa relação a dois ou, sei lá, a três, todos correndo atrás da frase mágica: Você tem razão! Ninguém se entenderá. Mas, quem é que neste mundo, ainda tão vaidoso e orgulhoso, quer se entender com o outro? Quem quer abdicar da razão para ser feliz ou levar uma vida mais leve?


E, olha, sinceramente, não é bolinho dar o braço a torcer, tem que passar por cima do orgulho ferido, da vaidade, do melindre... E quem é forte a este ponto? Quem é forte ao ponto de abrir mão de sua “razão” para fazer com que brilhe a “razão” do outro? Ah, essas razões... tomando um pedaço do pensamento de Blaise Pascal, digo que a razão tem razões que a própria razão desconhece... Quer arrumar um inimigo? Experimente dizer a alguém que ele está errado e, bem provável, você terá um desafeto. Quer arrumar um amigo? Diga a ele que está coberto de razão e, bem provável, terá um amigo... Aliás, estava aqui pensando sobre tudo o que escrevi: será que eu tenho razão?

O autor é colaborador de Opinião